10 de nov de 2018

O mistério de Marielle Franco


Por que, o assassinato de Marielle Franco ainda não foi solucionado?

Os desavisados poderão alegar não haver mistério em tamanho atraso, sendo essa a norma no Brasil, onde a maioria dos assassinatos nem ao menos é investigada. Ocorre, no entanto, que quando existe interesse na solução do crime, os assassinatos no país são investigados e esclarecidos, embora, com respeito à maioria deles, não haja interesse em esclarecê-los, havendo, frequentemente, mais empenho em ocultar os fatos e encobrir os assassinos que em apontá-los. As fortes pressões internacionais, somadas às frequentes manifestações locais, no entanto, têm garantido o esforço na solução do assassinato de Marielle, de modo que, se as investigações ainda se arrastam por tão longo tempo – já se vão quase 8 meses da execução –, é porque pressões igualmente intensas têm se manifestado em sentido contrário, dificultando a solução do crime e tentando proteger os assassinos, diligentemente poupados, até agora, dos menores contratempos.

Lembremos que, embora houvesse indícios de que Marielle tivesse sido executada por policiais – ou talvez por isso –, as testemunhas do assassinato foram sumariamente dispensadas pelos policiais que compareceram à cena do crime.

De qualquer modo, os assassinos já foram apontados pelo jornal O Globo – veja reportagem ao final desse texto –, que revelou detalhes do crime, como o preço cobrado pelos matadores e a cobrança de adicional posterior, a título de ágio, decorrente da inesperada publicidade internacional recebida pelo caso.

O que resta, de fato, descobrir, ou melhor provar, é toda a imensa rede de apoio aos assassinos, que permite que eles atuem tão desembaraçadamente quanto mostrado pela reportagem de O Globo e Extra.

Dentre as várias ações de encobrimento dos assassinos, durante esses quase 8 meses, a mais descarada tinha sido a escolha de 2 bois-de-piranha, transformados, desde então, em judas tascados pelos meios de comunicação. A ação foi desencadeada 2 dias após a revelação, pela TV Record, de que a arma utilizada no crime havia sido uma submetralhadora de tipo utilizado pelas forças especiais da polícia, e quase exclusivamente por elas, no país.

Essa ação de encobrimento dos assassinos consistiu em desencavar uma das denúncias feitas semanas antes por um policial que costumava fazer bicos dando cobertura a grupos paramilitares conhecidos como milícias. Posteriormente, agastado com seus ex-patrões, o policial acusou-os do assassinato de Marielle, com base em lembranças de uma cena presenciada um ano antes, em um restaurante, quando um dos acusados teria se referido de forma irada e chula a uma mulher ligada ao deputado Marcelo Freixo, referência interpretada como direcionada a Marielle. Ironicamente, a acusação pífia alçou seu delator à categoria de “testemunha chave” do caso!

Tal frivolidade foi suficiente para lançar o foco dos meios de comunicação sobre os 2 bois-de-piranha apontados como mandantes do crime – curiosa e sintomaticamente, os outros citados pelo delator, vários deles policiais, não tiveram seus nomes divulgados nos meios de comunicação, tendo sido poupados do assédio direcionado exclusivamente aos 2 supostos mandantes do crime.

Um dos citados, Orlando de Curicica, encontra-se encarcerado em presídio desde agosto de 2017.

Interrogado por policiais e jornalistas sobre o assassinato de Marielle, o detento – fora de ação a mais de um ano –, reproduziu a notícia de que o “Escritório do Crime” teria se encarregado da execução de Marielle, repassando as informações detalhadas veiculadas pelos jornais.

Surpreendentemente, agora, a Procuradoria Geral da República (PGR) retoma, não só a denúncia pífia do policial empregado dos criminosos, mas a do próprio condenado acusado por ele, que se encontra cumprindo pena em presídio federal desde 9 meses antes do assassinato!

Assim, dias atrás, a PGR baseou-se em “denúncias gravíssimas” sobre as investigações do crime ocorrido 9 meses após a detenção do delator – denúncias, aliás, baseadas na reportagem citada acima e reproduzida abaixo, para iniciar uma “investigação da investigação”, nas palavras do ministro da segurança pública.

Distorcida, a “denúncia gravíssima” teve seu alvo transferido pela PGR aos investigadores do crime, transformando a farsa em uma bufoneria bizarra e tresloucada.


A galhofa

O cerne da pantomima consiste em uma denúncia baseada em conversa ouvida em um restaurante. Quase um ano antes do crime, enquanto fazia um bico trabalhando para os acusados – ou melhor, dando-lhes cobertura, da maneira descrita na reportagem elucidativa do caso, reproduzida abaixo –, o delator teria ouvido uma manifestação irada de um dos acusados direcionada a uma (então) desconhecida, Marielle.

Ironicamente, a denúncia pífia foi alçada a “testemunho chave do caso”, enquanto 2 dos acusados na denúncia – uma dezena de outros citados na denúncia foram esquecidos pelos meios de comunicação – foram citados em centenas – ou talvez milhares de notícias –, como suspeitos de mandantes do crime. A ironia se sustentava na convicção de que mesmo a mais ridícula chacota levantada com o propósito de encobrir os verdadeiros assassinos seria entusiasticamente divulgada pelos meios de comunicação, garantindo-lhe ares de seriedade.

A zombaria seguia de vento em popa quando O Globo e Extra, em um deslize, permitiram-se vazar o desvendamento do assassinato, revelando o Escritório do Crime, e trazendo à luz detalhes da execução de Marielle Franco; tudo sob o mesmo espírito sarcástico que já pautava o caso.

Estranhamente, um manto de silêncio foi derramado sobre o caso, transformando o “Escritório do Crime” em uma espécie de tabu para os meios de comunicação do país, que se viram, então, impedidos de aventar qualquer referência à organização criminosa.

Demonstrando não ter perdido o humor após um ano encarcerado, e reconhecendo, ele também, o disparate da acusação que lhe era imputada, o próprio acusado – que responde por 12 homicídios –, não se furtou a participar da burla, desvendando, ele mesmo, o crime, trazendo à baila, novamente, para a imprensa caolha que insiste em omitir qualquer referência aos assassinos, o impublicável Escritório do Crime.

A bufoneria ganha ares de seriedade: entram em cena PGR e o ministro da segurança pública

Houve, no entanto, quem não tivesse achado a menor graça na zombaria, que além de evidenciar os matadores e revelar a naturalidade com que certa classe de crimes são cometidos no Rio de Janeiro, expunha a intimidade com que os assassinos se relacionam com os meios de comunicação e a polícia.

Em vista disso, e com base na denúncia de um dos acusados pelo assassinato – condenado e encarcerado desde muitos meses antes de toda a burla –, direcionada a um bando de assassinos denunciados nos jornais, a PGR resolve então incriminar os investigadores do caso! Quem poderia contar com tamanha astúcia?

E assim, dias atrás, o ministro da segurança pública anunciou o início de uma “investigação da investigação”. Longe de lançar desconfianças sobre os investigadores, a ação esclarece a causa da demora na elucidação do caso, revelando não só o fogo cruzado sob o qual estão expostos os investigadores, mas a extensão e poder da rede de proteção com que contam os tão veneráveis assassinos.

Atentemos que a zombaria transcorre simultaneamente à farsa moralizante que assola o país.

Leia também:


19 de agosto, O Globo, pág.14 e Extra, pág.10: 






Gustavo Gollo
No GGN

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