16 de dez de 2018

Bolsonaro fez sua primeira prestação de contas, e o resultado é deprimente


Ao fim do primeiro turno, Bolsonaro fez um pronunciamento ao vivo no seu Facebook — a chamada “live” — comentando o resultado. Ao lado de Paulo Guedes, o então candidato afirmou que já teria faturado a eleição se as urnas não tivessem sido fraudadas. Não houve nada que sustentasse essa suspeita, a não ser vídeos fakes compartilhados por seus filhos, que passaram a eleição espalhando notícias falsas sobre fraudes nas urnas. Bolsonaro mentiu deliberadamente. E como já ficou claro desde que foi eleito, a mentira não é utilizada apenas como arma eleitoral, mas como um método da extrema-direita que se prepara para assumir o poder.

Na última quarta-feira, Bolsonaro anunciou que passará a fazer “lives” semanais para prestar contas ao povo brasileiro. Tudo indica que elas serão a principal forma de comunicação do presidente. Sem jornalistas para incomodá-lo, Bolsonaro fica mais à vontade para prestar contas com o seu jeitinho peculiar: distorcendo e fabricando fatos.

Vestindo uma camiseta da Nike como se fosse um youtuber patrocinado, Bolsonaro mostrou poder de síntese ao enfileirar um sem número de mentiras em pouco mais de 15 minutos. Vejamos quais foram as principais lorotas e insanidades que Jair resolveu dividir com o povo nessa primeira live de prestação de contas.

O presidente começou o vídeo falando sobre a “indústria da multa” do Ibama. Contou a história de um pobre pescador que entrou com seu barquinho em uma área proibida para pesca e foi multado em R$ 170 mil. Uma história difícil de engolir, ainda mais vinda de alguém que nutre rancor pelo Ibama desde que foi multado justamente por pescar em área irregular.

O assunto, aliás, parece ser uma obsessão antiga de Jair. Depois que foi autuado pelo órgão em 2012, o então deputado federal entrou com um mandado de segurança na justiça para que pudesse pescar em uma área em Angra dos Reis onde é proibida qualquer tipo de intervenção humana. À época, os pobres pescadores da região também foram usados como pretexto. Bolsonaro alegou que entrou na justiça para garantir o direito deles, o que é mentira. O mandado de segurança é um instrumento jurídico de interesse particular. Somente ele se beneficiaria, enquanto os pobres pescadores continuariam sem permissão.

A verdade é que o presidente despreza todo o trabalho feito em defesa do meio ambiente no Brasil. Quando soube que entidades ambientais criticaram a escolha de Ricardo Salles para o ministério do Meio Ambiente, falou para Onyx: “acho que acertamos”. O futuro ministro, aliás, afirmou que Bolsonaro não foi multado porque pescava em área irregular, mas porque foi flagrado com uma vara de pesca na mão em área irregular. Segundo Salles, a aplicação da multa seria uma prova de que a “questão ideológica permeia a atuação do Ibama”. A visão do ministro sobre meio ambiente é essencialmente ideológica, como fica claro nesse tweet recente do Endireita Brasil, movimento do qual ele é o presidente.

Voltemos para a prestação de contas do presidente. O próximo assunto abordado no vídeo foi o Acordo de Paris, do qual ele é um profundo desconhecedor.

“Olha, as informações que eu tenho, logicamente não são todas ainda, podem estar um pouco imprecisas, mas, entre as exigências do Acordo de Paris, se exige que o Brasil faça um reflorestamento de uma área enorme, algumas vezes o estado do Rio de Janeiro. Nós não temos como cumprir uma exigência dessa. Se assina, porque é bonito, até porque essa exigência é para cumprir em 2030 — então quem for presidente em 2030 que se vire — mas as sanções vêm aí. Em um primeiro momento, sanção política; em um segundo segundo momento, sanção econômica; em um terceiro momento, sanção de força. Nós não podemos colocar em risco a nossa soberania nacional, parte do nosso território”

As informações fornecidas estão longe de serem “imprecisas”. São falsas mesmo. O Acordo de Paris não impõe exigência nenhuma aos países signatários, o que mostra que o presidente não faz a mínima ideia do que ele representa. A ignorância sobre o tema ficou clara no começo do mês, quando reclamou do compromisso do Brasil com o chamado “Corredor Triplo A”, algo que simplesmente não tem nenhuma relação com o Acordo de Paris.

Cada país estabelece suas próprias metas de acordo com suas condições sociais e econômicas. Elas não são definidas nem impostas por ninguém. Em 2016, o Brasil enviou documento a ONU apresentando metas propostas pelo governo que foram aprovadas pelo Congresso Nacional — inclusive por unanimidade na Câmara, da qual Bolsonaro fazia parte.

