24 de nov de 2018

O que falta para negros aderirem ao black money?

A população negra consome R$1,7 trilhão por ano e precisa ver o retorno desse dinheiro.


Quando a gente liga a TV, nem parece que 54% do Brasil é negro. Mesmo que a pesquisa do Instituto Locomotiva mostre que negros movimentam R$1,7 trilhão ao ano, somente 2,1% dos filmes de 2016 foram dirigidos ou roteirizados por homens negros segundo a Ancine - nenhuma produção foi dirigida ou roteirizada por uma mulher negra. Esse mesmo movimento se repete em outros setores, fazendo com que o dinheiro não retorne para esses 54% da população. Existe um vácuo.

“Se 54% da população aqui é preta, por que não temos mais pretos em cargos de chefia ou na mídia? Isso se dá pela construção do negro na sociedade brasileira que precisa se encaixar em um sistema branco. Os negros ainda estão no lugar de que precisam de um branco para se dar bem na vida. Mas, se esses 54% se organizarem, a gente se levanta muito mais rápido. O dinheiro é mal gasto e não vem pra gente. Falta a consciência de comprar com os nossos”, me disse o ator Angolano Licínio Januário, que integra a equipe da “Tela Preta” - uma TV com equipe negra que foi lançada no último dia 20.

A TV é uma construção coletiva de profissionais de audiovisual negros que buscam novas narrativas de protagonismo preto tendo como base a filosofia Black Money. “A ideia é que quem não se sinta representado quando liga a televisão, vá assistir ao nosso canal. Estamos colocando em prática um movimento que é muito maior que a gente. Queremos preparar o terreno para a próxima geração.”

Veja o teaser da TV Preta



A ideia da filosofia Black Money é criar uma forma de consumo consciente para que negros consumam de afroempreendedores (desde roupas até atendimento médico), assistam a produções negras e empreguem profissionais negros. A ideia é fazer o dinheiro circular entre os negros.

“Não é algo segregatório. É uma lógica de consumo interno praticada por judeus, orientais e até em algumas comunidades periféricas onde só não se dá o mesmo nome. É uma forma de prestigiar os seus. Aqui nós vivemos o mito da democracia racial, os norte-americanos viveram segregação oficializada pelo estado. O que fez com que eles buscassem alternativas e se organizassem. Aqui o banco finge que me aceita mas me trava na porta. A relação econômica também é uma forma de poder e cria uma rede de proteção. A população negra consome muito, mas consome errado”, argumenta o sociólogo e produtor cultural carioca Rodrigo França. Os teatros do centro do Rio de Janeiro tiveram cinco espetáculos negros em cartaz ao mesmo tempo, no meio deste ano, com plateia lotada e 85% de público negro.

Dados do Sebrae apontam que mais da metade dos empreendedores do Brasil são negros - desses a maior parte são mulheres - e já trata os afroempreendedores como uma categoria específica. Algumas iniciativas se propõem a facilitar os negócios e o consumo. O aplicativo Kilombu reúne anúncios de serviços e negócios de profissionais negros. A plataforma Movimento Black Money produz conteúdo e promove cursos para afroempreendedores. Além da REAFRO, uma rede de empreendedores negros e do Instituto Feira Preta, que mapeia os afroempreendedores.

“Se a gente pensar quantos afroempreendedores existem e que são poucos os que estão em situação tranquila, veremos que é preciso um trabalho de conscientização. É algo que só vai acabar quando tirarmos dos nossos a ideia de que somos todos humanos”, concluiu Licínio Januário.

Juliana Gonçalves
No The Intercept

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