1 de nov de 2018

O inverno chegou


Jair Bolsonaro foi eleito, cumpra-se a vontade da maioria, regra de ouro da democracia, apesar dos vícios do processo, do uso de armas novas e letais que vêm corroendo a democracia mundo afora. Mas ninguém se iluda, um tempo de sombras chegou: Se, como candidato, ele disse coisas tão terríveis, que poderiam lhe tirar votos, por que deixará de praticá-las no poder? O governo em si é uma incógnita, pois o cheque foi assinado em branco, mas haverá perseguição, revanchismo e repressão, pois haverá também resistência. Exílios e prisões, como ele prometeu.

Bolsonaro venceu, sem enganar ninguém sobre seu desapreço pela democracia e sobre a radicalização neoliberal que seu governo trará. Não escondeu sua boçalidade e seu desprezo pelos valores humanistas. Proclama “Deus acima de todos” mas contraria, com a pregação do ódio, o primeiro mandamento cristão, “amai-vos uns aos outros”. Venceu porque foi nele que a maioria viu a resposta procurada para seus incômodos: bronca com o PT, desejo de que o Estado “pegue pesado” com os bandidos e faça prevalecer valores conservadores ameaçados pelo espírito do tempo.

O tacão autoritário não virá na primeira hora quando a conta começar a ser cobrada, especialmente dos mais pobres. Haverá resistência, haverá repressão e pretexto para violação de garantias. Agora, cabe tentar decifrar o governo que ele fará. A vantagem foi grande, e isso alimentará a arrogância, embora ele tenha feito um discurso de vitória moderado: “o que eu mais quero é, seguindo ensinamentos de Deus, ao lado da Constituição brasileira, me inspirando em grandes líderes mundiais e com uma boa assessoria técnica e profissional, isenta de indicações políticas de praxe ...”

Ora viva, ele promete observar a Constituição! Ter uma boa equipe técnica também é bom, mas a luz vermelha se acende quando ele diz que ela será “isenta de indicações de praxe”. Repete a promessa de não ter com os partidos uma relação de “toma lá, dá cá”. Como então construirá a governabilidade? Se ele não chamar logo os partidos tradicionais, tais como o MDB e os do Centrão, para um governo de sociedade, como é próprio do jogo, será mau sinal. Não poderá governar só com os filhos e a patota da Barra da Tijuca. A aprovação das reformas de que o país precisa exigem o quórum qualificado de 3/5. A maioria absoluta é de 257 votos na Câmara, onde o PSL terá apenas 52 deputados. Collor também tentou reinar acima do Congresso e deu no que deu.

Ficou claro, na campanha, que Bolsonaro foi adotado pela elite econômica a partir do naufrágio da candidatura Alckmin. Eleito pelos pobres, governará para os ricos. Prometeu “tirar o Estado do cangote de quem produz”, frase que sintetiza a divisão dos custos que virá, e aponta, por exemplo, para o aprofundamento da reforma trabalhista: menos direitos para que haja mais lucros. O futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, prometeu reduzir de 34% para 20% o imposto de renda das empresas. Para os que trabalham, isenção de até R$ 5 mil e alíquota única de 20% para todos. Isso vai pesar no cangote da classe média. Quem ganha R$ 6 mil pagará o mesmo que quem ganha R$ 60 mil. Hoje a tributação é progressiva, indo de 10% a 27,5%. Com estas mudanças tributárias, o Estado perderá 27 bilhões, o que só pode ser compensado com uma brutal redução dos gastos com educação, saúde e políticas sociais. E tudo isso aponta para conflitos e confrontos.

Fernando Haddad perdeu ganhado, saiu maior do que entrou. Tem pela frente o enorme desafio de liderar o PT no enfrentamento do antipetismo, que se revelou uma doença social. Não tinha mesmo porque cumprimentar quem ameaçou prendê-lo.

Em belo texto publicado em O Expresso, o escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares assim encerra sua percepção da eleição brasileira: “Para a História, ficará o registo de um povo que se suicidou por sua livre vontade. E não haverá história mais triste do que esta para contar.” Agora está feito, façamos cada um sua parte para evitar as passagens tristes, porém inexoráveis.

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