17 de nov de 2018

Marginais vermelhos

Jair Bolsonaro bem que poderia plagiar o Fernando Henrique Cardoso que, ao ser eleito presidente, pediu para esquecerem tudo que ele tinha escrito como sociólogo e dito como político, no passado. Fernando Henrique fez uma bem humorada – e mal compreendida – alusão à diferença entre teoria e prática em qualquer governo, mas a piada o perseguiu por toda a sua administração. Bolsonaro pediria para esquecerem suas frases mais explosivas e suas posições mais radicais para poder fazer um governo de união nacional, respeitando a Constituição, os direitos humanos, a pluralidade política, o aleitamento materno etc. Que esquecessem que um dia ele lamentara publicamente que a ditadura (que, segundo ele, nunca existiu) não matara o Fernando Henrique quando tivera a oportunidade, que ele defendia a tortura, que seu ídolo era um torturador notório... Isso sem falar nas suas opiniões conhecidas sobre mulheres e gays e outras minorias.

O problema é que o passado do Bolsonaro é mais recente do que o do Fernando Henrique Cardoso, mais difícil de esquecer. O discurso que ele fez para o telão da Avenida Paulista foi uma semana antes da eleição, e não tinha nada de conciliador ou de contrito. Era ameaçador. Prometia uma faxina no País. Quem não estivesse com o seu governo que se preparasse para deixar o Brasil ou ir para a cadeia. Também seriam banidos da Pátria o que ele chamou de “marginais vermelhos”. Cheguei a ficar preocupado. O que seriam marginais vermelhos? Eu sou um marginal, na medida em que crônicas são notações e comentários na margem das notícias, uma espécie de pichação literária, e eu faço crônicas. E torço pelo Internacional, que é vermelho. Já me vi correndo da polícia para não ser preso e banido da pátria, gritando:

– Eu sou Grêmio! Eu sou Grêmio!

Mas não. Deduzi que “marginais vermelhos” é o nome genérico da esquerda brasileira, dado por Bolsonaro. Imagino que haveria uma graduação de acordo com a periculosidade de cada esquerdista e sua punição. Vermelho: desterro. Roxo: prisão. Rosa (se não for gay): trabalhos forçados. Rosa (se for gay): prisão domiciliar com tornozeleira. A verdade é que a esquerda brasileira está curiosa para saber por quem será tratada daqui pra frente, pelo novo Bolsonaro da união nacional ou pelo velho Bolsonaro do comício da Paulista.

Luís Fernando Veríssimo

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