9 de nov de 2018

Igreja com Partido


Compartir significa fazer parte de alguma comunidade, por exemplo, religiosa. Significa também participar, dividir, compartilhar um sentimento com alguém. Ou um banquete. Os primeiros cristãos procuraram oportunidades para melhorar a vida das pessoas desvalidas no submundo romano: gladiadores, estrangeiros, escravos. Todos estavam desamparados por serviços sociais do Estado, porque não eram considerados cidadãos do Império Romano.

Os colégios ou as confrarias cristãs ofereciam a sepultura e o banquete. Os cristãos se cotizavam para garantir uma sepultura, erguer um santuário doméstico aos protetores da casa, providenciar banquetes para todos. Com os convivas sentados em bancos, eram simples e fraternos, sendo realizados no dia do Senhor. Compartir era separar a refeição em partes entre indivíduos “deixados de valer”. O segredo da propagação do cristianismo no decorrer do século II se relaciona com essa luta pela cidadania.

Esse ato de repartir do cristianismo primitivo o levou à popularidade, até alcançar o imperador. Através do Edito de Milão (ano de 313), o imperador Constantino I acabou com a perseguição romana aos cristãos. Ele se converteu ao cristianismo, porém não transformou a religião em oficial do Império. Aproveitou-se do crescimento dela, em quase todas as regiões do império, para aumentar sua força política.

Em 1453, turcos infiéis conquistaram Constantinopla, bastião milenar do cristianismo. A “cidade de Constantino”, atual Istambul, foi a capital do Império Romano (330–395), do Império Bizantino (ou Império Romano do Oriente) (395–1204 e 1261–1453), do Império Latino (1204–1261) e, após a tomada pelos turcos, do Império Otomano (1453–1922).

No fim da Idade Média, época de peste e fome dizimando a população europeia, houve o “Grande Cisma”, entre 1378 e 1417, quando o papado foi dividido, chegando a haver três papas em 1409. A oferta se dividiu, mas a demanda se elevava com a busca por parte da população leiga, empesteada e faminta por uma relação mais direta com o sobrenatural. Surgia a devoção de caráter individualista com base na meditação sobre a vida de penitência e sacrifício de Cristo para alcançar a promessa de paraíso futuro. O exercício individual da fé foi uma ideia-chave para os futuros reformadores da Igreja.

Os esforços dos “devotos” era para expurgar das manifestações culturais todos os resquícios de paganismo ou sobrevivências pré-cristãs. Os ritos católicos lhes substituíam como espécie de magia. O ponto de ruptura foi quando um frei alemão, Martinho Lutero (1483-1546) se deparou, lendo a bíblia, com a doutrina da justificação pela fé. Há cerca de ½ milênio, divulgou suas 95 Teses contestatórias inclusive da prática de perdoar os pecados mediante pagamento em dinheiro.

Foi a base para uma teologia reformada, onde expunha a doutrina do sacerdócio universal. Segundo essa tese, os homens não necessitavam de intermediários do clero para entrar em contato com Deus. Bastava se alfabetizar para ler a bíblia traduzida do latim para o alemão. Conquistou a simpatia das castas dos nobres, dos sábios filósofos e dos sábios-criativos (artistas e artesãos) até o ponto de seis príncipes e catorze cidades alemãs protestarem quando, em 1529, tentaram bani-lo dos domínios do Sacro Império Romano. Foi a origem da designação “protestante”. Sempre pregou a centralidade da bíblia, lida diretamente, sem intérpretes intermediários, por livre-iniciativa.

No Brasil, houve tentativas de disseminação do protestantismo desde o período colonial (1500-1822). Os franceses invasores do Rio de Janeiro no século XVI, em busca de refúgio religioso (e do pau-brasil), eram huguenotes. Em 1630, os holandeses da Companhia das Índias Ocidentais, interessados no comércio do açúcar, conquistaram parte da atual região Nordeste, onde permaneceram até 1654. Nesse período, organizaram a Igreja Cristã Reformada.

A grande maioria dos “cristãos-novos” — um em cada três portugueses imigrantes para a colônia era judeu com conversão forçada — se misturou depois de uma ou duas gerações com outras etnias. Formaram comunidades ou grupos de pessoas caracterizadas por uma homogeneidade sociocultural com língua, religião e modo de agir próprios. De maneira pejorativa, o indivíduo de origem árabe, vendedor ambulante de artigos de armarinho, era chamado de “carcamano”.

A presença oficialmente aceita do protestantismo só ocorreria na primeira metade do século XIX, após a chegada da corte portuguesa, por causa da aliança geopolítica com a Inglaterra contra Napoleão. Como nação protestante, a Inglaterra garantiu para os seus súditos privilégios de caráter religioso sem precedentes contra o monopólio da Igreja Católica. Estabeleceram a Igreja Anglicana no país. Foram construídos templos e cemitérios, porque as necrópoles – partes das cidades antigas destinadas ao sepultamento dos mortos – estavam sob a guarda da Igreja Católica. Paradoxalmente, face ao seu primórdio, esta não permitia o enterro de protestantes nos seus sítios.

