14 de dez de 2018

Com João de Deus, Manchinha e bonapartismo de Bolsonaro, Globo aperta os nós para 2019


Depois de décadas de controvérsias, acusações de assassinato, pedofilia e abusos sexuais, repentinamente “a verdade bateu à porta”, como disse Pedro Bial, e seu programa deu a partida para a caça ao médium-celebridade João de Deus, com atualizações diárias que já rivalizam com a meganhagem também diária das prisões da PF nas telas. Sabemos que para o jornalismo da Globo não basta apenas a verdade “bater a porta” – é necessário a “verdade” ter timing e oportunismo dentro das estratégias políticas da emissora. Soma-se a isso a também repentina indignação e atualizações diárias sobre o espancamento e morte do cão “Manchinha” em um hipermercado em Osasco/SP, uma notícia que na paginação tradicional dos telejornais seria colocada no bloco das notícias diversas. Tudo na semana do vazamento de movimentação atípica de dinheiro na conta de assessor de Flávio Bolsonaro, pressão da grande mídia por explicações e a resposta “bonapartista digital” de Jair Bolsonaro na sua diplomação no TSE: “o poder popular não precisa de intermediação”, apostando nas novas tecnologias para governar o País sem a grande mídia. Fala-se que a Globo “não dá ponto sem nó”: quais nós a TV Globo está apertando para 2019 com essas “anomalias” jornalísticas no final do ano?

Esses últimos dias que culminaram com a diplomação da chapa Bolsonaro/Mourão pela Justiça Eleitoral, foram marcados por inúmeros lances de xadrez midiático. Traçando de antemão as estratégias do tabuleiro do jogo político do próximo ano.

Em primeiro lugar, aquilo que mais chamou a atenção: a repentina e feroz investida dos canhões do telejornalismo da Globo contra o médium-celebridade João de Deus. Poucas vezes se testemunhou um ataque tão violento e sistemático contra um alvo – descontando-se, claro, as investidas do consórcio judiciário-policial-midiático que vem sustentando nos últimos anos a presença diária nas telas da meganhagem da Polícia Federal no âmbito da Lava Jato.

Sabemos que esses irruptivos ataques, em geral, são atos de vingança quando algum interesse da Globo é atingido. Como, por exemplo, as denúncias de Nicéia Pitta em rede Nacional no Globo Repórter acertando em cheio seu ex-marido Celso Pitta em 1999 – a prefeitura havia barrado na Justiça a final do campeonato brasileiro no meio da semana à tarde, derrubando a grade de programação de final de ano da emissora (clique aqui).

Ou quando, no início da administração Doria Jr. (o “queridinho” da Globo naquele momento), em São Paulo, dezenas de caminhões-caçamba ocuparam o Viaduto do Chá contra uma decisão da prefeitura. Ato contínuo, o telejornalismo global disparou uma série de matérias figurando os motoristas como contraventores e baderneiros (clique aqui).

Denúncias de Nicéia Pitta em 1999 no Globo Repórter: a verdade com timing de vingança
A verdade “bateu a porta”

Tudo começou com o programa “Conversa com Bial” na sexta-feira (07/12) entrevistando a coreógrafa holandesa Zahira Lieneke Mous – a única mulher que aceitou mostrar o rosto e denunciar com detalhes os abusos sexuais cometidos por João de Deus. O making off do programa informa que a apuração levou “três meses”, ouvindo-se dez depoimentos de vítimas. No início o propósito era um programa com João de Deus no formato talk show – dentro dos cânones do chamado “infotenimento”.

Mas “repentinamente” mudou quando a produção “esbarrou” em denúncias de abuso sexual e “começou a correr atrás da história”. Obrigando a reformatar totalmente o programa com a presença dos depoimentos da holandesa Zahira e da americana Amy Biank – sem banda, plateia e reduzido número de técnicos no estúdio.

Desde o dia sete, diariamente, todos os telejornais nacionais da emissora vêm sustentando a suíte jornalística, com direito a imagens de repórteres indo ao encalço do médium na sua residência. Previsivelmente, o Ministério Público de Goiânia quer entrar no show, com uma célere “força tarefa” para também tomar depoimentos – previsível, dentro da atual “linha de passe” Justiça/Globo.

Qual a surpresa? Há décadas João de Deus é uma figura, no mínimo, controversa: acusações e julgamentos em torno de assassinato, atentado ao pudor, assédio sexual, pedofilia e contrabando de minério. Por que só agora? João de Deus é muito poderoso e intimida a todos? Nos últimos tempos o jornalismo da Globo esteva muito ocupado em derrubar um governo e turbinar a Guerra Híbrida brasileira?

No caso da TV Globo, nada é por acaso e nunca dá um ponto sem nó – seu jornalismo sempre foi regido pelo senso timing e oportunismo, e não pelo senso do dever jornalístico de Pedro Bial: para Bial, ele é “jornalista”, e o seu “talk show que procura refletir a realidade e seus fatos não pode deixar de receber a verdade quando ela se apresenta. E a verdade bateu à nossa porta”.

A verdade "bateu na porta" de Bial: qual era a oportunidade e o timing?
Bonapartismo digital

Para além de toda a justa indignação de dezenas de vítimas de abuso pelo médium-celebridade em, no mínimo, 30 anos, é necessário refletir sobre a repentina e feroz investida contra um notório charlatão.

Paralelo a tudo isso, a Globo repercutiu vazamento da coluna de Fausto Macedo do Estadão sobre a movimentação atípica de dinheiro na conta de assessor de Flávio Bolsonaro – deputado estadual e senador eleito, filho mais velho de Jair Bolsonaro. Investigação da Operação Furna da Onça do MPF realizada no mês passado, mas só AGORA vazada.

