21 de nov de 2018

O PFL no poder


O nome atual é Democratas, apelido DEM, mas o partido que se torna agora sócio majoritário de Bolsonaro no poder – noves fora o PSL, por enquanto um ajuntamento – foi o velho PFL, a dissidência do PDS, partido da ditadura, que caiu fora quando o regime perdeu os dentes, juntando-se ao PMDB para eleger Tancredo. Faz todo sentido o reencontro num governo que, chefiado por um civil eleito, tem forte prevalência militar. Faz pouco sentido é um presidente que, para alcançar o quórum qualificado precisará do apoio de dez a doze partidos, levando-se em conta o tamanho médio das futuras bancadas, favorecer tanto o DEM e não tentar formar uma coalizão, em sinal de que banirá o “toma lá, dá cá”.

O futuro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, não conquistou o cargo por ser demista, mas por ter apostado na candidatura Bolsonaro quando seu partido, juntamente com os aliados do Centrão, tentavam um acordo com Ciro Gomes, antes de optarem pela coligação com o PSDB de Geraldo Alckmin. Foi por isso, tá ok, diria o chefe. Mas aí a bancada ruralista indicou a deputada Tereza Cristina para a pasta da Agricultura, e ela também é do DEM. Coincidência, diria Bolsonaro. A indicação foi da bancada do boi, não do partido.

Mas não foi a bancada sanitarista que indicou o deputado Luiz Henrique Mandetta para o cargo de ministro da Saúde. Se quisesse apenas um médico com experiência em gestão do setor, Bolsonaro teria muitas opções. Mandetta foi escolhido porque, além destes dois atributos, é do DEM, logo tem representatividade política e influência na Câmara, e porque tem elevada afinidade ideológica com o presidente eleito. Na primeira entrevista ele já caprichou ao comprar a briga de Bolsonaro com os médicos cubanos, afirmando que o acordo intermediado pela OPAS mais parece um convênio “entre Cuba e o PT”. A frase é boa para alimentar as brigadas digitais do bolsonarismo mas não resiste à realidade. Fosse um acordo com o PT, para favorecer Cuba, não teria sido mantido e renovado por Temer, que chegou a pensar no rompimento, mas logo viu que o buraco era mais embaixo. Se rompesse o acordo, ficaria com uma batata quente nas mãos, como Bolsonaro ficará agora. Vamos ver quantos médicos brasileiros vão se inscrever até domingo para os 8.500 postos oferecidos.

Assim como relevou as denúncias de caixa dois contra Lorenzoni, o presidente eleito, que fará do combate à corrupção uma das matrizes de seu governo, não se importou com as que existem contra Mandetta, e elas são até mais graves, porque envolvem fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois. “Nem é réu ainda”, minimizou.

Assim, o velho PFL, depois de um longo inverno na oposição, volta ao poder pela primeira vez depois do fim do governo FHC. Curioso também é que, por ora, Bolsonaro não se interessou pelo demista que lhe pode ser mais útil, o deputado Rodrigo Maia com sua candidatura a presidente da Câmara. Mas ele pode entrar na disputa lá na frente e apoiar Maia, e se ele for eleito, o retorno do DEM ainda será mais triunfal. Mas só com o DEM, não se faz uma coalizão, e sobre esta questão, Bolsonaro ainda não ofereceu qualquer resposta.

Toffoli irreconhecível

Em entrevista anteontem a correspondentes estrangeiros, o presidente do STF, Dias Toffoli, avançou em seu discurso cada vez mais desconcertante. Ou enigmático. Voltou a defender um pacto entre os três poderes pelas reformas, pregou o fim do protagonismo do Judiciário e não enxergou qualquer ameaça à democracia no horizonte. O impeachment discutível de Dilma e a condenação sem provas de Lula, hoje preso, para ele aconteceram sob “total respeito à Constituição e às leis”. Ele viu a eleição como festa cívica, ignorando os sinais gritantes de manipulação eleitoral por uma guerra de fake news. De duas, uma, dizem velhos amigos. Ou ele sabe de coisas que não sabemos, que tenta evitar com uma ação moderadora, ou tornou-se outro após a convivência com o general Fernando Azevedo, com quem aprendeu que 1964 não foi golpe, mas movimento.

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