31 de dez de 2018

Ameaças dão o clima na formação do governo Bolsonaro


Em Brasília, na equipe de transição, de acordo com duas fontes diversas, o clima não poderia ser pior. Já circulam abertamente, a toda hora, entre integrantes da equipe e de atores externos, ameaças de vingança, golpe, impeachment, destituição, violência, com juras de retaliação. Observadores ao alcance da equipe de transição contemplam boquiabertos o horizonte de problemas, sem conseguir perceber alguma racionalidade. As mensagens de Bolsonaro, os delírios da antidiplomacia do chanceler Ernesto Araujo, vêm também para tentar aliviar essa situação extrema, na ânsia de dissipar “para fora”, contra Lula, o marxismo e o chamado globalismo cultural, as tensões geradas no ninho de conspiratas internas. São válvulas de escape da pressão, na busca de alguma motivação unificadora.

Os assédios são de diversas instâncias, entidades e indivíduos. A ala militar, na verdade também dividida, é das mais explícitas em manifestar antipatia pelo eleito, desafeto de longa data. Diz-se explicitamente que Bolsonaro não é benquisto, nem nunca foi, tendo sido “apenas” eleito.

Do lado oposicionista, não é possível ter muita esperança nessas batalhas. Não vale dizer neste caso ainda que o inimigo de meu inimigo é meu amigo. Os mais acostumados ao jogo político dos partidos e bancadas, ou mesmo à “etiqueta” dos lobbies empresariais mais brucutus, mantêm cautelosa e momentânea distância. Há apenas um aspecto comum nas diversas interações presenciadas e recepcionadas: a truculência e o nível rasteiro das elocuções assustam interlocutores experientes.

A insatisfação já não é mais restrita aos espaços internos das alas militar, da articulação política, os integrantes do clã e grupos da direita ideológica e ultraliberal. Ao perceber o desgaste rápido da imagem no episódio do amigo motorista Queiroz, o novo Ministério da Justiça emitiu ultimato ao novo chefe de governo. O mesmo foi comunicado, em termos muito claros, por elementos do generalato.

Qualquer novo evento contribui para envenenar ainda mais as disputas entre facções. É nesse contexto que se podem entender as declarações do pastor Silas Malafaia, “apoiador crítico”, de Jair Bolsonaro. Segundo ele, as opções de Bolsonaro ameaçam suas condições de governar: “Ele vai ter que negociar cargos que não sejam os fundamentais, porque isso é política. Dizer que partidos não vão nomear eu não acho que seja o caminho porque isso é política e ele vai pagar um preçaço (sic)".

E concluiu com dois diagnósticos que soam como ameaças, além de mostrar a radicalidade das desavenças. Ao se referir a Bolsonaro, e à dificuldade de levar adiante algumas de suas promessas mais radicais, reagiu com a informalidade típica do capitão: “Meu irmão, tem que chamar para estudar a cabeça do compadre lá. Porque vai pagar o preço do que prometeu”. De sua entrevista, uma frase deixa transpirar um pouco da desarmonia reinante nas transações por cargos: “Só os generais é que vão nomear?”     

Porão

A respeito das crescentes plantações na mídia de suspeitas de algum atentado contra o governo ou a pessoa de Jair Bolsonaro, favorecidas pelo clima de cerco e guerra que o próprio estimula, não se pode descartar que entre as farsas se inclua a real existência de algum Cabo Anselmo infiltrado entre grupelhos, com a missão de criar o pretexto para uma virada de mesa. Não seria a primeira vez.

Registro

Todos os grandes veículos de comunicação apoiam o governo Bolsonaro. Nenhum exerce jornalismo crítico.

Mário Vítor Santos é jornalista. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasilia da Folha.
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Lula e o Brasil fraturado


Tenho um vizinho, o advogado João Neres, dono de um excelente gosto musical. Nas manhãs de sábado, em particular, fico na espera para saber que músicas ele irá escolher para ouvir. Pego carona nas suas excelentes escolhas.

Um dia desses, ele colocou para tocar a canção “Don´t Cry for me Argentina”, do musical “Evita”. Além de ser uma canção belíssima, como sabemos, ela provocou em mim reflexões sobre Juan Domingo Perón e o último século de história da Argentina, bem como sobre o Brasil de hoje e a perseguição a Lula.

As duas décadas de perseguição a Perón criaram uma fratura na sociedade argentina que nunca foi fechada. O país, que era um dos mais ricos do mundo no início do século XX, tornou-se uma nação na qual não se consegue acordar pactos mínimos para a construção do desenvolvimento e do bem-estar.

Sociedades fraturadas são incapazes de especificar metas ou objetivos e alcançá-los. A história está cheia de exemplos. No caso da esquerda, o dilema é ainda mais complexo. É por isso que Adam Przeworski, em seu livro “Capitalismo e Socialdemocracia”, nos leva à escolha de duas estratégias pragmaticamente viáveis no longo prazo: socialdemocracia ou leninismo.

Durante a história, várias experiências intermediárias ou paralelas foram tentadas e não demonstraram sucesso. Se a esquerda chega ao poder, mas não consegue fazer um pacto com o capital e as elites conservadoras – e, ao mesmo tempo, a propriedade dos meios de produção é mantida na mão do capital – as coisas podem caminhar a contento por algum tempo, mas depois tendem a degringolar, pois a consequência inevitável é uma crise de desinvestimento. Enquanto a economia tem capacidade ociosa, tudo bem. Depois...

De outro lado, se a elite conservador se mantém no poder de forma ilegítima, a sociedade também tende a se fraturar e a ter dificuldades de promover o desenvolvimento. Este segundo caso é, justamente, o que passou a atingir a Argentina, desde a segunda metade do século passado. A perseguição a Perón se perpetuou no tempo e criou uma fratura na sociedade que não foi superada, até hoje.

O Brasil parecia estar construindo um caminho próximo ao da socialdemocracia. Começou o seu desenvolvimento de um Estado de Bem-Estar, com a CF-88 e, posteriormente, com a chegada do PT, ao poder. O gráfico, abaixo, é muito ilustrativo para a comparação das trajetórias de desenvolvimento – e a sua interação com a política – no Brasil e na Venezuela. Ele mostra as trajetórias do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no Brasil e na Venezuela, de 1990 até 2017 e revela que, quando comparado ao Brasil, a Venezuela tinha, até o início da década passada, uma trajetória aproximadamente linear, porém mais “tímida” (ou seja, com uma menor inclinação da curva) de desenvolvimento humano do que a brasileira, que tinha um perfil ainda mais claramente linear, porém com um ângulo maior. Observa-se que, em ambos os países, há uma turbulência entre 2002 e 2003 e, depois, uma retomada do crescimento. Porém, a partir daí, as trajetórias dos dois países se afastam totalmente.


Em 2002, houve o golpe fracassado contra Hugo Chavez na Venezuela. No Brasil, foi o último ano do governo de FHC. No caso brasileiro, a partir de 2003, retomamos nossa trajetória basicamente linear de desenvolvimento humano, até 2014. No caso da Venezuela, depois do golpe fracassado, o país entra numa extraordinária trajetória exponencial de desenvolvimento humano, até que começa a desacelerar, no final da década passada, mudando completamente de trajetória, a partir de 2015 (na verdade, se olharmos a trajetória inteira da Venezuela, isoladamente, vemos que se aproxima de uma curva logística, até 2014). Observe-se que, mesmo no caso do Brasil, se ter conseguido manter uma trajetória aproximadamente linear de 2003 a 2014 já é algo que deve ser ressaltado, pois o desenvolvimento humano dos países tende a formar uma curva de logaritmo, ou seja, costuma desacelerar (reduzir o ângulo  de inclinação) quando se alcança patamares mais elevados (tanto o Brasil quando a Venezuela são países com IDH alto). No caso da Venezuela, a aceleração que se observou depois do golpe de 2002 é indicação clara de uma mudança de trajetória política.