Se o novo governo considera as metas inatingíveis, não há problema nenhum em fazer uma revisão e ajustá-las. Mas o presidente afirma que, se não forem atingidas, poderá ser “danoso à nossa soberania”. Disse ainda que o Brasil poderá sofrer sanções políticas, econômicas e — é até difícil de acreditar que ele mandou essa! — de força. Tudo mentira. O acordo não prevê punições de qualquer ordem caso as metas não sejam cumpridas. Um possível descumprimento não fará a ONU enviar tropas para Brasília, podemos ficar tranquilos. Como já comentamos aqui outras vezes, o Brasil só tem a perder com essa birra ideológica sem sentido. Se Jair fosse sincero, diria que renega o Acordo de Paris porque não acredita no aquecimento global e porque bajular Donald Trump é o seu principal fetiche do momento

O assunto seguinte foi o dos imigrantes. Sobre o Pacto Global da Migração, que ele confessou nem saber em qual país foi assinado, também se mostrou um exímio ignorante.

“Não podemos escancarar as portas para quem quiser vir pra cá numa boa. Vem inclusive com uma cultura diferente da nossa. Não podemos admitir que chegue gente de uma determinada cultura e querer se casar com nossas filhas e netas de 10, 11, 12 anos de idade, porque isso é cultura deles. (…) Não podemos admitir certo tipo de gente que vem para o Brasil desrespeitando religiões. Sou contra essa história de cota migratória para o Brasil.”

O acordo de migração não é um tratado formal. Não estabelece metas nem faz exigências, mas apenas define princípios internacionais de cooperação internacional. É um documento formulado em conjunto por 164 nações que estabelece diretrizes para melhorar as condições estruturais dos países e diminuir a fuga de pessoas de seus territórios. Ou seja, um dos seus principais objetivos é justamente retrair o fluxo migratório. Assim como o Acordo de Paris, o pacto não prevê nenhuma sanção aos países signatários e não representa nenhuma ameaça à soberania nacional — ao contrário do que afirmam Bolsonaro e o seu futuro chanceler. A decisão de retirar o Brasil do acordo é de cunho puramente ideológico. O país nada tem a ganhar com isso. O único intuito é o de balançar o rabinho para os EUA de Donald Trump, que se recusou a assinar o documento.

Bolsonaro disse ser “contra essa história de cota migratória para o Brasil”, algo que nunca sequer foi cogitado pelo pacto. Além das mentiras, Bolsonaro aproveitou para atiçar a xenofobia ao dizer que não é admissível que “certo tipo de gente” venha para “querer se casar” com nossas crianças — uma paranoia que não faz o menor sentido, até porque o casamento com menores é proibido por lei, mas que tem a eficácia de manter a chama do medo acesa.

Aí chegou a hora dos povos indígenas de Roraima serem alvo dos devaneios de Jair.

“Roraima é o pedaço de terra mais rico do Brasil. Se eu fosse rei de Roraima — e com tecnologia — em 20 anos o estado teria uma economia semelhante à do Japão. Lá tem tudo. Por isso, a pressão internacional para demarcar cada vez mais terras indígenas”

“Eu quero que o índio seja integrado à sociedade (…) Têm índios que falam nossa língua muito bem, que têm nossos costumes. Isso que queremos, não queremos que atrapalhem o desenvolvimento da nação”

O estado de Roraima tem proporcionalmente a maior população indígena do país. Há tribos isoladas na Amazônia que nunca tiveram contato — e nem querem ter — com o homem branco ou outras tribos indígenas. O presidente alega que um solo rico como o de Roraima não pode deixar de ser explorado em nome da proteção dos indígenas.

Bolsonaro ainda sonha com um mundo hipotético, em que seria o Rei de Roraima e ordenaria a exploração das terras indígenas para garantir a abundância financeira do reino. A visão colonialista do presidente sobre a questão indígena não é novidade. No ano passado, perguntou aos jornalistas: “O que seria do Brasil sem os bandeirantes que exploraram os diamantes?” A pergunta pretendia exaltar os garimpeiros — ele próprio foi um —, que muitas vezes invadem reservas e entram em conflitos com indígenas. A comparação não poderia ser mais absurda. Bandeirantes tinham como objetivo não apenas a busca por pedras e metais preciosos, mas também a destruição de quilombos e o aprisionamento e assassinato de indígenas.

Depois de tantos absurdos, o presidente reservou apenas dois minutos para prestar contas sobre o tema mais importante da semana: o escândalo de corrupção que envolve ele e sua família. Afinal de contas, como ele mesmo tem dito, “a questão ideológica é pior que corrupção”. Mas Bolsonaro não explicou nada. Só enrolou. Não há muito o que falar quando se tem um largo histórico em distribuir tetas no serviço público para amigos e parentes. Mas teve um trecho bastante simbólico:

“Se algo estiver errado, que seja comigo, com meu filho, com o Queiroz, que paguemos a conta desse erro, que nós não podemos comungar com o erro de ninguém. (…) Dói no coração da gente? Dói. O que temos de mais firme é o combate à corrupção.”

Perceba que, além de chamar desvio de dinheiro público de “erro”, o presidente coloca sua honestidade na condicional. Jair parece não ter certeza da sua inocência e vai aguardar o fim das investigações. Fosse Rei de Roraima, certamente não precisaria passar por essa dor no coração.

João Filho
No The Intercept

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