7 de nov de 2018

Em nove dias, Bolsonaro acumula trapalhadas na política externa

Dificuldade em manter posições e falta de domínio sobre temas internacionais têm criado cenário de instabilidade para nova administração

Foto: Lula Marques
Sem orientação nem chanceler definido, Jair Bolsonaro (PSL) provocou sérias confusões, atritos e controvérsias nas relações do Brasil com o mundo nestes seus nove dias como presidente eleito. Em algumas questões sensíveis, como a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, voltou atrás. Em outras, passou pelo vexame de tomar um pito do alvo de suas críticas.

A ausência de uma orientação clara sobre política externa e o impulso do presidente eleito para tratar da matéria prejudicam a imagem do Brasil no exterior e os interesses de setores nacionais. Até agora, Bolsonaro definiu seus ministros de Economia, Casa Civil, Justiça, Defesa, e Ciência e Tecnologia. Mas para a casa de Rio Branco não há sinal de quem poderá ser seu escolhido.

Bolsonaro somente adiantou que o futuro chanceler será um diplomata. Seguindo essa lógica, pelo menos doze nomes de diplomatas surgiram na imprensa nos últimos dias como potenciais escolhas para o Itamaraty. Nenhum foi confirmado. Outros dois nomes de fora da carreira foram apontados, para o caso de Bolsonaro voltar atrás — a senadora Ana Amélia (PP-RS), que o apoiou no segundo turno, e o príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança, que continua se mobilizando pelo posto.

“Estou mais perdido do que cego em tiroteio”, disparou o veterano embaixador Marcos Azambuja, ao dizer-se perplexo com os anúncios de Bolsonaro. “É preciso separar a retórica do candidato recém-eleito dos atos de seu futuro governo. O Brasil mudou. Minha função é entender esse novo país”, completou.

Na semana passada, Bolsonaro confirmou ao jornal Israel Hayon a mudança da embaixada do Brasil de Tel-Aviv para Jerusalém, uma medida que significa o reconhecimento da soberania israelense sobre a cidade sagrada. O presidente eleito demonstrou desconhecimento dos fatos de que a Autoridade Palestina reclama soberania sobre Jerusalém Oriental e de que as Nações Unidas jamais reconheceram a cidade como parte de Israel.

A iniciativa produziu a primeira retaliação estrangeira ao governo brasileiro. O Egito cancelou uma visita oficial do ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, marcada para a próxima quinta-feira, 8. A decisão chegou a Brasília acompanhada de desculpa corriqueira na diplomacia: problemas de agenda.

A declaração de Bolsonaro provocou o enfurecimento dos países árabes, que constituem um mercado importador de quase 10 bilhões de dólares em produtos brasileiros. Na segunda-feira, em entrevista para a TV Band, o presidente eleito voltou atrás. Disse que, antes de bater o martelo sobre o tema, vai escolher e ouvir seu futuro chanceler.

Denise Chrispim Marin e Julia Braun
No Veja

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