Contudo, a parte final do gráfico – em particular, a partir de 2015 – mostra os problemas enfrentados por ambos os países. No caso da Venezuela, a desaceleração do crescimento do IDH, no início da atual década, já indicava que o modelo começava a entrar em processo de esgotamento. A queda observada a partir de 2015 mostra que o país entrou em uma forte crise. O fato é que, a trajetória da Venezuela, após o golpe fracassado de 2002, é compatível com o que se poderia esperar a partir da “hipótese de Przeworski”. Após o esgotamento da capacidade ociosa da economia, o processo de desenvolvimento humano da Venezuela desacelera, até o país mergulhar em uma crise profunda, a partir de 2015 (*). Esse quadro se deve justamente ao desinvestimento.

No caso do Brasil, não se observa uma queda, mas uma forte desaceleração da trajetória de desenvolvimento humano, passando de uma curva aproximadamente linear para uma curva de logaritmo. Esse novo cenário pode fazer o Brasil estacionar num padrão de desenvolvimento humano muito inferior ao dos países capitalistas centrais da Europa, da América do Norte e da Oceania.

Para o Brasil retomar uma trajetória de desenvolvimento humano como a anterior, será necessário um novo pacto social e político. Todavia, a perseguição a Lula pode reproduzir no Brasil o que tem acontecido na Argentina há várias décadas, qual seja, a incapacidade de concertação. A reação das elites nacionais à liminar do Min. Marco Aurélio Mello do STF de suspensão das prisões por condenação em segunda instância mostra como a disposição para manter a perseguição é total (**).

Infelizmente, todos os indicadores hoje são de que não conseguiremos, nem tão cedo, realizar uma nova concertação social e política, no Brasil. O governo de Bolsonaro tenderá a aumentar a fratura existente, hoje, no país. Se a perseguição a Lula levar a que morra na cadeia (***), temo que nas décadas que (acredito) me sobram de vida, não verei o Brasil construir um novo pacto para retomar o seu desenvolvimento humano.

(*) É óbvio que, assim como no caso do Brasil, a chamada “crise de exportações de commodities” também ajuda a explicar o que tem acontecido a partir de 2015. Contudo, a maior evidência de que há algo a mais a explicar o caso venezuelano é que a partir do final de 2016 o preço do petróleo começa uma consistente trajetória de elevação, porém a situação da Venezuela continua se deteriorando.


(**) Chama a atenção que o Comandante do Exército tenha concluído ser necessário convocar o alto comando da corporação para uma reunião por vídeo conferência, de urgência, para tratar da liminar e buscar “segurar a tropa”, naquele dia.


(***) Após acusações extremamente frágeis e processos judiciais totalmente viciados, e cuja suspeição deverá ser confirmada pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU, dentro de alguns poucos meses.

Jorge Alexandre Neves - Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), Professor Titular do Departamento de Sociologia da UFMG, Professor Visitante da Universidade do Texas-Austin (EUA) e da Universidad del Norte (Baranquilla, Colômbia), pesquisador do CNPq e articulista do jornal Hoje em Dia. Especialista em desigualdades socioeconômicas, análise organizacional, políticas públicas e métodos quantitativos.
No GGN
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Universidades têm autonomia para dar "curso do golpe", diz juíza


A Constituição elegeu como um dos valores da República a liberdade de ensino, que assegura o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, como sinaliza o artigo 206, inciso II. Assim, como as universidades gozam de autonomia científica, prevista no artigo 207, não podem ser impedidas de promover determinado curso, mesmo que desagrade a setores da sociedade.

Com este entendimento, a 1ª Vara Federal de Porto Alegre julgou improcedente Ação Popular que pretendia impedir a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) de ministrar o curso denominado ‘‘O golpe de 2016 e a nova onda conservadora do Brasil’’, que vem sendo ministrado desde março pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

O advogado Fernando Rodrigues Lopes, autor da ação, alega que o título atribuído ao curso não é razoável e não atende aos princípios da legalidade e moralidade administrativa a que se sujeita a universidade. Após defender a legalidade do processo de impeachment da presidente Dilma Roussef, em agosto de 2016, disse que o curso não só afronta a lei como beneficia a narrativa de um partido político – o PT.

A juíza federal Marciane Bonzanini, que havia rejeitado a suspensão do curso em caráter liminar, em abril, manteve o teor de sua decisão para embasar a sentença de mérito, julgando improcedente a ação. Cabe recurso ao Tribunal Regional Federal da 4ª. Região.

Para a julgadora, o propósito de tolher o conteúdo da manifestação docente realizada em âmbito universitário não pode ser considerado como lícito à luz dos princípios constitucionais e legais atinentes à educação nacional. É que as normas de nível hierárquico superior determinam a gestão democrática e o pluralismo das ideias e de concepções pedagógicas, e não o banimento, a priori, de quaisquer manifestações.

Citando parecer do Ministério Público Federal, a julgadora observou que a universidade, enquanto espaço destinado à formação de valores e narrativas ‘‘não necessariamente unívocos, mas fatalmente dialéticos’’, pode muito bem abrigar curso sobre esta temática, considerando as diversas narrativas sobre o impeachment.

Assim, segundo Marilene Bonzanini, o Poder Judiciário, em nenhuma hipótese, pode analisar o mérito sobre o teor de cursos oferecido pela UFRGS ou por qualquer outra instituição de ensino. Especialmente em face da autonomia didático-científica das universidades, conforme preceitua o artigo 207, caput, da Constituição da República, princípio este intrinsecamente interligado ao da liberdade de ensino.

‘‘Nesse sentido, não compete a este Juízo analisar os critérios a partir dos quais o IFCH/UFRGS concebeu e ofereceu aos estudantes de graduação e pós-graduação o curso denominado ‘O golpe de 2016 e a nova onda conservadora do Brasil’, a menos que estivessem sendo feridos direitos fundamentais. Não é, sequer ao longe, o caso do curso impugnado na inicial. Ao contrário, a intervenção judicial pretendida é que feriria os preceitos constitucionais, base de um sistema democrático’’, anotou na sentença.

Clique aqui para ler a íntegra da sentença.

Processo 5009227-87.2018.4.04.7100/RS

Jomar Martins
No ConJur
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Cara de pau: líder do DEMo boicotou posse de Dilma e agora ataca PT e PSOL por faltarem à de Bolsonaro


Políticos como Mendonça Filho parecem desafiar a inteligência dos brasileiros. Ele foi ao Twitter para criticar o PT e o PSOL por decidirem não comparecer à posse de Jair Bolsonaro.

“O boicote à posse do presidente eleito, Jair Bolsonaro, anunciado pelo PT e pelo PSOL, só reforça o DNA autoritário e antidemocrático dos partidos de esquerda. E mostra que não aprenderam nada com a história e muito menos com o recado dado nas urnas nesta eleição”, escreveu.

Mendonça Filho era líder do DEM em 2014 e não compareceu à posse de Dilma Rousseff, como mostra a reportagem de O Globo.

Ele inventou a desculpa de que deu prioridade à posse do governador de seu estado, Paulo Câmara.

Cascata.

O líder do PSDB, Antônio Imbassahy, também não foi, mas pelo teve mais sinceridade. Disse que fez questão de faltar.

DEM e PSDB tinha decidido não comparecer à posse de Dilma.

Na ocasião, entretanto, não houve crítica por parte da mídia.

Foi tudo considerado normal.

Já em relação ao PT, é paulada o tempo inteiro e se exigiu que o partido faça auto-crítica.

É certamente por isso que Mendonça Filho se sente à vontade para ir ao Twitter e criticar adversários por fazerem o que ele fez.

Mendonça é filho de deputado federal e casado com a filha do ex-ministro Marcos Vilaça.

Ocupa cargos políticos desde os 20 anos de idade, quando, pegando carona na popularidade do pai, se elegeu deputado estadual em Pernambuco.

Mais tarde deputado federal, apresentou o projeto de emenda constitucional que instituiu a reeleição no Brasil.

Depois que a emenda foi aprovada, em 1997, dois deputados confessaram, em conversa gravada, que tinham vendido o voto favorável à emenda.

Mendonça Filho foi um dos líderes do movimento que levou à derrubada de Dilma Rousseff, sem crime de responsabilidade que o justificasse.

Com a ascensão de Temer, foi indicado ministro da Educação e se licenciou do cargo em duas votações impopulares.

Foi a favor da reforma trabalhista e votou contra a abertura de processo criminal contra Michel Temer, justamente ele que dizia ser um cruzado contra a corrupção durante o governo de Dilma.

