16 de nov de 2018

“Somos todos Zaire”, um filme de guerrilha realizado contra a censura e o autoritarismo.


Antes de tudo, Somos Todos Zaire, independentemente de sua tragédia de pano de fundo, que vem a macular o que restava da inocência do mundo, é um filme de resistência, que se faz urgente, uma peça contra o atual estado de coisas no qual mergulhou o Brasil.

Não se trata de um panfleto, absolutamente. Aliás, vendo e revendo o filme nos seus 20 minutos, não seria exagero afirmar que ele é capaz de revelar o quanto os estados ditatoriais podem produzir tragédias invisíveis e muitas vezes inomináveis, sem falar das calamidades socioeconômicas.

Mais do que aqueles quatrocentos e tantos mortos vítimas da ditadura militar que maltratou o Brasil (1964-1985), o preço que se paga ainda hoje é imenso. Sim, não é exagero creditar ao Estado de Exceção que durou mais de duas décadas os mais de 60 mil assassinatos registados anualmente nestas terras, entre outras mazelas.

Fundamental, também, se faz alertar a respeito dos impactos negativos que poderiam causar numa sociedade classista e concentradora de renda, como a nossa, a afirmação da extrema-direita. Além do mais, seria um retrocesso brutal, levando-se em conta que, mesmo com alguns equívocos, os recentes governos de centro-esquerda elevaram e melhoram as condições socioeconômicos da população brasileira.

Voltando ao filme, o título, naturalmente, não deixa de ser sugestivo, para não dizer emblemático. Ainda que muitos das novas gerações não saibam ou sequer tenham ouvido falar no Zaire, atual República do Congo, na África Central, tal país ganhou as manchetes nos anos 1960 e 1970. E isso se deu, entre outras coisas, por conta da excentricidade do ditador Joseph-Desiré Mobutu (1930-1997), conhecido por usar um barrete de pele de leopardo e uma bengala.

Apoiado por boa parte dos países ocidentais, o que o ajudou a se manter no poder de 1965 a 1997, quando fugiu do Congo, ostentando a condição de bilionário, em 1974 o Zaire de Mobutu disputou a Copa do Mundo, na então Alemanha Ocidental. Jornalista e apaixonado por esportes, tanto que promoveu naquele mesmo ano a luta de boxe do século entre Mohammad Ali e George Foreman, disputada em Kinshasa, o ditador prometeu aos seus jogadores mundos e fundos caso eles se destacassem na competição.

No entanto, depois da classificação heroica nas eliminatórias – até então, a última equipe africana a disputar uma Copa do Mundo havia sido o Egito, em 1934 –, o Zaire decepcionou e perdeu para a Escócia por 2 a 0 e, depois, foi goleado pela então Iugoslávia por inacreditáveis 9 a 0. Mobutu não aceitou a derrota e, naturalmente, ameaçou os seus jogadores caso eles perdessem por mais de três gols de diferença para o blasonado Brasil.

Por sua vez, o Brasil de Zagallo e Rivelino fazia até então uma campanha acanhada, vindo de empates em 0 a 0 contra Iugoslávia e Escócia, e precisava vencer o Zaire por no mínimo três gols de diferença para se classificar. Caso o escrete canarinho caísse na primeira fase, seria um desastre para a ditadura, que soube muito bem capitalizar o tricampeonato da Seleção Brasileira no México, em 1970.

O filme “Somos Todos Zaire” se passa no dia 22 de junho de 1974, justamente na manhã que antecede ao jogo e durante o início da tarde, quando o embate acontece. As cenas principais se dão em um bordel decadente frequentado por militares de alta patente, os quais são saudosistas de Médici, que naquele ano passou o bastão para Geisel; a outra cena, um plano sequência de mais de dez minutos, se passa na sala de um apartamento no qual mãe dialoga com o filho a respeito do sumiço do marido, um professor universitário, obra da ditadura militar.

Com cenografia e figurinos de época, realçados por uma luz apurada, o filme é pontuado em grande parte pela narração do jogo, primeiro no rádio, quando o locutor situa o tempo histórico e exalta a ditadura. Depois, no bordel, com a narração da partida na TV como pano de fundo, sente-se o peso da ditadura, demonstrado na fala das prostitutas e, também, numa foto de Médici, entre outras referências daquele período brutal.

Por fim, é na sala do apartamento, na conversa entre mãe e filho, que se encontraram as chaves para a compreensão de um tempo histórico marcado por tragédias visíveis e invisíveis. Porque, como revela o filme na sua sutileza que beira a perversão, os estados ditatoriais são capazes de gerar feridas difíceis de cicatrizar, algo talvez simbolicamente ainda mais violento e indesejado do que o estupro de uma inteira nação.

Raul Moreira, cineasta

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