26 de dez de 2018

Matar e fuder com Jesus no coração: o tripé sensacionalista que deu vitória a Bolsonaro


Bolsonaro não venceu as eleições por causa do discurso contra a corrupção. Essa é a razão que a mídia sustenta. Mas na verdade sua estratégia foi a mesma que a direita adotou para minar o governo de Jango.

O novo presidente foi eleito pelo tripé sensacionalista que explora o sexo, a violência e o sobrenatural. Essa estratégia foi usada em 1963 com a fundação do jornal sensacionalista Notícias Populares (NP). Tal periódico tinha claramente o objetivo de combater a “esquerdização” que se processava na época, nos mais diferentes níveis e esferas de atuação”, explica Gisela Goldenstein, em seu livro “Do jornalismo à indústria cultural”.  A partir de aspectos morais e reacionários, tal jornal buscava neutralizar a influência que o “Última Hora” exercia entre a classe trabalhadora.

A direção do NP adotou um objetivo político ao não falar de política – como fazia o Última Hora – e passou a explorar apenas o que se julgou que “estas classes queria ‘beber’”: sexo, crimes etc.. O discurso era extremamente sensacionalista, com sangue na capa do jornal, discursos homofóbicos e temas curiosos como “O caso do bebê Diabo” publicado em 11 de maio de 1975.

Em tudo isso reside uma logica freudiana, como explica Danilo Angrimani.[1] A vontade de fazer o que é reprimido existe de forma intensa dentro de nós. Por exemplo, segundo Freud há na sexualidade humana uma “disposição bissexual”. Homossexualidade e heterossexualidade caminham juntas e o ser humano está em busca do prazer sexual. Contudo, a sociedade impõe as regras; o tipo de prazer permitido. Assim quando vemos alguém sendo atacado por homofobia, sentimo-nos bem porque se não podemos ser o que tanto queremos (inconscientemente), o outro também não pode. Quando vemos este indivíduo sendo violentado, pensamos que poderia ser nós mesmos, mas esse medo logo é extirpado. É como diz o ditado popular: “antes um deles que um de nós”.

Isso se aplica a várias questões como o estupro, a violência, o roubo etc.. Há dentro do ser humano a vontade de transgredir que é reprimida no processo educacional desde seus primeiros anos de vida. Daí “a indignação pública se ergue contra aquele que viola um tabu de fato… aquele que toca os símbolos”.

Sexo, violência e sobrenatural são os três aspectos mais polêmicos e mais libidinosos de toda essa repressão. São tabus, temas que ficamos contidos em debater. O desejo de matar – entre outras fantasias sádicas –  existe, mas está contido. O desejo homossexual também. Precisamos reprimir essas vontades e desenvolvemos regras estruturalistas para isso.

Bolsonaro fez parecer que a esquerda não estava mais reprimindo estas vontades, que estava dando liberdade demais, um cenário perfeito para ele se apresentar como o símbolo do superego. Este deve ser abolido temporariamente e não com excessiva frequência. Pequenas doses de liberação do id, como em festejos, são úteis assegurando “a obediência por mais um ano”. A ordem funciona através de pequenas doses transgressoras. A esquerda estaria dando muita liberdade ao bandido, ao homossexual, ao sexo, explorado na fake news do kit gay etc..

Bolsonaro seria a repressão do superego reprojetado de que fala Otto Fenichel, pois a repressão desloca-se da figura do pai para “figuras autoritárias de aparecimento recente”. Repressor das pulsões do indivíduo, aquele que restabelece a ordem, que puni a transgressão colocando os tabus em seus devidos lugares. Ao mesmo tempo é também a personificação do id, porque ousa exprimir aquilo que o público reprime aliviando deste os sentimentos de culpa. A retórica de Bolsonaro representa muito bem esse id.

Esse “superego acessório” é o mesmo dos jornais sensacionalistas, “o juiz que condena implacavelmente os egos transgressores, através de manchetes e textos [no caso atual mensagens de Whatsapp e Facebook], onde predominam a ‘lição de moral’ e a agressividade de quem deseja “castigar”. Mas há também a possibilidade inversa, isto é, a liberação de egos contidos, permitindo a manifestação de fantasias sádicas criminais e transgressoras, como o desejo pela tortura e pelo extermínio sanguinário de bandidos e, até mesmo, o de superioridade, visto como algo errado socialmente, mas que se libera ao achar que mulher deve receber menos e o homossexual deve abaixar a cabeça para o hétero.

A questão do sobrenatural está no mero fato de chamá-lo de mito e a sua relação com as igrejas neopentecostais. Essas igrejas, com grande influência no meio popular, contribuíram diretamente para eleger o candidato do PSL. Haddad e Manuela tentaram o sobrenatural quando já era tarde demais.

A população se politizava com uma cultura de greve desde 2013. A atuação sensacionalista da direita foi fundamental para conter essa cultura que, sem uma consciência de classe, foi facilmente desmantelada.

O PT teve grande culpa nesse processo. Não conscientizando a população e agindo contra os manifestantes de forma agressiva, como a Lei antiterrorista no período dos grandes eventos esportivos internacionais, criou uma classe operária ociosa politicamente que espera um herói para salvá-la. Talvez porque acreditavam que Lula seria esse herói, não contando com todo o esquema que se desenvolveria bancado por empresários e pela mídia.

Essas são questões que devem ser levadas em consideração para que a esquerda repense seu papel em 2019.

[1] ANGRIMANI, D. Espreme que sai sangue. São Paulo: Summus, 1995.

Raphael Silva Fagundes
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