23 de nov de 2018

Vai tudo ficar como está?

Enquanto não forem esclarecidas as suspeitas que cercam a eleição de Jair Bolsonaro, será cedo para analisá-la.

Os sinais de que alguma coisa estranha aconteceu só aumentam. Tudo indica que houve uma interferência na eleição, centrada na manipulação de redes sociais, semelhante à que ocorreu em outros países, mudando seu rumo e ensejando a vitória de Bolsonaro.

Quem se precipita na busca de grandes explicações sociológicas tende a equivocar-se duas vezes. De um lado, pela pressa em compreender algo cuja dinâmica sequer foi ainda adequadamente descrita. De outro, e mais grave, por tratar as suspeitas de interferência como se fossem descabidas ou irrelevantes.

É possível, ainda que improvável, que, após uma investigação bem conduzida, cheguemos à conclusão de que Bolsonaro venceu limpamente a eleição. Que as evidências de jogo sujo são falsas e que o retrato mais exato do eleitorado brasileiro é esse revelado pelas urnas. Que a vitória de Bolsonaro foi "natural".

Há forças que se aliam no desejo de que essa versão prevaleça. O bolsonarismo, claro está, não admite o questionamento do processo que o levou ao poder. Com ele, a "turma do deixa disso", que defende a tese de que, depois de anos de instabilidade, é preferível fingir que não há motivos para colocar a eleição em discussão.

O Judiciário e o Ministério Público fazem parte dessa turma. Com Sérgio Moro, seu símbolo maior, no lugar de honra do governo bolsonarista, nada melhor que fazer de conta que o resultado é "justo". Não foi por falta de denúncias fundamentadas e documentadas (com detalhes de onde funcionava e quem manejava a máquina de falsificações suspeitas), que a Justiça Eleitoral preferiu se omitir.

Estão de mãos dadas com um parceiro inesperado, as gigantes mundiais de tecnologia, a começar pelo Facebook e seu satélite o WhatsApp. Junto com as outras, Google, Amazon e Twitter, nenhuma quer que seus negócios bilionários sejam analisados pela opinião pública internacional. Também para elas, melhor simular que a eleição brasileira foi "normal".

Dois anos depois da suspeitíssima vitória de Donald Trump, o sentimento progressista nos Estados Unidos mais se dá conta de que essas empresas não são aliadas na busca por uma sociedade democrática. Elas, a menos que sejam pressionadas, preferem oferecer suas plataformas a quem tem dinheiro para usá-las. Nenhum compromisso têm com a transparência.

Os democratas americanos perceberam que as guerras eleitorais mudaram de figura. Como disse recentemente Ro Khanna, um dos principais deputados da bancada da tecnologia e anteriormente um aliado incondicional das gigantes do setor: "2016 expôs o lado negro da tecnologia".

Aqui, ao que tudo indica, isso aconteceu em 2018. E, se preferirmos fazer vista grossa e jogar as evidências para debaixo do tapete, terá sido apenas o primeiro capítulo. De ora em diante, as eleições serão todas disputadas e vencidas com recurso ao lado negro.

E continuaremos a nos perguntar candidamente o que terá acontecido com o eleitorado, em especial o mais pobre e mais vulnerável à influência de manipuladores de todos os tipos, incluindo os empresários da religião. Como fazem analistas respeitáveis, atônitos com o tamanho de sua ignorância a respeito de um Brasil que julgavam conhecer.

É possível que o Brasil que imaginavam seja o real e que esse que saiu das urnas não passe de seu retrato distorcido. Que uma milionária e ilegal campanha de manipulação tenha sido desfechada nos dez dias que antecederam o primeiro turno, para mudar as opiniões de determinados segmentos, ampliando a rejeição a Fernando Haddad e ao que representava.

Com Lula fora do páreo, por ato do futuro ministro da Justiça de Bolsonaro, uma eleição que seria resolvida por margem estreita (como fora a de Dilma Rousseff, em 2104) se desequilibrou em função de trapaças. O eleitorado popular, que mal havia sido apresentado a Haddad, foi atordoado com doses maciças de falsas informações. Face ao demônio que pintaram, até Bolsonaro pareceu melhor.

Há muitas maneiras de vencer. Nos esportes, pode-se ganhar jogando limpo ou tomando anabolizantes às escondidas. No automobilismo, usando o combustível permitido ou misturando aditivos proibidos. Em um concurso, estudando à sério ou colando dos outros. Em uma eleição, fazendo o que a lei permite ou roubando.

O Brasil tem o dever de esclarecer o que ocorreu na última eleição, por razões nossas e porque somos importantes globalmente. Antes de saber o que aconteceu de verdade, é prematura a autocrítica e a lavagem de roupa suja na esquerda (por mais necessária que seja).

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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