29 de nov de 2018

Preenchimento das vagas do Mais Médicos vai ser igual ao que ocorreu desde 2013

Fotos: Marcelo Camargo e Elza Fiúza/Agência Brasil
Desde o começo da tarde de segunda-feira (26/11),  o portal do Ministério da Saúde informa que 97,2% das vagas do Mais Médicos já foram preenchidas:

Balanço atualizado do Ministério da Saúde aponta que 97,2% das vagas do novo Edital do Programa Mais Médicos já foram preenchidas.

Até às 12h desta segunda-feira (26/11), são 30.734 inscritos com registro (CRM) no Brasil.

Desse total, 21.407 foram efetivadas e 8.278 profissionais já estão alocados no município para atuação imediata.

Na apresentação ao município, que vai até 14 de dezembro, o médico deve entregar todos os documentos exigidos no edital. Até o momento, 223 médicos já se apresentaram nas unidades básicas de saúde.

“Com a alta procura e a apresentação imediata do médico ao município, a expectativa é de suprir a ausência do médico cubano com o médico com CRM o mais rápido possível”, afirmou o ministro da Saúde, Gilberto Occhi.

(…)

Neste edital do Mais Médicos são ofertadas 8.517 vagas para atuação em 2.824 municípios e 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), que antes eram ocupadas por médicos da cooperação com Cuba.

Arthur Chioro conhece muito bem a gigantesca expectativa que cerca o preenchimento das vagas do Programa Mais Médicos.

Médico sanitarista, professor da Unifesp, ele foi ministro da Saúde no segundo governo da presidenta Dilma Rousseff (PT), justamente o período em que aumentou o número de profissionais brasileiros buscando o Programa Mais Médicos.

Por isso, quis ouvi-lo a respeito.

Blog da Saúde — Segundo o Ministério da Saúde, já são 30.734 inscritos com CRM no Brasil. Desse total, 21.407 foram efetivados e 8.278 já estão alocados no município para atuação imediata. O que acha?

Arthur Chioro — A lógica do Programa Mais Médicos sempre foi a de oferecer primeiro as vagas para os médicos brasileiros com CRM [registro no Conselho Regional de Medicina].

Preencher todas as vagas com brasileiros era o que mais desejávamos desde a primeira etapa.

Se tivessem atendido aos chamamentos, não haveria necessidade de abrir para médicos estrangeiros.

Portanto, desejo muito que isso ocorra. O nosso povo sofrido que tanto precisa do SUS [Sistema Único de Saúde] seria muito beneficiado.

Mas, a exemplo das vezes anteriores, temo que isso não se concretize. E não tenho dúvida que a não substituição dos 8,5 mil médicos cubanos será um desastre para a saúde e a vida de milhões de brasileiros.

— Mas já há 21 mil efetivados e 8.278 alocados nos municípios de atuação.

— Está acontecendo a mesmíssima coisa que ocorreu em todas as etapas até aqui, desde 2013.

Os médicos brasileiros correm para fazer as inscrições. Depois, muitos sequer vão conhecer a unidade de saúde e se apresentar para o gestor municipal.

Quando vão, querem saber — e não são poucos — se têm que cumprir horário, ir todos os dias, entre outras demandas. Infelizmente, a maior parte não fica. Poucos começam mesmo a trabalhar.

— Qual a diferença entre efetivados e alocados?

— Vamos simplificar. Uma coisa é a etapa de escolha. Outra, bem diferente, é a adesão do médico ao programa, o que só ocorre quando ele se apresenta, passa a trabalhar e a compor a equipe de Saúde da Família para valer.

Tenho visto gente desavisada fazendo festa, como se “agora sim” os médicos resolveram aderir.

Soube por gestores municipais que vagas ofertadas foram preenchidas no sistema do Ministério da Saúde por médicos estatutários que já estão trabalhando nas prefeituras ou contratados por OSS  [Organização Social de Saúde].

Ou seja: não assumirão o posto do Mais Médicos ou, se o fizerem, deixarão a sua equipe descoberta, sem médico.

— O que significa alocados nos municípios de atuação?

— Significa apenas que o médico inscrito escolheu o município em que ele pretende atuar. Médico alocado não significa, portanto, médico já trabalhando.

— Várias faculdades estão antecipando a data de formatura para que os formandos possam participar do programa.

— De fato, há esse fenômeno novo. Tenho também a informação de que vários conselhos regionais de Medicina (CRM) estão fazendo mutirões para conceder o CRM para recém-formados.

O Cremesp [Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo] anunciou hoje [quarta-feira,28/11] que emitiu em 24 horas mais de 850 inscrições de novos médicos com esse objetivo.

Aqui, tem um detalhe importante. Os recém-formados pretendem fazer residência médica. E as provas para a residência ainda estão acontecendo.

E aí um problema: em fevereiro, começam as atividades das residências médicas. E aqueles que forem aprovados tendem a abandonar o Mais Médicos.

— Então as vagas dos Mais Médicos poderão ser preenchidas fundamentalmente por recém-formados?

— Para as que forem preenchidas, porque continuo insistindo que muitas não serão efetivamente ocupadas, deve-se considerar essa possibilidade, sim.

Até porque após o golpe, o governo federal deixou de cumprir as metas do Programa Mais Médicos que previam a universalização da residência médica, com abertura de vagas em Medicina de Família e Comunidade, entre outras especialidades.

Diferentemente dos médicos cubanos, que tinham, pelo menos, dez anos de formados, residência em saúde da família e mais especialização.

— O fato de serem recém-formados pode comprometer a qualidade de assistência que prestarão?

— Veja bem, eles ainda estão em formação e são mais inseguros, encaminham mais pacientes para especialistas, pedem mais exames, internam mais…

E é por isso que precisam e se beneficiam muito da residência médica. E respondendo a tua pergunta: isso pode comprometer muito a qualidade da atenção básica prestada aos brasileiros.

— O senhor está jogando água no chopp dos bolsonaristas que estão comemorando o número de inscrições no Mais Médicos?

— Sinceramente, torço para estar errado, pois, como já disse, o desmonte irresponsável do Programa Mais Médicos vai custar muito para milhões de brasileiros que dependem do SUS.

Mas quem estuda e acompanha o programa e a atenção básica sabe que a gente, enquanto gestor, não pode se deixar levar pelo clima de “arquibancada de estádio de futebol” que tomou conta do Brasil a questão do Mais Médicos.

— Como clima de arquibancada de estádio de futebol?

— Tenho visto bolsominions comemorando as inscrições como se o Palmeiras [Chioro é santista!] já tivesse ganho o campeonato mundial.

Como se os médicos tivessem despertado um sentimento cívico até então congelado.

Infelizmente, logo verão que é dócil ilusão.

— Os dirigentes do Ministério da Saúde sabem disso tudo?

— Com certeza, mas falam euforicamente, fazem anúncios empolgados, como se um mar de rosas estivesse à frente.

Lamentável. Não é justo fazerem proselitismo com a vida e a saúde das pessoas. Não temos o direito de brincar com algo tão sério.

Conceição Lemes
No Blog da Saúde

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