A velha imprensa dava generoso espaço a ele sem registrar que, em 2009, ele teve o nome divulgado em um grampo em que diretores da construtora Camargo Corrêa o citam como beneficiário de uma doação de R$ 100 mil em sua campanha para governador.

Em 2017, quando o professor de ciência política UnB, Luís Felipe Miguel, anunciou a criação da primeira disciplina sobre o golpe, Mendonça Filho ameaçou intervir na universidade.

Com a criação de disciplinas semelhantes, em universidades de todo o Brasil, recuou da ameaça, que era, evidentemente, inconstitucional.

Na última eleição, tentou o Senado por Pernambuco, mas foi derrotado.

Agora já se prepara para usar a única tribuna que lhe sobrou, o Twitter, para manifestar suas incoerências. Sabe que políticos oligárquicos como ele são poupados pela mídia.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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O espetáculo da fascistização


Brasília está sitiada para a posse do presidente que defende a tortura e a ditadura.

Há um enorme aparato militar ostensivo distribuído em pontos estratégicos e de grande visibilidade. A Esplanada e a Praça dos Três Poderes, o coração da cidade, estão cercadas por tropas numerosas. A toda hora, helicópteros militares sobrevoam a cidade de Niemeyer e Lúcio Costa. Parece que estamos em guerra ou que há uma quartelada em andamento.

Alega-se que tudo isso seria necessário em nome da segurança do evento.

Trata-se, a meu ver, de alegação frágil.

No mundo civilizado, em países sujeitos a atos de terrorismo, há esquemas de segurança rígidos para eventos semelhantes. Mas, por motivos claros, eles são bem mais discretos e certamente menos militarizados.

Nos EUA, por exemplo, os agentes do Serviço Secreto, do FBI etc. atuam discretamente, misturando-se a convidados e público. Coloca-se ênfase em atividades de inteligência e na vigilância secreta, que são muito mais eficientes na prevenção a atentados que a presença ostensiva de militares uniformizados com tanques e mísseis. Por óbvio, patrulhamentos militares ostensivos são facilmente burláveis por terroristas minimamente eficazes.

Assim, parece-me que o esquema militar grandioso e caríssimo da posse de Bolsonaro tem duas outras funções principais:

1) Impedir eventuais manifestações contrárias ao presidente neofascista e, sobretudo,

2) Fazer a propaganda do novo regime autoritário.

O primeiro ponto é óbvio. O segundo, nem tanto.

Tanto o fascismo como o nazismo foram regimes que recorreram a espetáculos grandiosos para sua afirmação e legitimação.

O historiador Karl Dietrich Bracher argumenta que o sucesso da ideologia nazista não pode ser entendido sem a compreensão do papel central da propaganda. Tal propaganda criou um forte fenômeno psicorreligioso na população alemã. O líder passou a ser visto como uma espécie de representante do divino na Terra, um ser infalível, que pairava sobre todos.

Fundamental para a configuração de tal fenômeno foram as cerimônias cuidadosamente coreografadas e intensamente militarizadas, como os famosos rallies de Nuremberg, nos quais se comemorava o aniversário do partido nazista.

Nessas cerimônias, o aspecto militarista era central. Uniformes, estandartes e bandeiras desfilavam em rígida formação. O objetivo era projetar força e poder. Força e poder para intimidar os inimigos e força e poder para “empoderar” os membros da seita político-religiosa.

Dessa forma, o cidadão comum, humilhado e amedrontado pela recessão, a insegurança e a derrota na Primeira Guerra Mundial, sentia-se forte e protegido. Sua vida medíocre ganhava propósito e sentido.

E o propósito comum era defender os valores culturais e religiosos do “Ocidente” e os valores nacionais da Alemanha contra a ameaça maléfica, universalista e corrupta do bolchevismo e do judaísmo.

Qualquer semelhança com o bolsonarismo, sua mistura de fundamentalismo cristão e reacionarismo político, sua cruzada santa contra o “marxismo cultural” que ameaça o “Ocidente” e seu discurso fortemente autoritário, violento e militarizante não é mera coincidência.

Embora em épocas e circunstâncias muito diferentes, o bolsonarismo cumpre, no Brasil da crise, o mesmo papel psicopolítico que o nazismo desempenhou na República de Weimar. Ele proporciona, mediante a projeção de força, poder simbólico e propósito a uma legião de gente fragilizada e amedrontada, que busca no ódio a inimigos imaginários a sua redenção. Por isso mesmo, seu primeiro grande ato será distribuir armas aos “cidadãos de bem”.

Nesse sentido, a posse do “Mito”, nesse ambiente de militarização ostensiva, será um primeiro grande rally político do nosso fascismo. Uma espécie de Nuremberg em Brasília.

Não se trata, portanto, de segurança contra atentados. Pelo menos não no essencial. E não se trata, muito menos, de uma festa republicana, democrática, destinada a unir os brasileiros.

Ao contrário, trata-se de uma cerimônia para demarcar terreno simbólico e político. Uma cerimônia para dividir o Brasil entre aqueles que têm de ser banidos, presos ou “metralhados” e aqueles que, agora, dispõem da força e “legitimidade” necessárias para eliminar seus “inimigos”.

Por muito tempo, o Brasil e sua democracia desprezaram a ameaça do fascismo bolsonarista. Agora, talvez seja tarde demais. O rally político deste primeiro de janeiro poderá ser o primeiro de muitos.

Marcelo Zero
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Integrantes do futuro governo alertam Bolsonaro sobre mudança de embaixada em Israel


Integrantes do futuro governo estão alertando ao presidente eleito Jair Bolsonaro sobre o risco que representará ao país a possível mudança da sede da embaixada do Brasil em Israel, disse à Reuters uma fonte em condição de sigilo.

Segundo a fonte, a transferência da sede de Tel Aviv para Jerusalém poderia trazer consequências ao país, especialmente no campo comercial.

O Brasil é o maior exportador mundial de carnes para países árabes, que são contra a posição de reconhecer Jerusalém como território exclusivamente israelense.

Alguns países da chamada liga Árabe alertaram que uma mudança poderia abalar o comércio entre Brasil e suas nações e as exportações brasileiras poderiam ficar comprometidas.

“Jair Bolsonaro tem sido alertado sobre a importância dos países árabes para o setor agrícola brasileiro”, disse à Reuters a fonte, na condição de anonimato. “São bilhões por ano.”

O setor agropecuário foi um dos principais apoios obtidos por Bolsonaro durante a sua campanha presidencial e a bancada no congresso será fundamental para a aprovação de reformas estruturais previstas pelo futuro governo.

A fonte destacou, no entanto, que Bolsonaro quer fazer um gesto de “agrado” a Israel como forma de aproximação estratégia com o país alinhado com os Estados Unidos.

“Ele (Bolsonaro) gostaria de se aproximar de Israel, que tem a sua admiração, através desse gesto diplomático”, frisou a fonte.

O premier de Israel Benjamin Netanyahu está no Brasil desde a semana passada e na sexta-feira passada se encontrou com Bolsonaro. Ele também vai à posse do presidente eleito na capital federal na terça-feira.

No fim de semana, Netanyahu, disse que Bolsonaro lhe confessou o desejo de transferir a embaixada em Israel e que a questão era quando isso irá ocorrer e não se ela vai acontecer.

Rodrigo Viga Gaier
No Reuters
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Ignorância científica de Bolsonaro é espantosa


O jornalista Marcelo Leite, especializado em ciência e ambiente, expõe em artigo  a ignorância completa de Jair Bolsonaro em relação a temas científicos. "Não se trata só dos erros de português e pontuação, nem da cafonice premeditada, muito menos da infantilidade virulenta dos filhos. O que mais incomoda a um jornalista de ciência está no elogio implícito da ignorância, tamanho o desprezo com fatos, evidências e conhecimentos científicos básicos". 

Ele ilustra a ignorância do presidente eleito com o caso do grafeno. "Há na internet um vídeo de 2017 em que Jair Messias Bolsonaro, a pretexto de condenar a existências de terras indígenas, faz elogio rasgado a uma jazida de grafite no Vale do Ribeira (SP). Dizia então o pré-candidato que de cada quilo do material se podem extrair 150 gramas de grafeno, que valeriam US$ 15 mil".