Denúncia que atingiu em cheio o clã Bolsonaro, fazendo o futuro ministro da Casa Civil, Onix Lorenzoni, ser grosseiro com repórteres e o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, dar às costas aos jornalistas que cobravam um posicionamento.

Depois dos sete minutos do escândalo no “Jornal Nacional” e de a revista Exame manchetar que Bolsonaro seria diplomado “com patrimônio familiar sob suspeita”, a resposta do futuro presidente foi rápida no seu discurso na cerimônia do TSE: “O poder popular não precisa mais de intermediação. As novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o seu leitor e os representantes”.

Uma afirmação rica em consequências tanto para a ciência política (um bonapartismo civil digital? – “bonapartismo civil”: tipo de governo em que o Poder Legislativo perde força e o Executivo se fortalece através do culto à personalidade) quanto para o campo da cibercultura – de como o tempo real das redes digitais é uma ameaça à democracia representativa – tema já discutido pelo Cinegnose, clique aqui.

Sem falar nas consequências em política de comunicação social: Bolsonaro dará uma banana para a generosa “mídia técnica” dos tempos petistas que enchiam de dinheiro os cofres da Globo.

Manter os canais abertos com o ativismo pelos direitos: preparando-se para 2019
Manchinha e os “nós” da Globo

E no meio de tudo isso, um repentino destaque para uma notícia local que ganhou destaque nacional: o espancamento com barra de ferro seguido de morte do cãozinho “Manchinha” por segurança de uma unidade do Carrefour em Osasco. Mais uma vez, atualizações diárias, dando destaque a manifestações de ativistas pelas causas dos animais.

Um fato “prosaico”, tradicionalmente jogado para os “fatos diversos”, ao lado de maus tratos humanos em hospitais púbicos.

Mas dessa vez, com furor indignado do mesmo nível do endereçado ao médium-celebridade. E o MP, dessa vez de São Paulo, recebe o passe da Globo e instaura inquérito para surfar em mais uma onda levantada pela emissora.

João de Deus e “Manchinha”, com o potencial escândalo do clã Bolsonaro espremido entre eles na paginação dos telejornais. Quais são os “nós” dados pela Globo nessas estranhas anomalias que antecederam a rápida diplomação do capitão reformado que deixou o STE sem falar com os jornalistas:

Primeiro Nó – continuidade da política de redução de danos

Depois de anos remexendo a lama psíquica do Brasil Profundo para derrubar um governo trabalhista, agora tenta se livrar da criatura parida do extremo-direitismo que alimentou como aliado de primeira hora. Principalmente no momento que se comemoram os 70 anos da Declaração dos Diretos Humanos da ONU – a presença de duas “gringas” que mostraram corajosamente seus rostos para denunciar João de Deus ajudaria a Globo a reforçar essa suposta isenção para o público tanto interno quanto externo. E o seu apego às questões identitárias.

De olho em 2019: direitos serão "coitadismos"
Segundo Nó – antevendo 2019

O que nos leva ao segundo nó. Com as seguidas afirmações de futuros ministros de que o Governo sairá de acordos climáticos (Acordo de Paris) e migratórios (ONU), a Globo sabe que esses campos serão catastróficos em 2019. Manter a pauta identitária e humanista é uma questão estratégica para manter livre os canais de comunicação com ativistas, ONGs ou front groups em geral. Afinal, front groups são um dos atores principais na engenharia de opinião pública e foram usados como peões na guerra midiática que desestabilizou o governo Dilma no rastro das manifestações híbridas a partir de 2013.

Terceiro Nó – manutenção da agenda identitária

Aqui revela-se a ingratidão de Bolsonaro para com a grande mídia. Na sua ingenuidade bonapartista, acredita que foi eleito apenas pelo whatsApp. Na verdade, todos os memes, pitacos e bravatas do clã Bolsonaro e seus asseclas (MBL etc.) nas redes sociais, não teriam a menor força sem a polarização criada pelo poder de agendamento da grande mídia (“frame set”) em torno das causas culturais, identitárias e de costumes. Enquadrou o debate nesses temas, para esconder o ponto fraco de toda direita numa eleição: o amargo programa neoliberal, inimigo do Estado, programas sociais e... de votos.


Com a “verdade” que bateu à porta de Bial, a Globo apertou esse nó para alcançar o objetivo mais profundo escondido pela cortina de fumaça: as reformas previdenciárias e a construção de um Estado mínimo e policial que reduza toda questão social e trabalhista a crime ou terrorismo.

Quarto e último Nó – tentar manter Bolsonaro no arreio curto

Olhando em perspectiva a paginação geral dos telejornais, a cobertura das transações financeiras suspeitas de ex-assessor de Flávio Bolsonaro tem ficado espremida entre João de Deus, o protesto de ativistas contra a morte de Manchinha e a meganhagem do dia das prisões preventivas da Polícia Federal na infindável Lava Jato.

É como se o jornalismo da Globo controlasse a fervura do escândalo como carta no bolso do colete ou um punhal perpetuamente colocado sobre o clã Bolsonaro. Com isso, a Globo tenta manter a criatura sob controle, puxando vez ou outra a corda: sete minutos no JN aqui e uma espetada no Fantástico ali.

Resta saber até onde vai o bonapartismo de Bolsonaro. Isto sabendo-se que para a maioria dos luminares intelectuais da extrema-direita, a Globo é petista...

Wilson Roberto Vieira Ferreira
No Cinegnose

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