13 de nov de 2018

Como lidar com um presidente de extrema-direita

Ilustração: Flora Próspero
Jornalistas da VICE de países que têm ou já tiveram presidentes toscos nos dão suas dicas de como lidar com essa situação já que o Bolsonaro ganhou a eleição.

Bom, já era. Quer você tenha se acostumado ou não, agora é isso, o Boca de Sacola é o presidente eleito no Brasil. Saque o que nossos colegas ao redor do mundo que lidam ou já lidaram com isso têm a nos dizer a respeito duma desgraçada dessas.

REINO UNIDO

Então vocês decidiram eleger um fascista. Não foram os primeiros – no Reino Unido decidimos rasgar o país em duas tribos opostas dois anos atrás, votando pelo Brexit, que era tipo um movimento político de “catástrofe na forma de esperança” que tem sementes enterradas bem fundo no discurso da direita. E parece que o resto do mundo encontrou sua própria força infernal conservadora. Lendo aqui e ali, seu caso... seu caso é muito ruim, mesmo em se tratando de fascismo. Tipo: ruim demais! Um negócio aterrorizante para a oitava maior força econômica do mundo!

Quanto a conselhos: bom, é difícil ser muito otimista agora, desculpe. As próximas duas semanas vão ser tipo um choque amorfo. Aí você vai notar as coisas mudando: encorajadas pela vitória nas urnas, as pessoas vão começar a gritar discursos de ódio passando de carro, vai ter mais incidentes de violência e assédio, e tudo toma uma forma sombria e quebradiça. Por outro lado você vai ver muito mais fascistas sendo convidados para bancar os especialistas em programas matinais e telejornais. Por mais tentador que seja fazer isso em nome de “ouvir os dois lados”, não dê voz pra essa gente!

Depois de um tempo, o estado do discurso público vai parecer aquela dor de dente repentina nas primeiras horas do dia em que você acorda com ela: quando você está na cama, chorando no travesseiro, parecer a maior agonia do mundo, né? Algo de que você não vai conseguir sair, algo que você nunca vai conseguir superar. Aí já são 14h e você não está exatamente confortável, mas está aguentando firme com a boca cheia de algodão e saliva. Agora percebi que essa não foi muito uma mensagem de esperança, exatamente. Mas ei: pelo menos vocês não estão sozinhos. – Joel Golby, redação da VICE Reino Unido.

EUA

Queria poder dar conselhos, mas a verdade é que os EUA teve muita sorte em se tratando de líderes da direita. Claro, Trump tem seus impulsos autoritários – veja as piadas dele sobre prender seus oponentes – mas como tudo mais nele, essas tendências são principalmente para se exibir. Ele é incompetente demais para consolidar o poder mesmo se quisesse, e as instituições construídas em mais de 200 anos de democracia nos EUA vão continuar aqui quando ele se for, mesmo se estiverem num estado pior. Digo isso sem querer minimizar nada do que Trump fez, mas ele é decididamente uma ameaça menos real do que líderes em países onde violência política generalizada, prisões em massa e um tobogã para a ditadura são uma possibilidade real.

Nos EUA, a mídia vem cobrindo Trump agressivamente e documentando toda a corrupção, incompetência e posições extremas que marcam sua administração. As pessoas lembram umas as outras que “isso não é normal”; um mantra contra aceitar o Trumpismo como o novo status quo – é muito fácil ser cínico e dar de ombros enquanto um líder extremista adota posições cada vez mais agressivas. A esquerda parece estar se reenergizando, e a oposição tem ser organizado usando uma série de ferramentas online para ajudar as pessoas a doar tempo e dinheiro estrategicamente. Tudo isso parece que vai valer a pena nas eleições de meio de mandato, onde os democratas devem retomar pelo menos uma parte do Congresso e colocar Trump em seu lugar. A única resposta possível é tentar interessar o maior número de pessoas no que está acontecendo com o país, fazer as pessoas votarem e participarem democraticamente para fazer uma minoria de extrema-direita recuar, por mais vocal que ela seja.

Pelo menos parece que é isso que está funcionando nos EUA – mas novamente, os EUA ainda são uma democracia estável onde votos contam. Em lugares onde líderes de direita não só sobem ao poder mas tentam mantê-lo através de fraude eleitoral, violência e ignorando a constituição... Não faço ideia do que poderia funcionar. Talvez a melhor coisa que você possa fazer é documentar o que está acontecendo, e esperar que o mundo preste atenção. – Harry Cheadle, editor sênior da VICE EUA



ALEMANHA

Os alemães não são as melhores pessoas para dar conselhos sobre isso, óbvio. Temos muita experiência com fascistas liderando nosso país, mas sabemos muito pouco sobre como se livrar deles. (O maior exército já formado na história da humanidade teve que vir aqui e fazer isso pra gente.)

Mas isso não significa que você não pode aprender com os erros dos alemães. A maior dica, acho, é: não espere até ser tarde demais, e não se canse em lutas internas mesquinhas. Se organize. Forje alianças, mesmo entre divisões ideológicas. Eduque as pessoas – especialmente os eleitores dele – sobre por que isso também vai ser ruim para eles. E acima de tudo: não desista. – Matern Boeselager, repórter da VICE Alemanha

RÔMENIA

Sim, sua situação parece bem ruim. E você – sim, você! – uma pessoa decente e não-fascista, provavelmente se sente cercada por um exército de extremistas sorridentes. Sabemos como é. A boa notícia é que vocês não estão sozinhos. A Romênia vem lidando com algo similar nos últimos dois anos. Aqui vai o que aprendemos:

Aumente sua indignação com protestos. Fique – não arrede o pé: somos um dos países mais corruptos e disfuncionais da Europa, tudo graças ao partido no poder, o PSD, e seu Líder Supremo, Liviu Dragnea. O governo dele fez um decreto que efetivamente legalizaria a corrupção, transformando a Romênia num paraíso para déspotas gananciosos. O plano desencadeou as maiores manifestações que a Romênia já viu literalmente desde a revolução 30 anos atrás.

