17 de dez de 2018

Nenhum período de graça, nenhum crédito de confiança

https://www.ocafezinho.com/2018/12/16/wanderley-bolsonaro-nao-merece-nenhum-credito-de-confianca/

Até o acaso tem limites. A declaração de guerra preventiva do governo Bolsonaro contra, não as práticas propriamente, mas os praticantes dos escambos usuais da política – apoio em troca de recompensas – plantou suficiente número de sementes para pequenas e grandes escaramuças. As condições econômicas e sociais continuam insatisfatórias e não haverá conserto nos dois semestres de 2019. Mesmo contida, a dogmática de Paulo Guedes e sua Ordem de cruzados velhos não terá dificuldade em provocar insatisfação generalizada, apesar dos sorrisos de botox e declarações fúteis dos segmentos empresariais.

Se as democracias normais estão em alvoroço para amenizar colisões entre interesses sublevados, o curto prazo não promete serenidade em democracias estúpidas, fundadas em estereótipos e preconceitos, única riqueza jamais dissipada entre nós: preconceitos religiosos, de existências medíocres, de primitivos em estado de graça, aliados aos estereótipos culturais de mentalidades obsoletas.

Tamanha imperícia acumulada não esclarece as tentativas de importar a guerra fria entre os Estados Unidos e a China, como ensaiam os mutantes em vias de assumir o governo, candidatos a hilários e desprezados fantoches. Menos ainda o provocador anúncio de mudança da representação do Brasil em Israel para Jerusalém. A cada semana tuitasse um retrocesso civilizatório na política externa brasileira. Tudo isso somado não pode ser aleatório. Ao contrário da falsa saúde cognitiva, o mundo atual contém conspirações e conspiradores como jamais na história das nações.

Conspiratas palacianas durante o absolutismo, conspirações contra a ordem aristocrática nos séculos XVII e XVIII, conspiratas sem fim para o rodizio de ditadores na América Latina do século XX, nada disso se compara à soma de espionagem industrial, de conspiração tecnológica de manipulação de dados contra os consumidores e contra eleitores, de conspirações entre nações poderosas dividindo mercados, sabotando a difusão do conhecimento, racionando a publicidade de conquistas farmacológicas, e sabe-se lá o quê mais. As conspirações atuais capturam milhões de pessoas e as regras do capitalismo enquanto jovem tornaram-se antiguidades sem valor de mercado.

A discussão entre conceder ou não algum crédito ao governo por começar é alternativa para quem dispõe de recurso financeiro ou político para financia-lo. Analistas independentes não têm porque dispensar períodos de graça a quem, diariamente, reafirma contra quem pretende governar. Não se trata de difama-lo, mas enquadra-lo no contexto real, no mundo cuja deterioração ou recuperação depende de ações, não de jogos de paciência.

O Brasil faz parte de pequeno conjunto de países se equilibrando no limite da inviabilização de sua autonomia. A ignorância dos líderes intelectuais da esquerda é assustadora, o anti-intelectualismo adotado pelo PT em seus anos iniciais exaltou a politica de resultados imediatos, desprezando a cultura de vanguarda e os professores como pedantismo elitista. Não é também por acaso que os quadros sobreviventes não consigam dizer coisa com coisa, apelando para a chantagem de que nada será normal enquanto Lula estiver preso. Não é verdade. A ignorância está livre, leve e solta.

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