16 de nov de 2018

Queima de confiança


Entre a eleição e a posse, presidentes eleitos transpiram legitimidade e nadam num mar de confiança e boa vontade. Nos primeiros cem dias de governo, vivem a lua de mel com o eleitorado e com as instituições. Jair Bolsonaro está conseguindo dilapidar seu crédito de confiança com o acúmulo de erros e precipitações na fase preliminar: com decisões erráticas sobre a estrutura administrativa, com o trato negligente das relações com o Congresso e com anúncios impetuosos que geram consequências nocivas, seja para grupos econômicos ou para a população, a exemplo do atrito com os países árabes e agora com a decisão de Cuba, de sair do programa Mais Médicos em resposta às suas declarações ameaçadoras e depreciativas.

A escolha do embaixador Ernesto Araújo para chefiar o Itamaraty, um diplomata militante, portador de um discurso místico-religioso e alinhado ao trumpismo, desconcertou meio mundo e obscureceu as reações à saída de Cuba do Mais Médicos, medida que vai prejudicar milhões de brasileiros pobres nos grotões do país. Foi muita pretensão achar que Cuba, um país que nunca se curvou sequer aos Estados Unidos, ficaria engolindo humilhações de Bolsonaro para manter um programa de cooperação com o qual o Brasil ganha muito mais.

A Associação Brasileira de Municípios – AMB, a mais antiga entidade municipalista, presidida por Ary Vanazzi, divulgou carta aberta a Bolsonaro pedindo que ele tente reverter a decisão cubana, o que ele naturalmente não fará. Foi a AMB, diz a nota, que pediu socorro à ex-presidente Dilma e ao então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pois mesmo oferecendo salários maiores, não conseguiam contratar médicos para o interior. Hoje são os 8.500 cubanos que atuam nos “burgos podres”, como dizia Tancredo, cidades com menos de 20 mil habitantes, viajam de canoa pelos rios amazônicos, visitam tribos indígenas e aldeias perdidas. “São lugares, senhor presidente eleito, que viram, muitas vezes pela primeira vez, um médico”.

Dados da carta: mais de 700 municípios tiveram um médico pela primeira vez graças ao programa. Em 1.100 deles, toda cobertura de saúde vem do Mais Médicos. Em 1.575, só atuam médicos cubanos, que estão presentes em 2.885 municípios, a maioria no Norte e semiárido nordestino. Todos estes postos foram recusados por médicos brasileiros. Segundo pesquisas, 95% dos brasileiros aprovam o programa. Relativamente à proposta de Bolsonaro, de que médicos estrangeiros prestem o exame Revalida para atuarem no país, a AMB lembra que isso lhes dará o direito de atuar nacionalmente. Logo, irão optar pelos grandes centros. A Frente Nacional de Prefeitos, presidida por Jonas Donizete, também protestou. Assim, Bolsonaro queimou confiança e azedou de saída sua relação com os prefeitos.

A escolha do chanceler reacendeu a luz vermelha em setores diversos, do Congresso aos exportadores. Ela foi coerente com o que Bolsonaro chamou de “momento de regeneração que o Brasil vive hoje”, se isso significar a negação de tudo o que estava em curso e a adoção do contrário absoluto. Se assim for, podem ser dinamitadas pontes construídas com anos de trabalho pela diplomacia brasileira, reconhecida como uma das melhores do mundo, pela qualidade de seus negociadores e agentes.

O que houve nos governos petistas não foi a esquerdização do Itamaraty, mas a legítima orientação da política externa para as prioridades governamentais: integração latino-americana, relações Sul-Sul e busca de novos mercados, como o do mundo árabe. Foram as cúpulas realizadas por Lula-Celso Amorim que abriram ao Brasil aquele mercado. Será também legítimo que Bolsonaro imprima sua orientação, conferindo prioridade às relações com os Estados Unidos, por exemplo, mas com profissionalismo, não com militância ideológica.

A dimensão de Araújo diante do cargo foi dada pela nota em que ele promete dirigir o Itamaraty com “amor e coragem” e proclamando que “a mão firme do presidente Bolsonaro nos guiará”. Oh, tempos!

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