"Problema, diz o futuro presidente: a Funai teria levado para aquela região 67 índios, alguns "importados do Paraguai". Toda a terra estaria requisitada pelo órgão para ser uma "reserva indígena" (coisa que não existe na legislação nacional)".
"Bolsonaro alude ao interesse de Estados Unidos, China, Japão e Coreia do Sul pelo “nosso” grafeno. A conclusão, óbvia, nunca explicitada por ele: a Funai e os povos indígenas estariam a serviço de interesses antinacionais, uma velha ladainha entre militares de direita", diz Leite. 

"Note que Bolsonaro não dá informações precisas no vídeo. Não diz exatamente onde está, nem que índios são esses, ou quando a Funai os levou para lá, de quando é a requisição da área, qual o nome da terra indígena. A única afirmação verificável é que o grafite, por si só, quase não tem valor. Não tem mesmo. Se tivesse, os lápis que nossas crianças usam para aprender a escrever não custariam a bagatela que custam". 

O jornalista dispara: "Qualquer pessoa com um mínimo de cultura geral sobre inovação tecnológica saberia que a questão não é ter acesso a grafite para conseguir grafeno, mas conseguir produzi-lo com grau apurado de qualidade e, mais importante, desenvolver técnicas para aplicá-lo em dispositivos inovadores e patenteáveis".

"Esse é só um exemplo das batatadas que ajudaram a eleger Bolsonaro, mas bem representativo do tipo de mistificações com que sua candidatura chegou à vitória eleitoral. Contra elas, esclarecimentos com os que vão acima se mostram quase inúteis e serão desqualificados de pronto como “fake news”". 

"É pouco provável que venha a ruir ainda em 2019 esse monumento à ignorância. Talvez nem mesmo em 2020, ou 2021, ou 2022, se uma eventual recuperação econômica der aos governantes e a seus apoiadores a ilusão de que estão certos. Não estão, claro. Bom 2023 para todos", conclui.
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O fascismo não necessita de muito além de ignorância política e força bruta

Tenho para mim que muito da dramática realidade social que estamos vivenciando decorre de um sórdido “trabalho”, sistemático e permanente, da grande imprensa no sentido de despolitizar o cidadão brasileiro.

A mídia empresarial criou, na opinião pública, a falsa crença de que a política é “coisa” perversa e que todos os políticos são corruptos ou incompetentes.

Parece que parte do Poder Judiciário e parte do Ministério Público também restaram “seduzidos” por esta falácia …

Ministério Púbico e Poder Judiciário estão criminalizando a política, fingindo desconhecer que era lícito o financiamento empresarial das campanhas políticas. Quaisquer atividades legislativas ou administrativas que vieram a beneficiar determinado segmento empresarial, eles tipificam como crime de corrupção passiva, sem um nexo de causalidade mais próximo e bem definido com a doações anteriores.

A Política e o Direito operam em patamares morais distintos. O Direito não se confunde com a moral. O Direito há de estar positivado nas normas jurídicas, enquanto a moral está na mente das pessoas.

A má-fé é patente, pois estas empresas de comunicação sabem muito bem que não há país no mundo sem governo e não há governo sem política. Não há como liderar sequer um grupo social sem negociar com apoiadores e adversários. Tudo em sociedade é regido pela política !!!

O resultado desta desinformação é gritante. As pessoas se mostram contraditórias, pois não têm condições de compreender corretamente os acontecimentos econômicos, políticos, jurídicos e sociais.

Tudo isso cria, na população, uma postura de total alienação ideológica, um falso moralismo e um nacionalismo exacerbado, campos ideais para a fertilização do fascismo. O fundamentalismo religioso também é um grande auxiliar do obscurantismo.

Não é por outro motivo que o novo governo – de extrema direita – já está atacando a educação formal, mormente aquele conhecimento produzido na academia, nas universidades. Estes são um importante campo de resistência ao fascismo.

O futuro presidente do Brasil bem representa estas posturas totalitárias e conservadoras. Seu grupo político faz política dizendo que não são políticos ou vão governar sem fazer política, como se isso fosse possível. Eles são um contradição em si mesmo … Fazem política ao dizer que não são políticos, ao dizer que não fazem política …

O grupo político do tosco capitão é truculento e é composto de pessoas intolerantes, despreparadas. Isto agradou aos seus eleitores, que apreciam a ignorância e soluções simplistas para problemas complexos. Continuam com os velhos e desgastados bordões: defesa da família e de falsos valores religiosos, combate à corrupção e ao comunismo (que sequer sabem o seu real significado) !!!

São moralistas hipócritas (cadê o motorista-assessor Queiroz?) e agem em desacordo com os princípios cristãos. Seriam cristãos pregando o contrário do que pregou Jesus de Nazareth.

Não pode existir a menor dúvida de que Jesus não votaria em um candidato que disse ser favorável à tortura de seres humanos e do extermínio de seus adversários ideológicos. Jesus estaria gritando “ele não” !!!

O momento é perigoso e estamos correndo algum risco de cairmos no obscurantismo e em alguma espécie de “terror social”, com perseguição e extermínio de minorias.

Desta forma, temos de, incessantemente, criar uma espécie de “corrente de esclarecimento” à população menos informada.

Precisamos criar, também, uma estrutura mínima que permita que troquemos informações e receba denúncias de violações a nossos direitos para dar publicidade a eles.

Por derradeiro, acho que temos de alertar, a todos e permanentemente, sobre o perigo do fascismo em nosso meio social. Enfim, DEMOCRACIA NELES !!!.

Importante notar que a legítima defesa exclui a ilicitude de reações necessárias e urgentes. Dispõe o Código Penal: “Artigo 25 – Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.”

Dentro do nosso ordenamento jurídico, vamos resistir em todas esferas. Os melhores valores, cunhados por um lento e doloroso processo civilizatório, não podem sucumbir diante de um obscurantismo cultural e de truculências fascistas. Resistir, é preciso !!!

Afrânio Silva Jardim, professor associado de Processual Penal da Uerj.
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Chagas: Temer desistiu do indulto porque teme o STF

Duas denúncias contra ele estão no Supremo...


Por Helena Chagas, no site Os Divergentes:

Michel articula até o último minuto para salvar a pele

Michel Temer já avançou, recuou, desistiu e desistiu da desistência várias vezes em seu governo, que acaba amanhã. Em quase todas, a ginástica teve o objetivo de salvar a própria pele, e foi bem sucedida. Afinal, são raros os casos de presidentes que conseguem escapar a duas votações de pedidos de impeachment pela Câmara no espaço de poucos meses. Mais raro ainda, certamente inédito, é o chefe do Executivo conseguir chegar ao último dia de seu mandato constitucional – para o qual sequer foi eleito – sendo alvo de três denúncias da Procuradoria Geral da República por corrupção.

Então, minha gente, é preciso reconhecer que Michel Temer, apesar dos pesares – e a impopularidade é só um deles -, é um gênio da raça no quesito sobrevivência. E não deve causar espanto que, até o último minuto do mandato, ele esteja agindo de olho nela. É isso, portanto, que está sendo levado em conta na decisão de não (pelo menos neste momento) assinar o indulto que poderia tirar milhares de presos da cadeia nessa virada do ano.

A última versão do texto, aquela que Michel quase assinou, excluía do benefício os crimes por corrupção. Ainda assim, beneficiaria muitos condenados que lotam o sistema carcerário e conta com o apoio da Defensoria Pública, de entidades de Direitos Humanos, de advogados e especialistas do Direito.

Por que o presidente perdeu a caneta na última hora? Porque, segundo amigos, não quer melindrar nenhum dos ministros do divididíssimo Supremo Tribunal Federal, que não conseguiu ainda chegar a uma conclusão sobre o indulto que ele concedeu no ano passado. Aliás, a maioria do STF já tomou posição favorável ao indulto, mas o lado perdedor não permitiu a conclusão do julgamento.

Na visão de alguns conselheiros do ainda presidente, editar um novo indulto sobre o antigo, que não teve ainda sua validade referendada, poderia ferir suscetibilidades supremas – tudo o que Michel não quer e não pode fazer hoje. Afinal, duas de suas denúncias ainda estão lá, aguardando a terça-feira, quando ele perde o foro de presidente da República. Em tese, esses casos serão remetidos à primeira instância. A forma e a velocidade com que isso vai acontecer – bem como a decisão sobre o destino da terceira denúncia – vão depender, sobretudo, dos humores dos ministros do STF.

