13 de nov de 2018

O que revelam as eleições dos EUA sobre o conflito interno

As eleições dos EUA a meio-mandato foram interpretadas pelos grandes média em função da clivagem partidária Republicanos/Democratas. No entanto, prosseguindo a sua análise da evolução profunda do tecido social, Thierry Meyssan vê nelas o nítido recuo dos Puritanos face aos Luteranos e aos Católicos. O realinhamento político de Donald Trump está em vias de ser bem sucedido como, antes dele, foi o de Richard Nixon.

O Partido Republicano perdeu a Câmara dos Representantes, mas Donald Trump impôs as suas ideias.
Durante as eleições intercalares dos EUA, os eleitores foram chamados a pronunciar-se para renovar, em bloco, a totalidade de membros da Câmara dos Representantes federal e um terço dos membros do Senado federal. Além disso, a nível local, eles votaram para 36 Governadores, providos de muitas outras funções locais, e responderam a 55 referendos.

Estas eleições são consideradas muito menos mobilizadoras do que as presidenciais. Os politólogos dos EUA não se interessam muito pela taxa de participação, na medida em que é possível participar apenas em algumas dessas eleições agrupadas e não em outras.

Enquanto, desde o fim da Guerra Fria, a taxa de participação na eleição presidencial se situa entre 51 e 61% (com a excepção do voto para o segundo mandato de Bill Clinton, que não reuniu mais do que uma minoria de eleitores), a das eleições intercalares é da ordem de 36 a 41% ( à excepção da de 2018 que teria atingido 49%). Assim, do ponto de vista da participação cidadã, se as regras do jogo são democráticas, a prática não é o de forma nenhuma. Se houvesse um quórum [1], raros seriam os membros do Congresso a ser eleitos. Os Representantes e Senadores são habitualmente escolhidos apenas por menos de 20% da população.

Aqueles que analisam os resultados das eleições, tendo em vista prever as carreiras dos candidatos, salientam as clivagens partidárias. Desta vez, a Câmara dos Representantes será maioritariamente Democrata e o Senado de maioria Republicana. Esta contagem permite, por exemplo, antecipar a margem de manobra do Presidente em relação ao Congresso. No entanto, na minha opinião, não permite de nenhum modo compreender a evolução da sociedade norte-americana.

Durante a campanha presidencial de 2016, um ex-democrata, Donald Trump, apresentou-se à candidatura do Partido Republicano. Representava uma corrente política ausente da paisagem dos EUA desde a demissão de Richard Nixon: os “jacksonianos”. A priori, não tinha nenhuma chance de obter a investidura Republicana. Ora, ele eliminou, um por um, os seus 17 concorrentes, foi investido e ganhou a eleição face à preferida das sondagens, Hillary Clinton.

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Andrew Jackson, cuja efígie figura nas notas de 20 dólares, é o mais 
controverso dos Presidentes dos Estados Unidos.

Os “jacksonianos” (do nome do Presidente Andew Jackson, 1829-1837) são defensores da democracia popular e das liberdades individuais, tanto face ao poder político como ao económico. Pelo contrário, a ideologia então dominante, tanto no Partido Democrata como no Partido Republicano, era a dos Puritanos: ordem moral e imperialismo.

Durante esta campanha, eu havia observado que a subida de importância de Donald Trump marcava a ressurgência de um conflito fundamental: de um lado, os sucessores dos «Pais Peregrinos» (do original “Pilgrim Fathers”- ndT) (os Puritanos que fundaram as colónias britânicas das Américas), e do outro, os sucessores dos imigrantes que se bateram pela independência do país [2].

A primeira componente histórica dos Estados Unidos (os Puritanos) entendia criar colónias com um estilo de vida «puro» (no sentido calvinista do termo) e prosseguir a política externa da Inglaterra. A segunda (os Anglicanos, os Luteranos e os Católicos) fugia da miséria, de que era vítima na Europa, e esperava triunfar pelo resultado do seu trabalho.

Estes dois grupos tinham encontrado um consenso em torno da sua Constituição. Os grandes proprietários fundiários que elaboraram a lei fundamental explicaram, longamente, querer reproduzir o sistema político da monarquia inglesa, mas sem criar aristocracia [3]. Enquanto os segundos, que acrescentaram o Bill of Rights (as 10 primeiras Emendas da Constituição), queriam prosseguir o seu «sonho americano» sem correr o risco de serem esmagados por uma qualquer «Razão de Estado».

