26 de nov de 2018

Revista inglesa afirma que saída dos médicos cubanos pode impactar negativamente na saúde do Brasil

Como deputados Jair e Eduardo Bolsonaro apresentaram projeto para acabar com o Programa Mais Médicos.
Também apresentaram uma emenda para tentar impedir que familiares de médicos cubanos trabalhassem no
Brasil. Cinicamente, hoje, Jair Bolsonaro oferece ''asilo'' a médicos cubanos.
Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
As entidades médicas brasileiras passaram os últimos 5 anos e 4 meses desqualificando o Programa Mais Médicos, em especial os profissionais cubanos.

A Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), por exemplo, bateram na tecla de que não faltavam médicos no País. O que havia era má-distribuição.

Porém, a participação dos cubanos no programa comprovou: há má-distribuição, sim, mas também número insuficiente de médicos.

De tabela, deixou nuas as corporações médicas, historicamente conservadoras.

Escancarou que a saúde pública dos brasileiros e o Sistema Único de Saúde (SUS) não são as reais preocupações delas. Ao contrário.

Na verdade, priorizam a defesa dos interesses da medicina privada e da reserva de mercado em detrimento do SUS.

Com o anúncio da saída dos médicos cubanos não foi diferente.

No momento em que milhões de brasileiros estavam aflitos com perspectiva voltarem a ficar sem médico, dirigentes das entidades, rachadas, basicamente tinham atenção para o próprio umbigo.

Ou seja, a disputa — com direito a golpes abaixo da cintura — pelo cargo de ministro da saúde de Jair Bolsonaro (PSL).

Enquanto seguiam atirando nos cubanos,  The Lancet fez uma reportagem sobre a saída deles do Brasil, mostrando que pode impactar negativamente na saúde do Brasil.

Editada no Reino Unido e fundada em 1823, a Lancet é uma das mais prestigiadas revistas médicas do mundo.

A matéria, assinada por Lise Alves, está na edição publicada nesse sábado, 24 de novembro.

Seguem a tradução em português e o texto original, em inglês.

A SAÍDA DOS MÉDICOS CUBANOS PODE IMPACTAR A SAÚDE DO BRASIL

A decisão de Jair Bolsonaro de proibir os médicos cubanos de praticar no Brasil, a menos que condições estritas sejam atendidas, pode afetar negativamente as comunidades remotas. Lise Alves relata de São Paulo

Milhões de brasileiros, a maioria dos quais vive em áreas remotas e vulneráveis, podem ficar sem assistência médica, disseram especialistas em saúde, após autoridades cubanas anunciarem que o país está retirando seus médicos do Programa Mais Médicos do Brasil.

A decisão foi tomada depois que o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, declarou que os médicos cubanos só poderiam permanecer no programa se fizessem um exame para validar suas credenciais médicas, começassem a receber salários completos pagos pelo governo brasileiro e permissão para trazer suas famílias para o Brasil.

“É uma catástrofe. Esta retirada dos médicos cubanos impactará negativamente o sistema público de saúde, aumentando as demandas por atendimento nas redes de média e alta complexidade e agravando as desigualdades regionais ”, afirmou Renata Anderson, doutora em gestão socioambiental e saúde da Fundação Getúlio Vargas.

Para Anderson, será muito difícil substituir esses médicos nos municípios mais remotos do norte do Brasil. “Não temos outro [programa de saúde] para levar médicos a esses lugares remotos, exceto o Mais Médicos ”, disse ela.

A participação cubana no Programa Mais Médicos foi criada em 2013 por meio de uma parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

“Durante esses 5 anos de trabalho, cerca de 20 mil funcionários cubanos ofereceram atendimento médico a 113.335.000 pacientes em mais de 3.600 municípios e conseguiram atender a um universo de até 60 milhões de brasileiros”, disse comunicado do Ministério da Saúde de Cuba, divulgado em 14 de novembro.

Segundo a OPAS, há 8.500 médicos cubanos atuando na Estratégia Saúde da Família e na Estratégia de Saúde Indígena. Esses médicos prestam serviços básicos de saúde para cerca de 8 milhões de famílias brasileiras, que compõem quase 30 milhões de pessoas.

Esses médicos cubanos estão distribuídos em 2.800 municípios, sendo que são os únicos provedores de assistência médica em mais de 1.500 municípios. Esses municípios são geralmente pequenos (menos de 20 mil habitantes) e estão em locais vulneráveis e remotos, com baixo índice de desenvolvimento humano, como a região Amazônica e o semiárido nordestino.

A situação, segundo a OPAS, é ainda mais grave nas indígenas comunidades, já que 300 médicos cubanos prestam cuidados básicos a 75% da população indígena do Brasil.

“As consequências da saída dos médicos cubanos possivelmente aprofundarão a crise que já atravessa a saúde da população brasileira”, afirma análise feita por Renato Tasca, médico e coordenador da Unidade Técnica de Sistemas e Serviços de Saúde da OPAS-Brasil.

Para Anderson, se os médicos substitutos não forem encontrados rapidamente, as doenças que estão sendo monitoradas, como tuberculose, dengue e malária, podem começar a se espalhar indiscriminadamente mais uma vez.

“Os médicos cubanos eram os olhos e ouvidos das comunidades menores e notificavam as autoridades estaduais e federais desses casos”, afirmou.

Os tratamentos para diabetes e pressão arterial elevada, por exemplo, custam mais ao sistema público de saúde quando são interrompidos e reiniciados.

“Os cuidados contínuos na saúde primária têm valor incrível dentro de todo o sistema de saúde”, concluiu Anderson.

O Ministério da Saúde do Brasil anunciou em 16 de novembro que estaria começando a selecionar médicos para preencher esses cargos já no final de novembro.

Dizia o comunicado do ministério:
A ação imediata será um anúncio para convocar nos próximos dias os médicos que querem ocupar as vagas que serão deixadas por profissionais cubanos.
A prioridade será dada a candidatos brasileiros com diplomas brasileiros, seguido de brasileiros com diplomas estrangeiros.
Porém, as autoridades públicas locais não são tão otimistas.

Em uma declaração conjunta, o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e a Frente Nacional de Prefeitos (FNP) afirmam que temem um “cenário desastroso” para a população em mais de 3.000 municípios, a partir de 1º de janeiro de 2019.

Essas entidades alertam o governo recém-eleito sobre os “danos iminentes e irreparáveis à saúde da população”, incluindo proporcionalmente a população que não é atendida pelo Programa Mais Médicos.

Sem assistência médica, afirmam, a população que contou com o programa buscará hospitais e clínicas de maior complexidade e mais caros para seus cuidados primários, sobrecarregando essas instituições e todo o sistema de saúde, tanto público quanto privado.

Lise Alves


Conceição Lemes
No Blog da Saúde

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