Michel, que vem conduzindo uma transição civilizada e até fidalga de governo para Jair Bolsonaro com o objetivo de manter boas relações com o futuro poder, já perdeu o medo de sair diretamente da rampa do Planalto para um camburão.

Ao que parece, estão sendo bem sucedidas as articulações que o presidente da República vem fazendo enquanto ainda está no cargo. O que se diz no establishment político-judicial é que são bastante remotas as chances de ele vir a ser preso no curto prazo. Depois,tem o tempo dos processos, as idas e vindas judiciais, a idade, etc.

Ainda que, do outro lado, no Brasil real, um monte de gente sem-indulto vá continuar trancafiada neste fim de ano.

No CAf
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PT e PSoL acertam em não participar da posse de Bolsonaro

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/12/31/pt-e-psol-acertam-em-nao-participar-da-posse-de-bolsonaro/


É impressionante como na escala de valores de certo colunismo às ações praticadas à esquerda soam sempre muito menos democráticas do que à direita.

Se um candidato como Bolsonaro fala em eliminar a petralhada, trata-se de um piadista. Alguém que não deve ser levado à sério.

Se Aécio Neves pede impugnação da chapa de Dilma Rousseff e recontagem de votos em 2014 e PSDB e DEM não vão a posse da ex-presidente, não pega nada.

Mas bastou o PT e PSoL anunciarem que não participarão do convescote de Bolsonaro com um TSE que jogou contra a democracia no processo eleitoral, para que o colunismo que se diz limpinho saísse da toca gritando fogo, fogo, fogo…. Como se o grande problema desses tempos sombrios fosse respeitar formalidades.

Não ir a posse de Bolsonaro é um ato político que não traz consequência alguma ao jogo democrático. Ele não deixará de tomar posse por isso. Seus votos não serão roubados e queimados. Não haverá crise institucional.

É uma opção de uma oposição que se considerou tratada como inimiga e não como adversária na disputa eleitoral. Que foi ameaçada de morte, que foi considerada terrorista. E a quem foi sugerida tortura lá na “Ponta da Praia”.

Não me venham com esse papo mole de que isso faz parte do jogo. Não faz. No processo democrático faz parte do jogo ganhar ou perder. Faz parte jogar duro. Mas ameaçar adversários com a eliminação física, não.

A parte isso, mesmo que Bolsonaro não tivesse dito insanidades como essas, sua agenda é essencialmente uma ameaça aos valores democráticos. Atos políticos buscando denunciar isso não são agressões à democracia, ao contrário. São demarcações de campo. São negação de um caminho cujo prenuncio pode levar o país à barbárie.

Aqueles que estão se negando a participar deste momento de posse estão sinalizando para o país que não acreditam que amanhã se dará apenas a substituição de um presidente por outro. É justo que o façam assim.

O PT e o PSoL estão deixando claro de que lado estão em relação ao que se avizinha desde já. E estão fazendo isso com base em declarações e promessas de campanha do sujeito que assume amanhã. Isso não é desrespeitar o voto de 55 milhões de pessoas. Como também não é honrar o de 45 milhões. É tomar um posicionamento de oposição radical a uma agenda que pode levar o país à bárbarie.

Política se faz com gestos e ações claras.

O resto é conversa mole do mervalismo, que às vezes seduz gente mais séria. Mas que nem por isso deixa de jogar água no moinho de uma narrativa que busca igualar tudo o que Bolsonaro faz e diz a um outro lado que resiste ao seu projeto fascista.
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Homem que espanca idoso no Recife é evangélico, bolsonarista e já foi preso


Um vídeo postado nas redes sociais na manhã de sábado, dia 29, deixou a população pernambucana revoltada.



Câmeras de segurança de prédios da Rua Amazonas, no bairro do Pina, no Recife, registraram o momento em que o flanelinha William José de Souza, de 61 anos, foi espancado por Bruno Nunes Elihimas.

A vítima perdeu dentes e foi encaminhada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Imbiribeira, mas, devido à gravidade das lesões, seguiu para o Hospital da Restauração (HR).

Bruno, de 35 anos, já foi preso por receptação de carro roubado e venda de anabolizantes, chegando a ser conduzido ao Centro de Observação e Triagem Everardo Luna, COTEL, em Abreu e Lima, mas teve alvará de soltura por liberdade provisória.


Segundo o advogado Marcelo Soares, Souza teria agredido a namorada de seu cliente um dia antes. Ela estava grávida e teria perdido o bebê.

Não há nenhuma prova disso.

Em nota, a Polícia Civil de Pernambuco informou que não há registro de queixa por parte de Bruno contra William.

Soares contou que Bruno está escondido na casa de familiares e “no momento propício” vai se apresentar às autoridades, possivelmente no próximo dia 1º de janeiro.

Nas redes sociais, Bruno fez campanha para Bolsonaro e aparece sendo batizado por um pastor evangélico numa praia.

Um típico cidadão de bem.

O Brasil dormirá tranquilo sabendo que Bruno pode ter uma arma amanhã.


Com DCM
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Datafolha mostra erro da jogada marqueteira de Moro/Bolsonaro


Dezenas de trolls me deram trabalho nos comentários para reter a onda de bobagens que diziam sobre o fato de que “liberar geral” a posse de armas era “a vontade do povo” incontestável e maciça.

Só que não, mostra a pesquisa Datafolha publicada hoje, onde apenas um pouco mais de um terço das pessoas é favorável à posse sem restrições de armamento.

Mesmo entre os eleitores de Jair Bolsonaro, apenas uma ligeira maioria (53%) é favorável ao direito de possuir armas e menos ainda (39%) à facilitação do acesso a elas.

Além dos eleitores de Bolsonaro, em só um recorte as armas levam vantagem: entre os que ganham mais de dez salários mínimos.

Afinal, a grande maioria nem mesmo tem os cerca de R$ 3 mil necessários para comprar uma arma em lojas…

Ainda assim, pouca gente percebe o quanto há de mistificação nesta história, como se a compra de armas fosse terminantemente proibida.

Tanto não é que ela saltou 11 vezes (de 3 mil para 33 mil) em 15 anos, sem que isso provocasse nenhum resultado positivo nem na redução do número de mortos a bala (ao contrário) e sequer na sensação de segurança dos cidadãos.

O nome disso é, portanto, demagogia. Pior, duvidosa e perigosa e mortal, porque as vidas perdidas não se recuperarão.

Ao menos que nos poupem de comparações imbecis, como a feita pelo festejado “Golbery” de Bolsonaro, o general Augusto Heleno, que comparou a posse de armas à de automóveis, porque estes matam, em acidentes, tantos quantos morrem assassinados a bala.

Se voltássemos à época das carroças, ao menos não faltaria com quem puxá-las em Brasília.

Fernando Brito
No Tijolaço
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“Odeio o Ano Novo”, de Antônio Gramsci


No dia 1º de janeiro de 1916, Antônio Gramsci escrevia no jornal socialista Avanti! o artigo “Odio il Capodanno”. Nesta obra rara o comunista italiano expressa seu ódio ao imobilismo e ao conformismo pequeno-burgueses. Antes que termine o ano de 2018 compartilhamos com todos inconformados leitores de nosso diário esta tradução ao português baseada em artigo publicado em espanhol na rede internacional de diários Esquerda Diário.

O texto foi publicado originalmente no dia 1º de janeiro de 2016 em Turim, no jornal Avanti!, onde Gramsci escrevia a coluna “Sotto la Mole”, dedicada a comentar sobre a vida turinesa sob a sombra da Mole Antonelliana , principal símbolo arquitetônico da cidade.

O “Capodanno” (Ano Novo) de 1916 esteve marcado pela recente entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial, uma carnificina entre as nações imperialista pela dominação mundial como nunca antes a humanidade tinha visto. Este fato gerou um profundo debate na sociedade italiana, entre a classe trabalhadora e dentro do próprio Partido Socialista Italino que se debatia entre posições “social-patriotas” a favor da intervenção militar e posições de “neutralidade”.