No decurso dos últimos anos, os partidos Democrata e Republicano evoluíram para se tornarem os porta-vozes do pensamento puritano, defendendo a Ordem Moral e o Imperialismo. Os Bush são descendentes directos dos «Pais Peregrinos». Barack Obama compôs o seu primeiro gabinete apoiando-se, maciçamente, em membros da Pilgrim’s Society (o clube transatlântico presidido pela Rainha Elizabeth II). Hillary Clinton foi apoiada a 73% por «Judaico-Cristãos» [4] etc. Pelo contrário, Donald Trump representava, sozinho, a outra componente da história política dos EUA. Ele conseguiu em alguns meses tomar o contrôlo do Partido Republicano e levá-lo, pelo menos na aparência, a tomar as suas convicções.

No momento actual, cerca de um terço dos Norte-americanos polarizou-se violentamente entre os pró e os anti-Trump, enquanto os outros dois terços, muito mais moderados, mantêm-se à distância. Muitos observadores consideram que o país está agora tão dividido como o esteve na década de 1850, precisamente antes da guerra civil, dita «guerra da secessão». Contrariamente ao mito, o conflito não opunha um Sul esclavagista a um Norte abolicionista, uma vez que ambos os campos praticavam a escravatura (escravidão-br).

Na realidade, tinha a ver com a política económica e opunha um Sul agrícola e católico a um Norte industrial e protestante. No decorrer desta guerra, os dois campos tentaram recrutar os escravos para os seus exércitos. O Norte conseguiu libertá-los rapidamente, enquanto o Sul esperou, para tal, pelo selar da sua aliança com Londres. Historiadores mostraram que, de um ponto de vista cultural, este conflito prolongava nos Estados Unidos a guerra civil inglesa, dita a «Grande Rebelião» (que opôs Lord Cromwell e Carlos I). No entanto, ao contrário da Inglaterra, onde os puritanos acabaram por perder, quem venceu nos EUA foram os seus descendentes .

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Os métodos de malandro de Richard Nixon fizeram, infelizmente, 
esquecer as suas realizações políticas.

Foi este conflito que ameaçou ressurgir sob Richard Nixon e que se espalha hoje em dia às claras. Não é, aliás, indiferente que o melhor historiador sobre este assunto [5] seja Kevin Phillips, o antigo estratega eleitoral que ajudou Nixon a conquistar a Casa Branca. Nixon reabilitou os eleitores do Sul, reconheceu a China Popular e pôs fim à guerra do Vietname (iniciada pelos Democratas). Ele entrou em conflito com o “establishment” de Washington que o forçou à demissão (escândalo do Watergate).

Pode-se, é claro, ler os resultados das eleições intercalares de 2018 segundo a clivagem Republicanos / Democratas e concluir por um ligeiro êxito do Partido Democrata. Mas deve-se, sobretudo, lê-los segundo a clivagem Luteranos / Calvinistas.

Neste caso, deve-se observar que não só o Presidente Trump participou intensivamente nesta campanha, como igualmente o seu antecessor Obama. O objectivo era, quer apoiar o realinhamento cultural operado por Donald Trump, quer ganhar a maioria do Congresso afim de o destituir, fosse sob que pretexto fosse. O resultado é claro: o “impeachment” é impossível e Donald Trump dispõe do apoio de uma maioria de Governadores tornando a sua reeleição possível.

Os novos eleitos Democratas são jovens, partidários de Bernie Sanders, muito hostis ao “establisment” do seu Partido, nomeadamente a Hillary Clinton. Mas, acima de tudo, entre os candidatos Republicanos, TODOS aqueles que o Presidente Trump foi apoiar no terreno foram eleitos. Aqueles que recusaram a sua ajuda foram batidos.

Os perdedores destas eleições — no primeiro nível dos quais estão a imprensa e Barack Obama — não falharam porque são Republicanos ou Democratas, mas, sim porque são Puritanos. Contrariamente aos comentários dos média (mídia-br) dominantes, deve-se constatar que os Estados Unidos já não estão em vias de se auto-destruir, mas, antes de se reformar. Se esse processo continuar, os média terão que abandonar a sua retórica de ordem moral, e o país deverá regressar duradouramente a uma política de hegemonia, mas não mais imperialista. Em última análise, os Estados Unidos poderão recuperar o seu consenso constitucional.

[1] O quorum é o número mínimo de participantes exigido para que uma eleição seja válida. Aqueles países que têm um, para as eleições por sufrágio universal, fixam-no geralmente pela metade do universo eleitoral.

[2] “Os Estados Unidos vão reformar-se, ou dilacerar-se?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Outubro de 2016.

[3] How Democratic Is the American Constitution ?, Robert A. Dahl, Yale University Press, 2002.

[4] Por «judaico-cristãos», entendo as pessoas que baseiam a sua vida, ao mesmo tempo, na fé das escrituras judaicas (Antigo Testamento) e nas escrituras cristãs (Novo Testamento) sem levar em conta as contradições existentes entre elas.

[5] The Cousins’ Wars, Kevin Philipps, Basic Books, 1999

Thierry Meyssan, Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

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