4 de nov de 2018

Editorialistas do Estadão têm um problema: a fixação em Lula


Os editorialistas do Estadão devem ter alguma questão psicanalítica não resolvida com Lula e as demais lideranças do PT. Num momento em que Jair Bolsonaro ameaça desconstruir a democracia tal qual a conhecemos, o jornal trata hoje de atacar Lula e o partido.

“O partido de Lula da Silva recrudesceu seu autoritarismo, expondo cada vez mais seu desespero. Depois de passar a campanha inteira a denunciar como “golpe” o impeachment constitucional de Dilma Rousseff, a exigir a libertação de Lula, como se este não tivesse que cumprir pena pelos crimes que cometeu, e a exigir apoio a seu candidato como única forma de “salvar a democracia” ante o perigo do “fascismo” supostamente representado pela candidatura de Bolsonaro, o PT agora trata de dizer que a vitória do oponente resultou de um processo “eivado de vícios e fraudes”, conforme declarou a presidente do partido, Gleisi Hoffman”, diz o principal editorial do jornal hoje”, disse, em um dos trechos.

Vamos por partes:

O que significar recrudescer seu autoritarismo?

O partido foi tirado do poder em 2016, e em 2018 Lula se apresentou à Polícia Federal para cumprir mandado de prisão, mesmo com a sentença de Sergio Moro sendo considerada injusta por mais de 100 juristas.

Havia muita gente que sugeriu a Lula que buscasse asilo em outro país, o que ele obteria facilmente e nem seria um país como Cuba, Venezuela ou alguma ditadura africana.

Onde está o autoritarismo?

Impeachment de Dilma

O impeachment de Dilma sem crime de responsabilidade que o justificasse — ora, as pedaladas fiscais… — é, sim ,um golpe parlamentar, apoiado por setores da Justiça e pela mídia corporativa.

O crime do PT foi denunciar o golpe

Nem isso ele poderia fazer? Teria que se impor uma lei da mordaça?

Lula tem pagar pelos crimes que cometeu

Lula não tem sentença transitada em julgado e uma análise fria do processo em que foi condenado revela a ausência de provas e da descrição de conduta criminosa.

Quem diz isso são os mais de 100 juristas no livro Comentários a de uma sentença anunciada — quase a totalidade dos autores não tem nenhuma relação com Lula e o PT.

Na esfera pública, salvo editoriais de publicações da velha imprensa, difícil encontrar um nome respeitado do Direito que elogie a sentença de Moro (talvez Joaquim Falcão, o jurista da Globo).

Apoio a Haddad como único caminho para salvar a democracia

No segundo turno, havia dois candidatos.

Um, professor de ciência política, de um partido que sempre respeitou as regras da democracia. Foi prefeito da maior cidade do Brasil, elogiado pela responsabilidade fiscal.

O outro que construiu sua carreira política com a defesa da ditadura e do golpe, da tortura e da perseguição a oponentes.

Havia dois caminhos para a democracia?
Claro que Bolsonaro não implantará um governo de viés autoritário por decreto, mas, pelo que já disse, a intenção dele é esta.

Ou há outro nome além de ditadura para quem pretende colocar opositores na cadeia ou mandá-los para fora do país?

Se vai conseguir, dependerá da resistência democrática e, nesse ponto, o PT está certo em anunciar que fará oposição firme.

A oposição é um direito constitucional e, neste momento, mais do que isso, um dever.

A vitória de Bolsonaro como resultado de um processo viciado e eivado de fraudes.

O candidato que liderava as pesquisas e poderia vencer a eleição no primeiro turno foi proibido de disputar as eleições.

Não é apenas Gleisi Hoffmann que diz isso.

Na véspera da campanha, o Comitê de Direitos Humanos da ONU decidiu que o país deveria respeitar os direitos políticos de Lula. Não o fazendo, o Estado brasileiro abriu brecha para que seja criticado e, no limite, até a legitimidade da eleição de Bolsonaro seja posta em cheque.

O PT não pode fazer esse questionado, já que disputou as eleições com candidato alternativo a Lula e, ao fazê-lo, legitimou o processo.

Ponto.

Mas um organismo internacional pode. E talvez o faça, sem consequências práticas, apenas para registro de que o Brasil não respeitou as regras da democracia, ao tirar da disputa quem venceria as eleições.

Para sempre, esta eleição será conhecida como aquela em que o preferido da maioria da população, segundo indicavam as pesquisas, não pôde disputar.

Nem pôde sequer gravar um vídeo, em que manifestaria sua posição política.

Nem pôde dar entrevista a órgãos de imprensa que a haviam solicitado.

* * *

O editorial do Estadão explica por que, na eleição de Bolsonaro, algumas dezenas de brasileiros foram comemorar na frente da Superintendência da Polícia Federal, com rojões e gritando asneiras como “Tiramos a quadrilha do PT do poder”.

Ora, o PT já está fora faz tempo e quem ocupa o Palácio do Planalto executa um projeto político de regressão de direitos que não é o dos petistas, é o de Bolsonaro.

Portanto, a eleição dele é a continuidade do governo Temer, com a radicalização em alguns pontos.

O editorial do Estadão reflete a ideia fixa de setores da sociedade, que já não sabem por que protestam. Parece a jovem brasileira que deu entrevista à TV portuguesa SIC, na comemoração da eleição de Bolsonaro.

A repórter perguntou o que Bolsonaro poderia fazer de bom e a jovem respondeu:

“Muitas coisas. Mudanças. Tirar o PT do poder”.

Mas o PT já foi tirado. O que ele pode fazer de bom?, insistiu a repórter, com o acentuado sotaque português.

“Muitas coisas. Mudanças, Tirar o PT do poder…”, repetiu a jovem.

Percebendo que  não sabia dar as respostas, pediu ajuda a um amigo: “Paulo, vem aqui responder”.

O Estadão está precisando chamar o Paulo para convencer leitores que não sejam analfabetos políticos.

Joaquim de Carvalho
No DCM

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