20 de dez de 2018

A guerra entre XP e BTG e a concentração no mercado de fundos

Guilherme Benchimol da XP, e André Esteves, do BTG
A recente disputa judicial entre a XP e o BTG Pactual é apenas a ponta do iceberg dos problemas que vêm afetando a indústria dos fundos de investimento, fruto da enorme concentração do mercado.

Nos últimos anos, muitos bancos estrangeiros fecharam as portas, corretoras nacionais encolheram e o mercado ficou preso em três níveis de instituições.

Entre os bancos comerciais, o Bradesco, o Itaú, o Banco do Brasil e o Santander, mais o XP e o BTG Pactual. Na segunda linha, o Safra e o ABC. Na terceira linha, uma série de corretoras e bancos menores espremidos pelos gigantes.

A XP acusou o BTG de ter se valido de informações confidenciais – o banco teve acesso a dados internos, como integrante do consórcio que lançou seu IPO – para tentar cooptar agentes autônomos. Conseguiu uma liminar em primeira instância. Ontem, saiu a informação de que o XP conseguiu autorização do Banco Central para montar seu próprio banco. Duas grandes vitórias em pouco tempo, como coroamento de uma história de sucesso invejável. 

A XP investiu pesadamente em plataformas digitais, cativando os investidores com aulas didáticas e ferramentas de investimento e corpo de analistas. E avançou no mercado dos corretores autônomos – consultores que mantém uma carteira de clientes e, em geral, compartilhavam mesas de operações de alguns bancos de investimento.

O XP oferecia como atração sua plataforma digital e um número cada vez maior de investidores pessoas físicas. A XP não vende e não opera. Apenas expõe os produtos de terceiros na vitrine, para os investimentos individuais ou dos corretores autônomos. Estima-se que tenha um cadastro com 450 mil investidores.

Tempos atrás vendeu parte de seu capital para o Itaú, aumentando exponencialmente a concentração do setor. Inicialmente o Itaú ficou com opção de compra do controle. A tentativa foi brecada pelo CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) e pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

A XP chegou no topo por mérito próprio. Conquistado o mercado, no entanto, passou a se valer de práticas que configuram abuso de poder.

Afirma não cobrar comissões sobre investimentos. De fato, não cobra de quem aplica. Mas cobra de 3 a 4% dos bancos que pretendem colocar seus CDBs (Certificados de Depósito Bancário) em suas gôndolas. Faz parte do negócio. Também exige que, para vender cotas de fundos, o gestor o coloque sob administração do Itaú.

Uma outa forma de pressão é através do Infomoney, o informativo online de informações financeiras criado por ela. Há vetos a notícias que relatem sucesso de concorrentes, para não elevar o valor das cotas. A alternativa é contratar a Empiricus, uma concorrente da XP no mercado de informações, pouco criteriosa e especializada em notícias de pânico.

Para um fundo ser aceito pela XP, tem que se comprometer com contrato de distribuição de um ano, com repasse de 50% da receita de gestão e com a criação de um fundo espelho na própria XP.

O fundo começa com poucos clientes. Quando já tem uma massa considerável de cotistas, convoca os agentes autônomos para conseguir procuração de clientes para convocação de assembleia visando trocar a gestão dos fundos. Os mais bem-sucedidos são premiados com bônus.

De qualquer forma, é um mercado ainda em formação, que vem sendo acompanhado com cuidado pela CVM e pelo Banco Central.

Luís Nassif
No GGN

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