24 de dez de 2018

O reposicionamento das oposições progressistas

Foto Rafael Carvalho
A vitória de Bolsonaro não pode ser encarada como uma mera continuidade do arranjo golpista que tirou Dilma do poder. Não foram só as esquerdas que foram derrotadas nas eleições, mas também boa parte das forças que fizeram parte daquele arranjo capitaneado por Temer e pelos grupos que a ele se agregaram. A vitória de Bolsonaro também não pode ser vista como um fato normal da política brasileira. Pela primeira vez a extrema direita chega ao poder legitimada pelas eleições. Esta situação exige não só uma profunda avaliação dos erros e das debilidades das esquerdas e do campo progressista, mas também um reposicionamento espacial, organizativo, político e programático. As resoluções dos partidos que tentaram assentar entendimentos acerca desta conjuntura pouco acrescentaram e não avançaram posições indicativas para reposicionar os mesmos.

As esquerdas em geral e o PT em particular estão na defensiva. Não é um fenômeno apenas nacional. Excetuando o México, a direita avançou, além do notório caso norte-americano, em diversos países latino-americano. Na Europa, além de uma forte presença no Leste Europeu, a extrema-direita avança nos países que foram pilares da democracia no pós II Guerra, a exemplo da Inglaterra, Alemanha, Áustria, França, Itália, Espanha, Portugal e até mesmo na Suécia. Embora haja uma articulação internacional crescente da extrema direita, as especificidades de cada país ou de cada região são determinantes nas explicações que são fornecidas por analistas acerca do crescimento da extrema direita.

Na Europa, as causas que são apontadas, em resumo, para explicar o crescimento da extrema direita são as seguintes: fragmentação das estruturas partidárias tradicionais, captura da democracia pelo capital financeiro, incapacidade das democracias em apresentar soluções aos problemas crescentes de desigualdade e falta de direitos, processos migratórios que causam temor tanto na questão do emprego quanto no enfraquecimento cultural e político das hegemonias brancas européias, transformações econômicas e tecnológicas que ameaçam empregos e geram insegurança e empoderamento dos indivíduos pelas redes sociais quebrando as estruturas sociais e políticas hierarquizadas, situação de que se vale a extrema direita para mobilizar vontades e pessoas.

Algumas dessas causas estão presentes também nas explicações do crescimento da direita e da extrema direita na América Latina. Mas aqui também existem especificidades. Após navegar numa onda de bonança, alguns governos e partidos de centro-esquerda sofreram golpes e derrotas eleitorais. Com exceção do Uruguai, em praticamente todos os outros governos de centro-esquerda ou esquerda da região surgiram casos de corrupção, provocando perda de legitimidade popular, ofensiva do falso moralismo da direita e derrotas. Ademais, esses governos, no geral, não foram capazes de realizar reformas institucionais e políticas capazes de remover os mecanismos que perpetuam as desigualdades na região, limitando-se à implementação de programas sociais que reduziram temporariamente essas desigualdades. Esses governos foram também incapazes de criar alternativas de integração global dos países que governaram e da própria região, ao contrário do que vem fazendo a China há quatro décadas.

É diante de um conjunto complexo de problemas, do qual se destacaram aqui apenas alguns pontos, que as esquerdas e o campo progressista precisam se reposicionar. Quem avançou mais o sinal até agora foram o PDT, o PSB e o PC do B, formando um bloco. Além de criar um polo de oposição visando construir uma alternativa em torno de Ciro Gomes, este bloco busca uma  posição espacial situada na centro esquerda, mas deslocada mais ao centro do que à esquerda. Aparentemente, este bloco avalia que o espaço que vinha sendo ocupado por um setor mais democrático do PSDB ficou vazio à medida em que os tucanos, liderados por Dória, se deslocam mais à direita. Não ficar sob a hegemonia do PT é outro objetivo desse bloco. Mas este bloco poderá ter uma concorrência: um novo partido, resultante da fusão do PPS, Partido Verde, Rede e parte do PSDB deverá surgir visando ocupar este espaço de um centro democrático que está vazio.