*Quando falo “não arrede o pé”, não quero dizer literalmente. Lembre de se cuidar – tome um chocolate quente ou um drinque com o crush.

Pense fora da caixa: Dragnea não só é (supostamente) supercorrupto, ele também curte uma intolerância. Recentemente ele realizou um plebiscito que faria uma emenda na constituição para proibir o casamento gay. Para combater isso, os jovens boicotaram em massa o plebiscito, conseguindo derrubar a participação para menos de 30%, tornando o resultado inválido. Não estamos recomendando não votar, claro, mas que você tenha uma tática – procedural ou de outra natureza – para atolar esses escrotos. Mas seja lá o que fizer, não desista. Você está lendo isto na VICE.com, você já tem um papel na resistência – Mihnea Lazăr, repórter colaboradora da VICE Romênia

ITÁLIA

Confie em mim, estamos no mesmo barco aqui. Nosso vice-primeiro-ministro, Matteo Salvini – que também é Ministro do Interior e líder do partido de extrema-direita Lega – foi o primeiro líder europeu a parabenizar Bolsonaro.

Salvini pode não admitir ser tão extremo quanto Bolsonaro, mas os dois compartilham muitas ideias. Os dois partidos populistas liderando agora nosso país estão dando voz para algumas ideias pouco saudáveis e reacionárias. No momento, o foco deles é aprovar leis anti-imigração, e em nível local, os representantes do Lega estão fazendo campanha contra o aborto e o casamento gay. E segundo as pesquisas, os eleitores italianos não veem problema nisso.

Enquanto nossos partidos de esquerda estão sendo abandonados para morrer, movimentos de base estão em ascensão e finalmente encontraram suas vozes – desafiando o governo nas ruas, nos locais de trabalho e na internet. Você deve fazer o mesmo, mas não demore tanto quanto nós. Felizmente, tem gente tentando acabar com o racismo, a misoginia e a homofobia desse governo. Onde quer que você esteja, se comprometa a dar voz para esses esforços, e focar meticulosamente em todas as merdas – grandes ou pequenas – acontecendo, sem permitir que fascistas tenham passe livre para fazer propaganda. – Leonardo Bianchi, editor de notícias da VICE Itália

POLÔNIA

Pode não parecer agora, mas com cidadania ativa as coisas podem melhorar. Um ano atrás no Dia da Independência, cerca de 60 mil pessoas marcharam pelas ruas de Varsóvia para apoiar um evento organizado por grupos poloneses de nacionalismo extremo. Os participantes tinham cartazes dizendo “A Europa será branca ou será vazia”, enquanto palavras de ordem antissemitas e racistas enchiam o ar. Bônus: falando sobre o evento, nosso ministro do interior, Mariusz Błaszczak, disse que estava orgulhoso de que “tantos poloneses decidiram participar”.

Mas este ano, o presidente Andrzej Duda e o partido no poder se distanciaram do evento, graças a todas as manifestações antifascistas que aconteceram no país desde então. São em pequenas vitórias que você deve procurar esperança de um amanhã melhor, livre de ódio e preconceito.

Quando um estudante encontrou panfletos pró-fascismo na Universidade de Varsóvia ano passado, eles formaram um grupo chamado Comitê Estudantil Antifascista. O objetivo deles era coletar e registrar queixas sobre exemplos de retórica machista, homofóbica e fascista na universidade, bloquear atitudes fascistas e educar os colegas sobre os perigos do fascismo. Como esses caras, você precisa sair do seu caminho para provar que acredita num mundo livre e tolerante. – Pawel Mączewski, editor-chefe da VICE Polônia

FILIPINAS

Seu novo presidente é muito parecido com o nosso: Rodrigo Duterte e Jair Bolsonaro são misóginos, os dois polarizaram as pessoas, e nenhum deles têm respeito pelos direitos humanos.

Agora estamos no terceiro ano da presidência de Duterte e tenho que te avisar, só piora.

Discussões nas redes sociais e fake news vão se intensificar. As lealdades das pessoas – mesmo de parentes e amigos – vão te surpreender. E se ele manter suas promessas de campanha como o nosso presidente fez, muito sangue vai ser derramado e muitas vidas serão perdidas. Se prepare para os próximos anos e a montanha-russa emocional: você vai se decepcionar, ficar puto e com vergonha. Mas agora é hora de ser vigilante, corajoso e crítico. Fale – online e offline. Proteja a independência da mídia. Se mantenha firme na defesa da democracia. Não se acostume com o discurso de ódio, a crueldade e o desrespeito com a vida humana.

Lembre-se que toda as emoções que você sentir, preocupação, frustração, são porque você se importa muito com o Brasil e seu povo. Como nós aqui nas Filipinas. Vai ser exaustivo. Já ouvi muita gente dizer “Não leio mais o jornal porque é estressante” ou “Parei de ler os comentários no Facebook”. Isso é o pior que você pode fazer – parar de se importar. Emoções geram mudanças. Sinta, se importe e continue lutando. – Natashya Gutierrez, chefe de estratégia de conteúdo da VICE Ásia-Pacífico

No Vice

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