11 de nov de 2018

Paulo Guedes, do pinochetismo ao bolsonarismo


A ditadura de Augusto Pinochet estava a todo vapor, e a universidade vivia sob intervenção militar. Economistas de Chicago haviam sido convidados pelo regime a implementar uma política econômica liberal, baseada nos fundamentos da economia de mercado defendidos por Milton Friedman. Chamados de ‘Chicago boys’, eles se instalaram na universidade e se revezaram em cargos no governo. O convite a Guedes partiu de um deles, Jorge Selume, então diretor da Faculdade de Economia e Negócios e diretor de Orçamento de Pinochet”.

Essa passagem da vida do Paulo Guedes é retratada na reportagem da repórter Malu Gaspar na edição 144 da Revista Piauí.

A retórica atual do banqueiro indica que ele continua pensando da mesma maneira que pensava quando serviu intelectualmente a uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina trabalhando na produção e implantação do programa econômico ultraliberal de Pinochet.

O pinochetismo [1973/1990], vale lembrar, legou ao Chile contemporâneo a maior taxa mundial de suicídios de idosos; fenômeno que é consequência direta das fórmulas macabras dos economistas da mesma escola do Guedes, que acabaram com a previdência pública e privatizaram radicalmente o sistema de aposentadorias e de seguridade social chileno.

Além de czar da economia, Guedes recebeu de Bolsonaro superpoderes. Ele terá atribuições para decidir sobre os fatores que embasam um pacto societário civilizado e democrático, como a previdência pública, os direitos do mundo do trabalho, a solidariedade e proteção social, a repartição e distribuição de renda, e o desenvolvimento soberano do país.

Guedes anunciou medidas drásticas, até mais profundas que as implementadas no Chile. Ele promete reduzir direitos de cidadania e aprofundar a reforma trabalhista; destruir bens comuns e públicos como a previdência social, o SUS, o ensino e a Universidade pública, para introduzir dispositivos de mercantilização e monetização das políticas sociais de Estado.

Guedes defendeu um programa selvagem de privatizações, a abertura indiscriminada da economia com desproteção da produção nacional, o abandono do MERCOSUL e o isolamento geopolítico e econômico que causará mais desindustrialização, piora da participação do Brasil no comércio mundial e perda de divisas.

A reportagem da Malu Gaspar faz ver, ainda, que Guedes tem mais identidade que diferença com a visão de mundo autoritária e reducionista do Bolsonaro. Os traços comuns entre os 2 são perceptíveis na evocação de Guedes de valores como ordem, autoridade, normatividade comportamental, poder, intolerância ideológica:

– “Eu posso entender quando Bolsonaro diz que a esquerda está deformando a qualidade do ensino. Ensinar uma ideologia obsoleta, destruidora de riqueza, desagregadora socialmente para uma criança é uma mutilação.

– Foi aí, nos valores, que eu comecei a entender quem era o cara. Não existe mais lei, não existe mais ordem. O Brasil virou uma zorra. O político rouba e não acontece nada. O black bloc rouba e não acontece nada. O MST quebra sua casa com um trator, faz o que quer, e não acontece nada. Nenhum político fala isso. São covardes. Têm medo do MST.

– Se morasse no campo e tivesse um pessoal querendo invadir minha casa, eu queria ter uma metralhadora.

–  Mataram a moça aí, e ficam ‘Marielle, Marielle, Marielle!’ Quando morre uma pessoa e fica todo mundo falando, eu suspeito. Não sou idiota. […] eu suspeito que tem algo por trás, que querem fazer alguma coisa com a morte dela.

– Eu sabia que tinha uma ditadura, mas para mim isso era irrelevante do ponto de vista intelectual.

– Eu comecei a ver que a política é uma ferramenta suja nas mãos dos menos aptos”.

O programa ultraliberal do Paulo Guedes se inspira no experimento ultraliberal executado no Chile sob o terror da ditadura pinochetista apoiada pelos EUA.

É um programa devastador, que desconstrói o ideal de nação e de Estado brasileiro. Se aplicado, trará consequências estruturais e trágicas que comprometem o futuro do Brasil, assim como da atual e das próximas gerações de brasileiros e brasileiras.

Jeferson Miola

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