8 de dez de 2018

Negadores

Em 1930, Washington Luiz indicou como candidato à sua sucessão na Presidência da República Júlio Prestes, paulista como ele, rompendo uma tradição de alternância no poder de paulistas e mineiros, as oligarquias do café e do leite. Era a vez do leite. Só três Estados da federação não aceitaram a quebra da rotina, entre eles a Paraíba. Cujo governador João Pessoa resumiu sua posição numa palavra: “Nego”.

O “Nego” acabou na bandeira da Paraíba, a única bandeira do mundo, eu acho – além da brasileira – que fala. Hoje, longe dos entreveros políticos de 30, que terminaram com os seguidores do gaúcho Getúlio Vargas amarrando seus cavalos no obelisco do Rio e lá ficando, metaforicamente, pelos próximos 15 anos, o “Nego” só serve para intrigar colegiais.

– Professora, por que está escrito “nêgo” na bandeira da Paraíba?

– Não é “nêgo”, é “nego”.

– E por que está escrito “nego”?

– É uma história antiga...

– Já vi que a senhora também não sabe.

O “nego” perdeu sua contemporaneidade.

Mas um “nego” numa bandeira como a da Paraíba, que além de tudo tem as cores preta e vermelha do anarquismo, poderia ser usado por vários grupos em vários contextos. Há negadores de todos os tipos no mundo, começando pelos negadores do Holocausto judeu, que atribuem as histórias do genocídio nazista a uma campanha internacional de desinformação e produz uma vasta literatura tentando provar que Auschwitz e outros campos de extermínio nazistas não passavam de colônias de férias. Hoje, no Brasil, prospera a versão que a ditadura que durante 20 anos tiranizou o País, fechou, durante um período, o Congresso, censurou a imprensa, prendeu e torturou e em alguns casos assassinou gente – nunca existiu.

Também há os que nunca acreditaram na ida do homem à Lua. Dizem que foi tudo feito em estúdio. Existe até quem ouviu um “Gravando” e o som de um “clack” na cena do Armstrong pisando pela primeira vez na “Lua”, cujo chão é claramente de isopor.

Luís Fernando Veríssimo

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