24 de nov de 2018

"Ninguém foi enganado", diz médica cubana sobre o contrato de trabalho

Casada com um brasileiro, Mileydis Gutierrez pretende ficar mesmo após a decisão do governo de Cuba de suspender o convênio com o Brasil

'Estamos preocupados, sobretudo com a população mais vulnerável do Nordeste e da Amazônia'
Com mais de 20 anos de experiência, a médica cubana Mileydis Caridad González Gutierrez participou de duas missões humanitárias, na Venezuela e na Guiné Equatorial, antes de se integrar ao programa Mais Médicos e atender a população de Embu-Guaçu, município de 68,2 mil habitantes, distante apenas 47 quilômetros da capital paulista.

Casada com um brasileiro, ela pretende ficar na cidade mesmo após a decisão do governo de Cuba de suspender o convênio com o Brasil após as ofensivas declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro.

Não sabe, porém, se poderá continuar atuando como médica. E teme as consequências da interrupção do acordo de cooperação. “Estamos preocupados com o que pode acontecer, sobretudo com a população mais vulnerável do Nordeste e da Amazônia, lugares onde nenhum médico chegou antes de nós”, disse a CartaCapital na terça-feira 20, enquanto se despedia dos colegas de um posto de saúde do periférico Jardim Valflor.

CartaCapital: A senhora se surpreendeu com o abrupto fim da cooperação cubana no Mais Médicos? 

Mileydis Caridad González Gutierrez: Sabíamos que isso poderia ocorrer a partir de 1º de janeiro, o que surpreendeu foi a antecipação. Bolsonaro disse claramente que não queria os cubanos por aqui. Ele usa essa história de que deveríamos ficar com 100% do salário, mas as condições estavam previstas no contrato.

Ninguém foi enganado, todos concordaram, não havia nenhuma reclamação de nossa parte. Estamos preocupados com o que pode acontecer, sobretudo com a população mais vulnerável do Nordeste, da Amazônia, lugares onde nenhum médico chegou antes de nós. Posso ficar no Brasil, mas não sei se poderei continuar trabalhando.

Bolsonaro chegou a dizer, repetidas vezes, que os cubanos vinham para o Brasil na condição de escravos.

É uma acusação descabida. Um porcentual da remuneração é destinado ao governo de Cuba porque lá não se paga pela saúde, não se paga pela educação, tudo é oferecido de graça. Nosso país passa por uma situação econômica difícil. Aceitamos o contrato e estávamos contentes, porque gostamos do nosso trabalho.

Bolsonaro chegou a dizer que não somos médicos de verdade, que havia militares entre nós. É um insulto. Sou formada há 20 anos. Fiz residência em medicina geral e integral. No Brasil, especializei-me em medicina comunitária por uma universidade paulista, algo previsto em contrato. Antes de vir para cá, trabalhei na Venezuela e na Guiné Equatorial.

Despedida
Mileydis Gutierrez despediu-se de seus colegas de trabalho na terça-feira 20

Como foi sua experiência com os pacientes brasileiros?

Muito boa. Fui recebida por pacientes que me disseram: “Nunca veio um médico em minha casa”. Fiquei surpresa, porque Embu-Guaçu não é uma cidade muito afastada. Às vezes, eles pediam desculpa por não ter nada a oferecer, e procuravam alguma coisa. Não queríamos nada, estamos acostumados a fazer trabalho humanitário. Não queremos receber nada em troca, só saber que o paciente melhorou. Esta é a recompensa.

E que impressão ficou do Brasil?

Gosto muito do povo, da cultura do Brasil. Só fiquei um pouco assustada com a violência, todos se queixam da falta de segurança. Ainda assim, quero ficar. Casei-me com um brasileiro, tenho residência permanente.

É terrível essa situação, porque tenho família e não sei se poderei trabalhar. Tenho de esperar para ver se as vagas do programa serão preenchidas por médicos brasileiros, se vão abrir novos postos para estrangeiros. Até lá, tenho de arrumar alguma coisa por fora para sobreviver.

Rodrigo Martins
No CartaCapital

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