Esse debate atravessou o socialismo europeu, e os principais partidos apoiaram a guerra e suas próprias burguesias em “defesa da pátria”, levando a bancarrota da Segunda Internacional. Entre os que se opuseram a esse caminho reformista da Segunda Internacional e dos Partidos Socialistas estavam aqueles que fizeram isto a partir de uma posição revolucionária (encabeçados por Lênin, Trotsky, Liebknecht e Rosa Luxemburgo) e também o próprio Antônio Gramsci. Posteriormente, junto a Amadeo Bordiga, serão alguns dos principais fundadores do Partido Comunista Italiano.

Neste contexto o “Odeio o Ano Novo” é uma diatribe contra essa festa, mas sobretudo, é uma manifestação do ódio de Gramsci ao conformismo das ideias e da vida regulamentada pelo capitalismo e sua ideologia, que nos leva a celebrar, porque sempre se celebrou, uma ocasião especial.

Algo que nos impulsiona a mudar ou a preparar novos planos para alguma mudança mas que logo seremos enfrentados por um pântano de imobilismo até uma nova ocorrência. Contra esta inércia escreve Gramsci:
“Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar-me.”
Odio il Capodanno de Gramsci nos aproxima de seus conhecidos artigos “Ódio aos indiferentes” publicados no mesmo Avanti! um ano depois em 11 de fevereiro de 1917. A luta de Gramsci contra o imobilismo e o conformismo das ideias, próprias de sua personalidade curiosa, inconformista, anticlerical e sobretudo, comunista.

Odio il Capodanno

Toda manhã, ao acordar mais uma vez sob o manto do céu, sinto que para mim é o primeiro dia do ano.

Por isso odeio estes anos novos a prazo fixo, que transformam a vida e o espírito humano em uma empresa comercial, com sua prestação de contas, seu balanço e suas previsões para a nova gestão. Eles fazem com que se perca o sentido de continuidade da vida e do espírito. Termina-se por acreditar a sério que entre um ano e outro exista uma solução de continuidade e comece uma nova história; fazem-se promessas e projetos, as pessoas se arrependem dos erros cometidos, etc. É um equívoco geral que afeta todas as datas.

Dizem que a cronologia é a ossatura da história. Pode-se admitir que sim. Mas também é preciso admitir que há quatro ou cinco datas fundamentais, que toda pessoa conserva gravadas no cérebro, datas que tiveram efeito devastador na história. Também elas são primeiros dias de ano. O Ano Novo da história romana, ou da Idade Média, ou da era moderna. Elas se tornaram tão presentes que nos surpreendemos a pensar algumas vezes que a vida na Itália começou em 752, e que 1490 ou 1492. São como montanhas que a humanidade ultrapassou de um só golpe para entrar em um novo mundo e em uma nova vida.

Com isso, a data converte-se em um fardo, um parapeito que impede que se veja que a história continua a se desenvolver de acordo com uma mesma linha fundamental, sem interrupções bruscas, como quando o filme se rompe no cinema e se abre um intervalo de luz ofuscante.

Por isso odeio o ano novo ano. Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar-me. Nenhum dia previamente estabelecido para o descanso. As pausas eu escolho sozinho, quando me sinto embriagado de vida intensa e desejo mergulhar na animalidade para extrair um novo vigor.

Nenhum disfarce espiritual. Cada hora da minha vida eu gostaria que fosse nova, ainda que vinculada às horas já passadas. Nenhum dia de júbilo coletivo obrigatório, a ser compartilhado com estranhos que não me interessam. Só porque festejaram os avós dos nossos avós, etc., teremos também nós de sentir a necessidade de festejar? Tudo isso dá náuseas.

Espero o socialismo também por esta razão. Porque mandará para o lixo todas estas datas que já não têm nenhuma ressonância em nosso espírito. E se o socialismo vier a criar novas datas, ao menos serão as nossas e não aquelas que temos de aceitar sem benefício de inventário dos nossos ignorantes antepassados.

Antonio Gramsci, Turín, 1º de janeiro de 1916.

Tradução: Leandro Lanfredi
Tradução ao português tomando por base o texto em Espanhol Tomado do Livro “Bajo la Mole – Fragmentos de Civilización”, de Antonio Gramsci. Editorial Sequitur, Págs. 9-10.
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Mujica — o filme

Uma noite de 12 anos


Mujica, Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro são militantes dos Tupamaros, grupo que luta contra a ditadura militar local. Eles são presos em ações distintas e encarcerados junto a outros nove companheiros, de forma que não possam sequer falar um com o outro. Ao longo dos anos, o trio busca meios de sobreviver não só à tortura, mas também ao encarceramento que fez com que ficassem completamente alheios à sociedade, sem a menor ideia se um dia seriam soltos.

Direção: Álvaro Brechner


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30 de dez de 2018

Xadrez do trumpismo e do bolsonarismo


Peça 1 - as bolsonarices de Trump

Na descrição da jornalista Elizabeth Drew, lotada em Washington, Donald Trump é “um presidente dos Estados Unidos que desdenha a opinião de especialistas, é impulsivo, mentiroso, não muito inteligente, perturbado, desinformado, indeciso, incompetente, destemperado, corrupto e um negociador pobre (conforme) ficou irrefutavelmente claro nos últimos dias”.

No entanto, imaginava-se que seria domado pelo “sistema”, as instituições que integram a maior democracia do planeta, que suas extravagâncias não mexeriam com a economia e os mercados.

Ledo engano!

Fato 1 - a interferência na Defesa

No dia 19 de dezembro, pelo Twitter, Trump informou que o EIIL (Estado Islâmico do Iraque e da Siria) havia sido derrotado e os Estados Unidos retirariam suas tropas da Síria. Anunciou também a retirada de metade das tropas do Afeganistão, no meio de negociações com os talibãs.

Não consultou países e grupos aliados, não informou previamente as lideranças republicanas no Congresso. Consultas prévias são essenciais para corrigir caminhos, levantar consequências e montar estratégias de implementação.

Estrategicamente, a medida foi considerada um desastre diplomático e estratégico. Os curdos foram deixados à mercê da Turquia e o poder na Síria se consolidou nas mãos de Bashar al-Assad, aliado da Rússia e do Irã. Não por coincidência, as duas únicas personalidades a saudar a medida por Recep Tayyip Erdoğan, da Turquia, e Vladimir Putin, da Rússia.

As reações foram imediatas. No Senado, houve o protesto da senadora Lindsey Graham, em geral aliada de Trump. O Secretário de Defesa James Mattis, tido como única barreira aos impulsos de Trump, pediu demissão. Na lista de queixas, um diagnóstico arrasador dos desastres que uma diplomacia sem rumo pode provocar. Trump demonstrou confusão para identificar aliados e adversários, passou aos aliados sinais fortes que não poderiam confiar no apoio americano, esgarçou as alianças com a OTAN (Organização do Tratado do Atlêncito Norte).

A saída de Mattis provocou reações imediatas no Partido Republicano, conforme alerta do líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, que viu o governo Trump despido de qualquer barreira de proteção contra suas bolsonarices.

Fato 2 - o muro separando o México

Trump fez campanha defendendo a construção de um muro separando os EUA do México, para impedir a imigração ilegal. A proposta tornou-se impopular para o público. Em reunião televisionada na Casa Branca, os democratas jogaram uma casca de banana e Trump escorregou direto: para não abrir mão da rude franqueza sem-noção, declarou que ficaria “orgulhoso” de paralisar o governo, caso o Congresso não liberasse parte das verbas para a construção do muro.

Pouco antes do Natal, foram suspensos os salários de centenas de milhares de trabalhadores federais.

Fato 3 - a disputa com o FED

Junto com a paralisação da administração, veio o humor de que Trump planejava demitir Jerome Powell, presidente do FED. O desconforto do mercado obrigou o Secretário do Tesouro Steven Mnuchin a uma desmentido público.

Até então, o mercado acreditava que Trump latia, mas não mordia.

Fator 4 - as disputas com a China

A radicalização da guerra comercial contra a China, ameaçando a globalização e as cadeias de suprimentos globais, especialmente no setor de tecnologia, espalhou o pânico, radicalizando os receios de ampliação da crise global.

Segundo Nouriel Roubini - o economista que previu o crash de 2008 - hoje em dia o mercado enxerga Trump como o Dr. Strangelove, o personagem do filme de Stanley Kubrick.

