27 de nov de 2018

Cuba desmente declarações de Bolsonaro, questiona contradições e relembra histórico




O Ministério de Relações Exteriores de Cuba desmentiu as afirmações do futuro presidente Jair Bolsonaro, entre elas, a de que havia sido negociada uma mudança no programa Mais Médicos. Em transmissão ao vivo, a diretora de Comunicação da pasta, Yaira Jiménez Roig, afirmou que Cuba não foi procurada em nenhum momento pela equipe de transição de Bolsonaro para manter a parceria.

"Asseguro que nenhum membro da equipe de transição [de Jair Bolsonaro] tem informado ao Ministério de Saúde Pública de Cuba o interesse de ter uma troca de ideias sobre o Termo de Cooperação vigente, o que indica que o propósito do presidente eleito não é manter o programa, mas eliminá-lo", afirmou, durante as declarações.

Jiménez ainda ressaltou as contradições do presidente eleito, que "durante anos", enquanto deputado, "encarregou-se de criticar e propor medidas" contra "os médicos cubanos". 

Entre as medidas de Bolsonaro como deputado, a porta-voz das Relações Exteriores de Cuba destacou que "resulta curioso" que agora, como presidente eleito, ele se preocupe pela família dos cubanos, uma vez que em 2016, "sendo ele parlamentar, introduziu uma proposta de emenda no intuito de impedir, custasse o que custar", que familiares dos médicos pudessem se instalar no Brasil". 

O objetivo do até então deputado, segundo ela, era a retirada completa dos médicos cubanos. 

"Evidentemente, o presidente eleito, com suas contradições, demonstra que, na verdade, deseja terminar com a presença dos profissionais cubanos", continuou.

Como exemplo, citou os discursos do presidente eleito que exige um teste da qualificação dos médicos cubanos para atuar na saúde brasileira, mas, ao mesmo tempo, oferece a eles um asilo político automático, sem consultar Cuba ou sequer verificar a então questionada qualificação dos profissionais.  "Ou seja, para continuar trabalhando, Bolsonaro exige aos nossos médicos um teste; e para o show político lhes oferece um cheque em branco, sem importar-se então se é um profissional qualificado", criticou.

"É muito pouco sério este comportamento e bem preocupante para nossas autoridades e nosso pessoal médico. Não podemos confiar em que nossos médicos fiquem em segurança nesse ambiente pleno de incertezas, com um governo de duvidoso profissionalismo e que não deseja manter este humanitário programa, pleno de formosas histórias de vida", concluiu.

Ainda, a diretora de Relações Exteriores recorreu ao histórico do programa Mais Médicos e da parceria feita junto a Cuba para o exito do programa. Ressaltou que mesmo "apos o golpe à Presidente Dilma Rousseff", o país manteve a sua palavra no acordo, dando sequência a ele, "cumprindo as condições pactuadas pelas partes".

Disse que diante das declarações de Bolsonaro, faltaria relembrar um pouco da história e do contexto. "Portanto, desminto igualmente as insinuações que atribuem a presença de médicos cubanos dentro do programa a preferências políticas ou ideológicas com algum partido."

Nessa linha, ressaltou que "nunca um médico cubano perguntou de que partido era um brasileiro quando recorreu à sua consulta" e que "nunca um médico cubano se importou com o partido político a que pertencia a autoridade de saúde que o dirigia". "Nossos médicos são mais do que médicos, são seres humanos que saram e curam as pessoas que precisam disso, em qualquer parte do mundo.

"A maioria dos nossos profissionais está sendo despedida com carinho e tristeza por autoridades locais de saúde, autoridades administrativas e políticas e, sobretudo, pelo povo brasileiro que recorria a suas consultas", lembrou, mencionando como exemplo a história do médico Arnaldo Cedeño Núñez, que desde 2016 atendia a crianças indígenas Apalai Waiana no Brasil, com "todo o seu amor", "lhes ensinou a dançar e a cantar, a que entendessem nossa cultura".

"Isso só é feito por nossos médicos. Com eles estão chegando a Cuba nesses dias milhares de histórias que vale a pena partilhar", contou, em tom emocionado, antes de completar: "Não acho que Bolsonaro conheça histórias como estas. Convidamos a imprensa brasileira e internacional a que se aproxime dessas histórias para compreender que os mais afetados são os milhões de brasileiros que podiam dispor de atendimento graças aos médicos cubanos."

Patrícia Faermann
No GGN

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