24 de dez. de 2018

Espírito de Natal

– Alô?

– Oi.

– Quem é?

– Eu.

– Ahn...

– Não desliga. Estou telefonando para pedir paz,

– Olha, cara...

–Deixa eu falar. É ridículo a gente continuar com essa briga.

– Você me chamou de paspalhão. Uma palavra que nem se usa mais.

– Pois é. Ridículo. Peço desculpa. Retiro o paspalhão.

– Disse que eu tinha a percepção política de um tomate.

– Eu disse isso? Não é o que eu penso. No calor da discussão, a gente não se controla. Eu falei mesmo ‘tomate’?

– Berinjela, sei lá.

– Veja só. Uma amizade de tantos anos acabar por nada. Por uma bobagem.

– Eu não achei bobagem. Você não respeitou minha posição.

– É que durante todos os anos da nossa amizade eu nunca soube qual era a sua posição. Nós nunca falamos de política. Me surpreendi, é isso.

– Agora você sabe.

– Foi como se, depois de tantos anos, eu descobrisse que você é gay.

– Qual é o problema de ser gay? Eu não sou, mas qual é o problema?

– Nada contra!

– Mas você me insultou, me, me, me...

– Cara, me arrependi. Quero fazer as pazes!

– Ahn...

– Não esquece que nós tínhamos bebido, naquela noite. Ninguém sabe o que diz, bêbado. Eu jamais chamaria alguém de paspalhão, sóbrio. Mas uma amizade que não resiste a um simples porre não é amizade. São, o quê? Vinte anos de amizade. Isso deve estar acima de qualquer posição, de qualquer bebedeira, de qualquer desentendimento passageiro.

– Sei não...

– Hoje mesmo a Janice me perguntou se eu sabia o que vocês iriam fazer no Natal, para a gente fazer juntos. Tive que contar da nossa briga. Ela também achou um absurdo.

– O que vocês vão fazer no Natal?

– O de sempre, com a mesma turma de sempre. Peru, o famoso sarrabulho da Janice, muita birita... Podemos contar com vocês?

– Está bem.

– Vamos acabar com essa bobagem?

– Vamos.

– Só uma coisa, cara.

– O quê?

– Não diz pra ninguém que você votou no Bolsonaro.

Luís Fernando Veríssimo

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