Conclusão

Nos processos democráticos, há dois momentos distintos. Um, o das eleições, nas quais o eleitor se manifesta. A outra, no exercício do poder, restrito ao que o próprio Trump chama de “sistema”: o Congresso, a Suprema Corte, o sistema de Defesa, o Departamento de Estado, o mercado e a grande mídia sendo a síntese dos julgamentos de imagem que acompanham toda gestão.

Ou seja, as redes sociais ajudam a construir imagens junto ao povão dentro das regras de conduta aceitas pelo “sistema”.

Peça 2 - as trumpices de Bolsonaro

Se Steve Bannon não assessorou pessoalmente Jair Bolsonaro, nas últimas campanhas, estamos diante de um milagre superior aos feitos de João de Deus. Não apenas o uso das redes sociais, a geração de fakenews, mas as denúncias contra supostas manipulações na apuração, a criminalização dos adversários, o estímulo à violência, a disseminação do preconceito por gays, imigrantes, “vermelhos”, e um fanatismo religioso de talibã.

Os riscos do estilo Trump para uma democracia madura, como os Estados Unidos, servem de alerta a qualquer setor racional do sistema de poder brasileiro. E, em relação, ao “sistema”, há diferenças essenciais entre os Estados Unidos de Donald Trump e o Brasil e Jair Bolsonaro.

Há dois momentos na política: nas eleições, manifesta-se o povo; no governo, manifesta-se o “sistema”.

No caso brasileiro atual, há um enorme fator de desequilíbrio no “sistema”: o poder militar que emergiu com a falência do poder civil e que tem se constituído, até agora, no eixo mais racional da troupe Bolsonaro.

O STF (Supremo Tribunal Federal) perdeu a capacidade de mediação. No momento em que o presidente Dias Toffoli trouxe um militar como assessor, formalizou definitivamente a irrelevância do STF, como defensor da Constituição e agente de mediação.

O Congresso poderá ser subjugado pelo estado policial que está a caminho, comandado pelo futuro Ministro da Justiça Sérgio Moro.

O empenho com que a própria Procuradoria Geral da República vazou delações contra Renan Calheiros, candidato a presidente do Senado, e o papel solícito do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro em relação ao motorista dos Bolsonaro, são indícios do envolvimento político do ministério público.

Peça 3 - A volta dos porões

Há um enigma no ar, que é o papel a ser desempenhado pelos porões.

O documentário anônimo sobre o atentado a Jair Bolsonaro é perturbador. Nele, são identificadas pessoas que gravitam no entorno de Adélio durante a primeira tentativa e a segunda, logo depois. Em alguns momentos, parece até que montam uma barreira no meio do povo, para facilitar a aproximação de Adélio. E, quando ocorrer o atentado, correm a montar um cordão de proteção para impedir o linchamento do autor.



São indícios, mas que merecem atenção, assim como a pressa no deputado-delegado Francesquini em impedir entrevistas, ou a prontidão de quatro advogados assistindo Adélio logo após o atentado. E, mesmo, seu isolamento total depois do atentado.

É difícil que o atentado não tenha ocorrido. Não seria possível cooptar médicos da Santa Casa de Juiz de Fora e dos hospitais Albert Einstein e Sirio Libanês. Mas a hipótese de ter sido um conluio, e não a ação individual de um desvairado, não deve ser descartada. Havia  dois desfechos possíveis no atentado: um ferimento superficial ou um ferimento fatal. Em qualquer hipótese, o bolsonarismo sairia vencedor, com Jair ou sem Jair. Aliás, é só conferir a desenvoltura com o que o candidato a vice-presidente, general Hamilton Mourão, assumiu as rédeas da campanha.

É difícil que Mourão tenha participado de um jogo desses. Mas, e se fosse um grupo dos porões, que enxergasse no atentado a possibilidade de um presidente militar puro-sangue?

Os ataques terroristas

Seja o que for, há muito mais coisas no ar do que aviões de carreira. Já é antiga a insistência em encontrar células terroristas no Brasil, como álibi para a implantação de uma intervenção maior nas instituições.

A primeira tentativa foi o do então Ministro Alexandre de Moraes, armando um banzé em torno do episódios do grupo radical de Facebook - um bando de malucos, mas sem nenhum indício de que estariam planejando ações concretas.

Depois, a criação indiscriminada de operações nos estados com as forças nacionais, a indicação de um general da reserva, radical, para comandar o GSI (Gabinete de Segurança Interna), o decreto estendendo o conceito de segurança nacional para todos os cantos.

Agora, surge essa história da ameaça terrorista, e do manifesto pirado divulgado por um portal de Brasília, de autoria de um suposto grupo terrorista de ativistas da natureza, anunciando ações terroristas contra o governo Bolsonaro.

Não se tenha dúvidas de que as sementes que começaram a ser plantadas no início do governo Temer, para abrir espaço para uma intervenção militar, continuam sendo fartamente regadas. Não há nenhum álibi mais efetivo do que ameaças terroristas.

O polianismo

Tem-se o primeiro caso da história republicana, de governo religioso, com todos os riscos já conhecidos nesse embricamento  do fundamentalismo religioso com o Estado. Há ameaças de formação de um estado policialesco. O futuro presidente cria problemas diplomáticos graves por motivos religiosos e ameaça liquidar com os inimigos. O clima de macartismo espalha-se por todo o país.

Mas, para o diáfano Ministro Luís Roberto Barroso, do STF, todos esses sintomas constituem “a nova ordem que procura nascer e reflete a imensa demanda que se desenvolveu na sociedade brasileira por integridade, idealismo e patriotismo. Estamos procurando mudar paradigmas inaceitáveis e empurrar a história na direção certa”. 

Afinal, como diz o Ministro Ernesto Ataujo, das Relações Exteriores, amigo de fé e de esperança. "“No Brasil (pelo menos), o nacionalismo tornou-se o veículo da fé, a fé tornou-se a catalisadora do nacionalismo, e ambos desencadearam uma estimulante onda de liberdade e de novas possibilidades. Deus está de volta, e a nação está de volta: uma nação com Deus; Deus através da nação." 

Peça 4 - os próximos passos

Os episódios recentes reforçam o cenário dos últimos Xadrezes.

1. O poder de fato está com o general Augusto Heleno, que tem ascendência sobre Bolsonaro e família, e sobre o eixo militar do governo.

2. A família Bolsonaro continuará ativista do fundamentalismo religioso do governo. E será cada vez mais fator de turbulências. Nem o episódio do motorista ajudou a refrear a ânsia de protagonismo da família. A eventual queda de Bolsonaro significaria a ascensão do general Hamilton Mourão. Por isso mesmo, a hipótese mais provável será, no próximo escândalo de vulto, o afastamento dos filhos do centro de poder. Sem os filhos, Bolsonaro se tornaria apenas a imagem do seu governo.

3. Também aumentarão os embates entre o núcleo Bolsonaro - liderado por Augusto Heleno - e o vice-presidente Mourão, que é um verborrágico incontrolável. Até agora Mourão não desceu do palanque do clube militar.

Um desenho mais claro do governo se terá a partir dos próximos dias, quando forem anunciadas as metas de cada ministério. Aí será possível avaliar a compatibilidade entre o plano de infraestrutura - aparentemente bem desenhado - e as limitações das políticas restritivas a serem implementadas por Paulo Guedes.

Quanto ao estado policial, se implantará sem lançamento oficial. Será gradativo, com cada medida sendo naturalizada pela opinião pública, minimizada pelo Supremo, como, aliás, têm sido a regra desde a campanha do impeachment.

Luís Nassif
No GGN
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Especial Marielle Franco - TVT


Um dos nomes que mais repercutiram em 2018 foi o de Marielle Franco. A vereadora carioca executada em março levantava bandeiras que incluíam as temáticas de gênero, racial e direitos LGBT. Uma voz importante surgida nas favelas do rio e que revelou ao mundo como o Brasil é um lugar perigoso para defensores de direitos humanos.



Em um ano e três meses, Marielle Franco conseguiu romper barreiras, desenvolver políticas inclusivas e aprovar projetos importantes para atendimento da população carente da cidade. Confira no segundo capítulo da série especial sobre a vereadora.



No terceiro episódio da série especial sobre Marielle Franco, o caminho das investigações da execução da vereadora e seu motorista Anderson Gomes. Mais de dez meses após o assassinato ainda não há respostas para o crime. A anistia internacional no Brasil acompanha o caso desde o dia 14 de março, data do crime.



