24 de dez de 2018

Assombros

É fácil fazer pouco de quem confia no sobrenatural para curar seus males ou consertar sua vida. Você vê um desses programas neopentecostais na TV, que em muitos casos beiram o curandeirismo, proibido pelo Código Penal, e se assombra com o tamanho da multidão embalada pela voz e pelo poder de pastores milagreiros. Você se pergunta como alguém pode acreditar em coisas como cirurgias espirituais e outras práticas pseudomédicas e lamenta mais uma vez, com um sentimento de superioridade civilizada, a infindável ignorância da raça humana.

Mas o assombroso não é a quantidade de crentes muitas vezes sendo iludidos dentro das suas igrejas, é o enorme vazio lá fora, que os impele a procurar na igreja o que não têm na vida, e ouvir que, apesar das suas misérias, Jesus os ama. O tamanho da crendice e do público das neopentecostais é o tamanho das privações de um povo maltratado, e não é a igreja que os maltrata. Antes os consola.

Há muito se discute se a cura de uma doença psicossomatizada vale como cura, já que na realidade a doença não existe, só os seus sintomas. Se os sintomas desaparecem como resultado de um tratamento convencional ou da ação de um curandeiro não interessaria, o fato é que desaparecem. Há casos até de gravidez psicossomática, em que a mulher tem todos os sinais de estar grávida, até a barriga, e não está. Misteriosos são os poderes da mente. Também é fácil menosprezar quem procura um João de Deus como último recurso para salvar uma vida, até que você comece a pensar no desespero por trás do apelo.

Os católicos não podem falar mal dos protestantes, a força e a história da igreja romana são baseadas no sobrenatural e em santos milagrosos. É assombroso, também, o tamanho de um império mundial como o da igreja católica centrado numa única hipótese, a existência de Deus. Quem sabe? Talvez Ele exista, talvez seja uma espécie de somatização.

Curiosidade: será que o Paulo Guedes vai pedir que igrejas paguem imposto?

Luís Fernando Veríssimo

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