A situação do PT é a mais difícil. Relativamente isolado, o partido se mostra incapaz de viabilizar uma solução para a situação de Lula e também se mostra incapaz de se renovar. Fernando Haddad, a sua principal liderança, excetuando Lula, deverá ter uma posição secundária no partido, dominado pela burocracia que serve líderes fracos. Com uma retórica formalmente mais radical para encobrir seus fracassos, o PT vem perdendo aos poucos a dimensão de um partido que tinha um projeto para o Brasil e, consequentemente, um projeto de poder. Tornou-se, em um sentido político, uma ala do PSol. Mas aquilo que o PSol sabe fazer bem, o PT não sabe fazer, pois o seu espaço e o seu programa não podem ser os mesmos do PSol.

À esquerda, o PSol ficou com o espaço livre e à sua disposição para crescer. A decisão de Boulos de permanecer no partido, mesmo sem a presidência, e de não retornar à condição de coordenador do MTST, foi sábia, pois lhe abre caminho para se firmar como líder político. O próprio PSol terá que abrir-se mais, superar o sectarismo interno dos pequenos grupos que disputam pequenos poderes.

Boulos poderá cumprir um papel importante na articulação de vário movimentos sociais, principalmente da periferia, que não estão ligados a partidos e nem querem se ligar. Isto implicará sabedoria e criatividade para fazer convergir pautas e agendas específicas e diversas, que precisam se encontrar no futuro num movimento, numa organização ou numa frente sob o abrigo de um programa universalizante. Saber respeitar estes movimentos, sem pretender aparelhá-los, é um ingrediente dessa sabedoria. Dispersos, esses movimentos são fracos. Se convergirem para um programa comum, se tornarão fortes.

Os partidos e os movimentos de esquerda precisam equacionar tanto a sua organização de base quanto a articulação e o fortalecimento dos movimentos sociais de base. É preciso superar a principal causa das sucessivas derrotas das esquerdas: a inexistência de força organizada nas grandes periferias das cidades. Força consciente, formada, organizada, não só para resistir às investidas contra as liberdades e contra os direitos que virão do governo Bolsonaro, mas também para mobilizar e conquistar vitórias. É preciso criar uma mentalidade combativa nos movimentos sociais e políticos progressistas, pois as esquerdas perderam as ruas. É preciso reconquistá-las.

É improvável que se formem frentes formais e orgânicas em oposição ao governo Bolsonaro. As frentes serão informais e temáticas, definidas por pautas e agendas. A frente informal mais ampla deverá ser a frente democrática, que irá da esquerda até o centro democrático e dela participarão sindicatos, movimentos sociais, a sociedade civil, intelectuais e estudantes. A base desta frente será a defesa da Constituição, da democracia, das liberdades e dos direitos em face de possíveis ataques do governo. Sempre que essas instituições forem atacadas ou sofrerem ameaças a frente deverá agir para defendê-las e para reforçar a cultura democrática.

Outra frente será a frente das lutas sociais, mais orgânica, articulada pelas Frentes Povo sem Medo e Brasil Popular, pelo MTST e pelo MST e pelas centrais sindicais. Além dos movimentos sociais, aproximará o PSol, o PT, o PCdoB e setores do PDT e do PSB, entre outros. A frente das lutas sociais, além de resistir e lutar por direitos, terá que superar duas deficiências endêmicas que são causas de derrotas: estimular uma cultura de combate e mobilização e organizar bases sociais com a formação de novas lideranças. A juventude em geral hoje está fora das lutas e parte dela aderiu à direita. É  preciso perceber as causas disso e enfrentá-las, rever as formas de comunicação, de participação e de organização para torná-las capazes de atrair os jovens. Se estes problemas não forem enfrentados e superados, as esquerdas e os progressistas viverão um longo inverno.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).
No GGN

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