12 de nov de 2018

O essencial é o ataque de Bolsonaro ao trabalhador

As pautas identitárias devem se subordinar a isso


O Conversa Afiada publica sereno (sempre!) artigo de seu exclusivo colUnista Joaquim Xavier:

O tema é polêmico, mas não dá para fugir dele.

O capitão eleito presidente num pleito repleto de irregularidades privilegiou um alvo para chegar ao Planalto. A questão dos costumes. Não por acaso. O Brasil é um país conservador por natureza, herança dos tempos de escravidão até hoje sobreviventes.

A enxurrada de propaganda digital de Bolsonaro, financiada ilegalmente, enxergou aí a galinha dos ovos de votos. Seus posts mentirosos, difundidos aos milhões, acusaram a oposição de defender a destruição da família, a ”libertinagem”, o ódio a dogmas “divinos”. Pregaram a repulsa aos gays, condenaram os homossexuais, destilaram a raiva contra feministas, negros, mulatos, quilombolas, povos indígenas e minorias em geral. Embalaram tudo isto com a luta contra a corrupção e mais segurança pública.

Por trás desse conservadorismo, escondeu-se o principal: o ataque à classe trabalhadora.

É evidente que as chamadas lutas identitárias são um sinal de progresso da civilização. A evolução dos costumes, o respeito às opções de gênero e ao direito (não tolerância, direito!) de cada um escolher o caminho que lhe traga felicidade e prazer é algo que só pode ser comemorado. Mas o risco de isso virar uma armadilha divisionista num país como o Brasil é imenso.

Bolsonaro explorou esse risco.

Sua campanha, espertamente, deixou de lado na propaganda os problemas fundamentais. Como eliminar o desemprego? Como combater a fome que assola milhões e milhões de brasileiros? Como assegurar terra e casa própria a quem trabalha de sol a sol? Como impedir a exploração desenfreada do trabalhador responsável pela geração da fortuna de uns poucos bilionários? Como garantir uma aposentadoria digna a quem dedicou a maior parte da sua vida a construir o país?

Finda a eleição tisnada por fraudes mais do que expostas, a verdade começa a aparecer.

Fala-se muito da “escola sem partido”. Um escândalo, sem dúvida. Mas vamos ao atacado. Nem bem acabou a eleição, o povo é informado que o ministério do Trabalho será extinto num país em que pelo menos trinta milhões de pessoas – o cálculo é mais do que modesto — não têm como sobreviver. Suas atribuições serão entregues a gente como Paulo Guedes, um especulador cuja única preocupação sempre foi a de engordar a própria conta bancária.

A toque de caixa, o Parlamento aprova isenções de pai para filho para montadoras, sem nenhuma contrapartida de geração de empregos. O dinheiro do pré-sal, previsto para financiar a educação, será agora distribuído para financistas. A mudança do sistema de Previdência permanece uma obsessão. Em vez do sistema de repartição, a ideia é implantar a regra do cada um por si. A mesma adotada pelo ditador Augusto Pinochet no Chile, sonho de consumo do mesmo Paulo Guedes, seu admirador, e cujo resultado foi o empobrecimento e miséria dos mais velhos.

Para quem acha tudo isso um exagero da “oposição”, basta ver os números da reforma trabalhista aprovada sob o governo golpista de Temer e aplaudida pela turma do capitão eleito. Em vez dos dois milhões de empregos que seriam criados, nem trezentos mil surgiram.

Quem quiser, pode se enganar. Mas os fatos e os números mostram que o programa de Jair Bolsonaro é aprofundar a programa golpista que derrubou uma presidenta legitimamente eleita. Abolir a soberania nacional, transformar a classe trabalhadora brasileira em bóia-fria do grande capital financeiro, suprimir liberdades e entregar as riquezas do país aos abutres das multinacionais.

As pautas identitárias devem se subordinar a isso, em vez de se dividir em minorias isoladas.

A vitória destas está subordinada à vitória maior, da classe trabalhadora da qual depende o país que vale a pena construir.

Joaquim Xavier

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