Para resolver o problema conflituoso da mão-de-obra escrava, imigrantes alemães protestantes, especialmente luteranos vindos da Alemanha, se instalaram principalmente no Sul do país, embora também houvesse colônias em estados do Sudeste, exceto no estado de São Paulo. Fundaram comunidades evangélicas independentes e escolas paroquiais de língua germânica para seus filhos.

Outro fator contribuinte para a vinda de missionários estrangeiros foi o avivamento religioso ocorrido na Europa no final do século XVIII. Ele se difundiu pelos Estados Unidos durante a Guerra da Independência pelo discurso de ódio. Foi pregada a satanização da Inglaterra para os colonos norte-americanos separarem-se definitivamente da memória afetiva da metrópole. Em decorrência do fervor evangélico, depois, missões foram organizadas com o objetivo de salvar os demais pecadores do inferno.

Os puritanos, calvinistas radicais e imigrantes pioneiros para os Estados Unidos, surgiram em oposição ao “papismo” da Igreja da Inglaterra. Tinham uma espiritualidade intensa e tumultuosa. Eram bons capitalistas e bons cientistas. Às vezes, porém, passados os efeitos da graça, após a conversão, mergulhavam em depressão crônica e alguns até cometeram suicídio, certos de a perda da alegria extática significar sua predestinação ao Inferno.

Os Pais Fundadores da República Norte-americana compunham uma elite aristocrática de ideias iluministas atípicas. A vasta maioria dos americanos era calvinista e não podia acatar o etos racionalista. Muitos consideravam o deísmo – doutrina para qual a razão é a única via capaz de assegurar da existência de Deus, rejeitando, para tal fim, o ensinamento ou a prática de qualquer religião organizada – uma ideologia satânica.

Os protestantes viam sua religião dotada de uma ética capaz de incentivar o espírito do capitalismo. A concepção de Destino Manifesto tornou-se pensamento corrente nos Estados Unidos como justificativa dos norte-americanos serem predestinados por Deus para conquistar o mundo levando a democracia, o protestantismo e os valores extremamente moralistas de sua civilização. É a versão expansionista do “sonho americano” de mobilidade social por conta própria ou livre-iniciativa.

No Brasil, com o advento da República através da casta dos militares positivistas houve a separação da Igreja do Estado. Este se tornou constitucionalmente laico. Caíram os obstáculos jurídicos para a atuação dos evangélicos, propiciando a liberdade de expressão e a tolerância religiosa para a propagação do protestantismo no país.

Nas décadas de 1950 e 1960, após a II Guerra Mundial, o pentecostalismo ganhou vigor com a chegada de igrejas norte-americanas. No mesmo período, a livre-iniciativa levou a novos empreendimentos com a criação de igrejas nacionais. Deram novas ênfases evangelizadoras em sintonia com a urbanização. Investiram em grandes concentrações público e no uso inicial do rádio, depois da TV, para anunciar a mensagem do evangelho da cura divina para todos os males através da Teologia da Prosperidade contra o diabo na área financeira. Com a diversificação do pentecostalismo no país, a exploração de nichos do mercado religioso propiciou uma alternativa ao catolicismo para as camadas populares de baixa renda.

A partir da segunda metade dos anos 70, novas igrejas pentecostais tiveram um crescimento acelerado ao explorar a lógica do mercado religioso e uma racionalidade pragmática de tipo empresarial. Passaram a pregar a valorização da felicidade aqui-e-agora a partir da prosperidade financeira, sinal da graça divina.

Para conceder graças aos “tementes de deus”, nada melhor: dar ou transmitir graça a um amplo e fiel público eleitor. O investimento na mídia, além da criação de uma indústria da música gospel – etimologicamente, derivada do inglês god-spell, com alusão ao ato divino de anunciar algo ou ao “feitiço de deus” –, propiciou a eleição da “bancada da bíblia”, dita evangélica, no Poder Legislativo. Acima dos partidos, tem grande poder de barganha junto ao Poder Executivo em coalizões partidárias-presidencialistas.

Agora, com a aliança entre a casta dos militares e a casta dos sabidos-pastores, eleito o primeiro presidente evangélico de uma República brasileira laica, tanto o catolicismo como a religiosidade brasileira afro-espírita sentem temor de serem demonizadas e encaradas pelos pastores como inimigas preferenciais na disputa do mercado religioso. Cruz credo! Livre-nos do obscurantismo da Igreja com Partido e da Escola sem Partido!

Fernando Nogueira da Costa Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com
No GGN

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