8 de dez de 2018

O silêncio de Moro diante do escândalo da Coaf diz tudo

"Você faz campanha em poesia e governa em prosa", dizia Mario Cuomo, que foi governador de Nova Iorque. Dificilmente a campanha de Bolsonaro teve algo de poético, mas dá para entender o recado.

Não dá para tocar um governo investindo contra fantasias como mamadeira de piroca, kit gay, Foro de São Paulo, Triplo A e marxismo cultural. Ao escolher para ministérios tão importantes quanto o MEC ou o Itamarati gente cuja única credencial é combater estas fantasmagorias, Bolsonaro mostrou que não tem disposição de abrir mão da "poesia" da campanha.

Mesmo os dois ministros mais visíveis do novo governo, Paulo Guedes e Sérgio Moro, parecem ter sido nomeados por motivos similares. Nenhum deles reúne as qualidades necessárias para ocupar o cargo. Não têm experiência de gestão, não têm visão de Estado, não têm capacidade de negociação, não têm jogo de cintura. São símbolos, um do mercadismo, outro da pretensa intolerância à corrupção.

E quando as ambiguidades começam a aflorar, como já afloram com força neste período de transição, como eles reagem? Nada. Ficam - para usar a notável expressão de outro bolsonariano injustiçado que terminou sem cargo depois de tantas promessas, o ex-deputado Alberto Fraga - com cara de babaca, sem reação. O silêncio de Moro diante do escândalo da Coaf diz tudo.

Mas Bolsonaro vai ter que governar, de todo jeito. A promoção de um clima belicoso no país, que sua campanha permanente exige, não ajuda nesta tarefa. E a opção preferencial por símbolos em vez de pessoas com capacidade governativa também não.

Enquanto isso, a bancada eleita do PSL se digladia, limpando a roupa suja em público - na verdade, o negócio anda tão animado que parece que eles já começaram a sujar a roupa limpa. Talvez o estrondoso crescimento do PSL não tenha sido tão bom negócio para o novo governo. Não há ali um partido, nem no sentido minimalista dos partidos brasileiros: é um conglomerado de arrivistas, cujo sucesso se baseou na própria estridência e descaramento, que não se preocupa em entender as regras porque concluiu que o caminho é quebrar as regras e que agora espera ganhar sua parte no butim. Bolsonaro estaria melhor com os velhos e confiáveis políticos fisiológicos comuns, abrigados no DEM, no PSDB e nas outras legendas tradicionais.

A perspectiva de descalabro do futuro governo, porém, não é necessariamente uma boa notícia para o campo democrático. O despreparo e o ethos voluntarista, profundamente reforçado pela vitória de outubro, que campeiam no bolsonarismo podem levar a uma "fuga para a frente" como resposta às crises. Ou seja, à aposta em um mergulho ainda mais fundo num programa liberticida e violento.

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