7 de nov de 2018

Deputado bolsonarista condenado por estelionato ataca Congresso em Foco, Globo e Folha

"sou um homem determinado e com ausência de medo, se acham que vão me intimidar, não viram nada, não fiz 1% do que sou capaz"
Está virando moda. Na noite do segundo turno da eleição, o assessor de imprensa do presidente eleito Jair Bolsonaro, Eduardo Guimarães, chamou jornalistas de “lixo” pelo WhatsApp ao comemorar a vitória do chefe. A palavra “lixo” voltou a ser usada contra a imprensa nesta terça-feira (6) pelo deputado eleito Julian Lemos (PSL-PB), integrante da equipe de transição do novo governo. Julian reagiu a reportagens publicadas por este site e pelos dois jornais que informaram que ele já foi condenado por estelionato e enquadrado três vezes na Lei Maria da Penha – em uma delas chegou a ser preso em flagrante.

Em tom de ameaça pelo Instagram, o deputado eleito disse que os três veículos não sabem do que ele é capaz: “Quem não deve não teme, o meu "coro" [couro] é grosso e ao mendo [medo] eu não fui apresentado, sou um homem determinado e com ausência de medo, se acham que vão me intimidar, não viram nada, não fiz 1% do que sou capaz, irei cumprir minha missão, quer queira ou não!”.

Mensagem publicada pelo deputado eleito no Instagram
Julian disse que o Congresso em Foco, O Globo, a Folha de S.Paulo e “blogs medíocres” – que noticiaram processos cuja existência ele mesmo não contesta – não têm credibilidade. “Globo, Folha de São Paulo, Congresso em Foco, e blogs medíocres vocês são lixo, vocês não tem (sic) credibilidade, é melhor Jair se acostumando comigo também”, escreveu.

Ainda no Instagram o deputado afirmou que tanto o processo por estelionato quanto as acusações de agressão, feitas pela ex-esposa e por uma irmã, são “assuntos mais que resolvidos”. “Mais uma vez afim [a fim] de atingir Jair Bolsonaro requetam [requentam] assuntos mais que resolvidos na minha vida, eles fazem assim... Quem é sujo querem deixar ‘limpo’ quem é limpo querem deixar sujo.”


Homem forte

Reprodução do processo movida pela irmã do deputado eleito
Um dos coordenadores da campanha de Bolsonaro no Nordeste, Julian foi apresentado pelo então candidato como seu “homem forte na Paraíba e “amigo de primeira hora”. Em 2011 ele foi condenado a um ano de prisão em primeira instância, em regime aberto, por estelionato. Mas o caso prescreveu antes de ser analisado pela segunda instância.

Julian se envolveu no caso pelo uso de uma certidão falsa fornecida pela empresa GAT Segurança e Vigilância, da qual era sócio, na assinatura de um contrato para prestação de serviços à Secretaria de Educação e Cultura da Paraíba, em 2004. O crime acabou prescrevendo devido à demora do Judiciário em concluir o julgamento.

Dos três inquéritos de que o deputado eleito virou alvo com base na Lei Maria da Penha, dois foram arquivados após a ex-esposa dele, Ravena Coura, apresentar retratação e dizer às autoridades que se exaltou “nas palavras e falado além do ocorrido". Um terceiro, movido por sua irmã Kamila Lemos, continua ativo. As agressões atribuídas a ele ocorreram em 2013 e 2016.

Ofensa e agressão

Kamila contou em depoimento à polícia que foi ofendida e agredida fisicamente pelo irmão, com murros e empurrões, ao tentar “apaziguar” uma briga entre ele e a ex-esposa. Laudo do Instituto Médico Legal confirmou que ela apresentava escoriações no pescoço, no ombro e no braço. O deputado eleito afirmou, na ocasião, que a irmã arremessou um cinzeiro contra ele. Julian, porém, não passou por exame para comprovar a agressão.

Um ano depois a defesa do deputado eleito apresentou uma carta com retratação da irmã, alegando que os dois já haviam se entendido. O processo, no entanto, continua tramitando. Uma audiência preliminar estava marcada para o dia 21 de setembro, mas não foi realizada, conforme registro do Tribunal de Justiça da Paraíba.

O deputado eleito disse ao Congresso em Foco que não agrediu nem a ex-esposa nem a irmã. "É um assunto ultrapassado, requentado e acabado. Já está explicado. Já fui absolvido, as pessoas se retrataram", disse. De acordo com Julian, o processo movido pela irmã não foi arquivado porque ela mora no exterior e ainda não compareceu para desistir oficialmente da ação. "É uma irmã que mora no meu coração. Vocês da mídia têm de procurar outro assunto porque esse aí já foi", completou.

Na declaração ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Julian informou que tem 42 anos e nível médio completo. Diz ser empresário, mas não informou à Justiça qualquer bem. Ele foi eleito com quase 72 mil votos (3,61% dos votos válidos).

Julian gravou vídeo ao lado de Alexandre Frota: "TNT puro"
Pela manhã, enquanto esperava pela chegada de Bolsonaro à Câmara, Julian gravou um vídeo ao lado do também deputado eleito Alexandre Frota (PSL-SP), a quem chamou de irmão. Frota disse que a eleição do capitão representa a realização de um “sonho” para o país e destacou a parceria com o paraibano, que retribuiu: “Julian e Alexandre Frota, diga aí, combinação TNT (dinamite) puro”.

Flávio Bolsonaro

Esta não é a primeira agressão ao Congresso em Foco. Na véspera do segundo turno, o deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) acusou este site de receber “mais de R$ 100 mil por mês do governo para fazer militância política esquerdopata”.

A afirmação coincide com outras manifestações com que o Congresso em Foco foi brindado, nas redes sociais, após publicar editorial no qual deixou explícita o seu posicionamento contrário à candidatura Bolsonaro, em razão do longo histórico de atos e declarações do presidente eleito que demonstram seu desapreço por valores democráticos. Na verdade, o governo federal jamais pagou qualquer mesada a este site e sempre teve participação em nosso faturamento (clique aqui para ver os números).

No Congresso em Foco



Mourão diz que integrante da transição, acusado de violência doméstica, não terá cargo no governo Bolsonaro

Reportagem de Pedro Henrique Gomes no Globo informa que o futuro vice-presidente, general Hamilton Mourão, afirmou nesta terça-feira que Julian Lemos (PSL), integrante da equipe de transição que já respondeu a três processos por violência doméstica , “não vai ter cargo no governo”.

De acordo com a publicação, questionado pela imprensa sobre o assunto, Mourão – que foi ao Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), onde funciona o gabinete de transição discutir o formato de sua futura equipe – afirmou que as acusações não causam constrangimento ao novo governo, mas que Julian Lemos foi eleito deputado federal e participará apenas da transição – ele é vice-presidente nacional do partido e presidente do diretório paraibano da legenda. Na ficha de Lemos, que coordenou a campanha de Bolsonaro no Nordeste, consta uma condenação por estelionato em primeira instância em 2011, que prescreveu antes de novo julgamento, e três processos por violência doméstica entre os anos de 2013 e 2016.

“O Julian foi deputado. Já passou, essa história já é conhecida. Isso é fato antigo, conhecido. Não sei até porque que só saiu agora. Aí a imprensa como um todo já sabia disso. Ele é da equipe de transição, mas não vai ter cargo no governo. Só faz parte da equipe”, afirmou Mourão, completa o Jornal O Globo.

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