Após sua morte, Marielle Franco se tornou um símbolo que ganhou o mundo, inspirando outras mulheres a se engajarem politicamente. No último episódio da nossa série sobre a vereadora, conheça o legado de luta que ela deixou.

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Um governo de pichadores de paredes vem aí

É a cultura do “nuisance”. Incomodar. Encher o saco, na linguagem popular. É isso que os protagonistas da “nova ordem” aprenderam a fazer desde 2013, contando com os olhares condescendentes e, quiçá até, simpáticos da mídia e de carreiras de estado. Uns meninos travessos com pais que sempre lhes passaram a mão na cabeça. O tipo do pichador de paredes sem arte. Uma contracultura sem ser cultura. Gostam de chocar, causar comoção e sobretudo criar confusão. Têm verdadeiro orgasmo quando submetidos a críticas irritadas dos incomodados. Isso pode funcionar – e funcionou – como forma de promover oposição inconsequente e predatória a um governo de que parte do establishment queria se livrar.

Mas funciona para governar? E governar com esse establishment que ficou lhes lançando piscadinhas cândidas durante a derrocada do governo democrático de Dilma Rousseff? Com certeza não. As trapalhadas infantis de Eduardo Bolsonaro em suas andanças norte-americanas e em seus palpites sobre política externa mostram um total despreparo dessa turma para as graves funções de governo.

Governar não é fazer da guerra uma rotina. A guerra, hoje, só é legítima na defesa daquilo que é fundamental e inafastável, quando o núcleo de valores é atacado de modo a colocar em risco a própria sobrevivência de quem o adote. O uso da força é “ultima ratio” e não começo de conversa. Só se guerreia quando há perspectiva de perda, eis que, para conquistar, é melhor a tratativa política. Quem governa não cria conflito de graça, porque além de exigir energia na briga, a exige também para terminá-la. E energia não se joga fora, principalmente quando pode fazer falta para outras ações de governo mais produtivas.

Governar pressupõe um ambiente de paz, em que se podem construir consensos parciais. Exige transigência e capacidade de ouvir mesmo o que não se gosta de ouvir. Não se fere adversários por esporte, porque é melhor tê-los dispostos para negociar quando preciso for. A violência não leva a nada, a não ser ao travamento do diálogo, que deve ser permanente, para dentro e para fora da sociedade doméstica.

Governar exige compostura. Quem ganha tem o dever de ser generoso com o vencido se quiser que sua vitória seja sustentável. Adversário nem sempre é inimigo, sobretudo quando estão em jogo interesses comuns. É preciso sobretudo lembrar sempre que o mundo é redondo e gira. Para quem tem a prática da violência como modo de governar, isso é perigoso, pois sempre haverá o dia da caça e o dia do caçador. É a velha e batida quarta lei de Newton: a toda a ação corresponde uma reação de mesma intensidade, em sentido contrário.

Por isso tudo, o presidente eleito faria muito bem em se comportar como tal e, na qualidade de pater familias, mandar seus rebentos cretinos calarem a boca. A marola que esse trio de Katzenjammer-Kids provoca trabalha contra a sustentabilidade de seu mandato. Se não houver esse corretivo, a perspectiva é que aquilo que se chamará de “governo” Bolsonaro será extremamente breve. Não por ação da esquerda. Mas por causa das paredes, pois não haverá delas o suficiente para tanta pichação ignorante.

Eugênio Aragão, ex-ministro de Justiça
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Prisão de herói do Bope confirma: atrás de todo grande traficante, tem um homem de farda

Tenente Farias e cocaína apreendida
Um dos heróis da Polícia Militar do Acre foi preso sob acusação de trabalhar para o Comando Vermelho, na proteção à distribuição de droga.

É o tenente Josemar Barbosa de Farias, o segundo na hierarquia do Batalhão de Operações Especiais, o Bope. É uma versão acreana do “Capitão Nascimento”, o da fictícia Tropa de Elite.

Era frequente a presença dele em programas de televisão, para ser entrevistado sobre prisões e apreensões de droga.

Era o “homem da lei”, “policial exemplar”, garantidor da ordem em Rio Branco.

O que as pessoas em geral não sabiam é que a drogada que ele apreendia e os traficantes que encarcerava ou matava eram rivais do homem que controla a venda de drogas no Estado.

Segundo reportagem de Marcos Venicios, publicada no AC 24 horas, escutas telefônicas, autorizadas pela Justiça no âmbito da Operação Sicário, mostram que ele recebia ordem do traficante Agilberto Soares de Lima, o Jiquitaia, que estaria ligado ao Comando Vermelho no controle da venda de drogas.

No despacho que autorizou a operação, os juízes Raimundo Nonato da Costa Maia, Maria Rosinete dos Reis Silva e Guilherme Aparecido do Nascimento Fraga registraram:

“De acordo com o apurado pelas autoridades, em inúmeros diálogos restou demonstrado que o Tenente Farias se utilizava do poder que a farda lhe proporcionava para usar veículos e valores pertencentes ao ‘erário’ com a finalidade de atender aos interesses do Comando Vermelho, fosse mandando viaturas para evitar ataques do Bonde dos 13 ou para auxiliar em situações cuja busca de informações interessava às atividades do Comando Vermelho.”

Em outro trecho, destacam:

“Até valores para abastecer veículos usados por outros membros do CV teriam sido arrecadados das quantias disponibilizadas pelo BOPE para abastecer as viaturas policiais.”

Farias foi preso, juntamente com o traficante, mas o caso está longe de significar algo isolado, numa região distante dos grandes centros, como Rio de Janeiro ou São Paulo.

Quando eu era repórter da Globo, um experiente policial, incomodado com a morte de um colega, que teve overdose no banheiro do Denarc (Departamento de Narcóticos) depois de cheirar uma grande quantia de cocaína apreendida, me procurou para contar sobre a ligação de policiais civis com o tráfico de drogas no Estado.

“Os policiais sabem quem são os grandes traficantes e dão proteção a eles, quando não participam diretamente do tráfico. Quando ocorre uma grande apreensão, é de quadrilha rival, tentando entrar no mercado”, disse.

Na época, inicio do primeiro mandato de Geraldo Alckmin, o delegado titular de uma das divisões do Departamento se mantinha no cargo apadrinhado por deputados estaduais.

“Ele paga uma caixinha semanal para se manter no posto. Se não pagar, é removido. Os postos mais importantes da Polícia Civil são ocupados por delegados que pagam a seus padrinhos políticos”, disse.

O informante chegou a me dar o endereço onde drogas apreendidas eram reempacotadas, com metade de seu grau de pureza.

Os policiais apreendiam pasta pura de quadrilhas rivais dos controladores do tráfico, levavam para uma casa, na Vila Carioca, em São Paulo, e ali misturavam a droga a talco, farinha de trigo, polvilho ou outra coisa mais barata.

Só depois de misturada é que a droga era apresentada. Se tivessem sido apreendidos 100 quilos, eram apresentados 100 quilos, só que num grau de pureza menor.

A pureza, entretanto, não é aferida na perícia técnica, apenas se o material apreendido estava enquadrado na relação de drogas ilícitas.

“Tem muito policial ganhando muito dinheiro”, alertou ele. “Os políticos também ganham, para manter o delegado no posto”, acrescentou.

Quando fui ao endereço fornecido por ele, estava vazio. “Eles ficam pouco tempo em cada lugar”, disse. Pouco tempo, deixei a Globo e a pauta ficou na gaveta, mas o relato dele nunca deixou de me instigar.

Hoje, quando li na página do jornalista Altino Machado a notícia do envolvimento do herói do Bope com o tráfico, lembrei da história.

O tenente Farias não é um ponto fora curva. Ele é quase uma regra, e isso explica por que o crime organizado é tão próspero no Brasil.

Não adianta encher as ruas de militares. Para combater o crime, é preciso de inteligência policial, coragem e independência.

Se se investigar de verdade, se verá que, por trás de todo traficante, tem uma viatura policial, seja militar ou civil.

Essas intervenções militares, como a que houve no Rio de Janeiro, são apenas espetáculos ou instrumentos para amedrontar pobres e pretos.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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