4 de nov de 2018

Relativismo – um manual de sobrevivência

Tudo tem dois lados – cada lado não necessariamente tem o mesmo peso – mas isso se ajusta a bico de pena. O relativismo e a Lei de Murici – a Lei de Imprensa de Bolsonaro.


O relativismo como forma de proteção física e intelectual para os tempos de revisionismo histórico que vêm com Bolsonaro. Uma proposta de convivência não adesista com o fascismo para os covardes… que sobreviverão.

Aqui, um estrato do texto Narrativas de Samuel Pessoa para a Folha de São Paulo de 04 de novembro de 2018 que mostra o quão o método pode ser incoerente, mas é safo.

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Leia agora o texto começando do fim para o começo. É um exercício revelador – ele mostrá a real intenção do autor. Foi escrito para ser assim mesmo – leia-se de um lado ou do outro. É a busca do ponto central da quadratura do círculo.

Já seria o suficiente para ilustrar o relativismo nele contido, mas, lendo toda a matéria, ficamos sabendo que:

“Não há simetria entre os crimes…  mas, se é fato que a ditadura torturou Dilma Rousseff, também é fato que toda a guerrilha lutou para instituir a ditadura que considerava correta”.

Falta ao texto dizer que Dilma Rousseff  – torturada – e Rubens Paiva, Wladimir Herzog e Manuel Fiel Filho – assassinados sob tortura – jamais participaram da luta armada. Mas isso, como nos ensina o “manual da redação para tempos de Murici”, é coisa que “podemos tirar, se achar melhor”.

Segue o didático texto de Pessoa e ficamos sabendo ainda que: “se é verdade que o Escola sem Partido pretende instituir práticas em sala de aula incompatíveis com a liberdade de expressão, é forçoso reconhecer que esse movimento reage a um processo de doutrinação nas disciplinas de história e geografia que constrói inúmeras narrativas factualmente erradas”.

Um detalhe: em treze anos de governos petistas, nem o PT, nem os “grupos de esquerda infiltrados na Educação”, buscaram passar uma lei que criminalizasse qualquer professor que ensinasse o contrário. Tampouco, incentivaram pais e alunos a perseguir e execrar tais professores. Detalhes inconvenientes. Um leve toque do bico de pena, e eles desaparecem.

E finalmente: “…  se é verdade que a direita defendeu a ditadura por aqui, é verdade também que partidos de esquerda defendem ditaduras na América Latina ainda hoje”.

Claro está que, neste instante, todos os governantes da América – inclusive Bolsonaro – chegaram e se mantém no poder pelo voto popular. Mas, ditaduras, se escolhem quais sejam e quais não sejam, segundo os interesses de quem pode mais e de quem quer chorar menos.

E para não deixar dúvidas, porque, hoje em dia, não é prudente deixar dúvidas de que a isenção tem lado – o lado certo – o fecho do texto:  “a dita esquerda, se quiser continuar a pertencer ao campo democrático, terá de abandonar suas narrativas mentirosas e buscar os fatos”.

Pessoa completa assim o círculo do relativismo de sobrevivência. Começa o seu artigo com grupos bolsonaristas buscando reescrever nossa história e o conclui acusando a esquerda de usar narrativas mentirosas. Razão para que seja – a esquerda – excluída do “campo democrático” que vigorará a partir de Bolsonaro. Esses são os fatos.

A democracia agradece. E Samuel Pessoa sobreviverá para contar a história.

PS: Lei de Murici: “em tempo de murici, cada um cuida de si”.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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