18 de dez de 2018

Como a grande imprensa ajuda a fábrica de fake news do MBL

Na Folha de hoje, Pablo Ortellado finalmente chega à ideia de “polarização assimétrica”, mas a partir de uma resenha de um estudo estadunidense.

O estudo é focado na comunicação. A “polarização” consistiria na criação de dois circuitos de informação independentes, um à esquerda, outro à direita. É a erosão do espaço informacional comum, criado pelo jornalismo e congenial à noção clássica de esfera pública, uma erosão proporcionada pelas novas tecnologias e já discutida por vasta literatura. A assimetria, por sua vez, nasce do fato de que o circuito da direita é totalmente fechado em si mesmo, ao passo que o da esquerda dialoga com a grande imprensa.

Não li o livro de Benkler, Faris e Roberts, mas, ao menos na síntese que Ortellado faz, a presença da grande imprensa permite que a identidade política da esquerda (mas não a da direita) “seja desafiada pela verdade fatual”.

No final do curto texto, o colunista diz que a análise não se aplica “inteiramente” ao Brasil, porque aqui “os dois circuitos se descolaram da grande imprensa”. Em suma, ele continua tentando salvar sua narrativa de polarização simétrica. Mesmo neste enfoque restrito, porém, a conclusão é insustentável.

Primeiro porque a equivalência entre grande imprensa, “verdade fatual” e “apuração jornalística”, que já é complicada nos Estados Unidos, no Brasil é completamente descabida. É possível demonstrar que há um continuum entre o noticiário enviesado da mídia empresarial e a indústria das fake news do MBL e do bolsonarismo. Sem a incessante denúncia do “maior esquema de corrupção da história”, a ideia do “Lulinha dono da Friboi” não prosperaria. Foi a notícia da Folha registrando que a desembargadora acusara Marielle Franco de ligação com o tráfico que permitiu que o MBL difundisse a mentira. E assim por diante.

Além disso, é falso dizer que a esquerda brasileira mantém um circuito de informação descolado da grande imprensa – com a insinuação consequente de que também constrói um mundo de fantasia despreocupado com a “verdade fatual”. A esquerda brasileira é pautada quase que integralmente pela mídia corporativa e seu esforço informacional principal é desmentir, matizar ou fornecer o outro lado daquilo que os grandes jornais e os noticiários de televisão estão dizendo. (Acho até que seria necessário pensar em caminhos para reduzir essa dependência absoluta dos meios tradicionais.) E dos principais sites de esquerda se pode dizer que o trabalho de apuração jornalística é falho ou que fazem “jornalismo de torcida”, mas insinuar que vivem da manipulação e das mentiras, como o MBL ou o bolsonarismo, é muito injusto.

Nossa polarização é assimétrica, em primeiro lugar, por opor uma esquerda mais que moderada a uma direita hiper-radicalizada. E também pela natureza dos circuitos de informação – só que de uma forma diferente dos Estados Unidos descritos no livro resenhado. Aqui, a mídia corporativa preparava o terreno para a construção do pânico pela direita radical. Será interessante acompanhar sua reação agora, quando o governo eleito nega o papel institucional da imprensa, afirma uma ilusória “relação direta” com o povo (que parece ecoar o discurso de Getúlio Vargas ao anunciar o Estado Novo) e vive de “lives” nas mídias sociais. Mas é preciso partir de uma análise adequada do ponto de partida. Para isso, Ortellado, com sua insistência na narrativa da polarização simétrica entre esquerda e direita, não ajuda.

Luis Felipe Miguel

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