5 de nov de 2018

Bolsonaro levaria zero na prova do Enem

Não se assuste se ele abolir a redação da avaliação dos alunos do ensino médio


“Agora acordei para o mundo. Eu estava dormindo antes. Foi assim que deixamos acontecer. Quando exterminaram o Congresso. Quando culparam os terroristas e suspenderam a Constituição, também não acordamos. Disseram que seria temporário. Nada muda instantaneamente. (… )”.

Trecho de fala da atriz Elizabeth Moss, protagonista e co-produtora da série ‘O Conto da Aia’, série distópica baseada em livro homônimo de Margareth Atwood. Temporada 1.

A redação do Enem 2018 – o Exame Nacional do Ensino Médio, o maior vestibular do Brasil, utilizado para avaliar a qualidade do ensino médio no país e porta de entrada para acesso ao ensino superior em universidades públicas brasileiras – teve como tema a “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. O tema não surpreendeu professores, que apostavam em uma redação girando em torno de fake news, um dos temas mais polêmicos da campanha. Acabou sendo ainda mais amplo. O Enem deu a estudantes – muitos certamente eleitores de Jair Bolsonaro – a chance de discorrer sobre algoritmos, mídias sociais, manipulação, catarse cibernética. Nada mais apropriado. O ditador eleito montou uma ‘Fantástica Fábrica de Fake News‘, denunciada pela Folha de S.Paulo, nas mídias sociais e especialmente no Whatsapp, uma rede que gera muita confiança porque são pessoas próximas a elas que mandam as notícias. O objetivo de Bolsonaro foi alcançado: fomentar uma grande campanha de ódio contra o PT nas últimas semanas da campanha e financiadas por empresários amigos do “mito”. O TSE ficou petrificado. A Procuradoria-Geral da República, idem. Quanto ao Enem, às vésperas de um governo de ultradireita, que defende a “escola sem partido” e estimula o macarthismo por alunos, denunciando professores “comunistas”, não se surpreenda se acabar ou abolir a Redação das provas obrigatórias.

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Empreendedores ricos, Luciano Hang (esq) e  Mário Gazin (dir), típicos ricaços sovinas, gravaram vídeo de apoio a Bolsonaro, em que Gazin admitiu Caixa 2 e disse que não aguentava mais gastar na campanha de Bolsonaro. Deve ter valido a pena.

No ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), um dos filhotes do Coiso, publicou nas redes sociais uma foto do pai segurando uma camisa com a frase: “Direitos humanos esterco da vagabundagem”. Na legenda, o vereador sugeriu que a frase se torne tema para a redação do Enem se o pai “for eleito presidente”.

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No ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro, um dos filhotes do ditador eleito, publicou nas redes sociais uma foto do pai segurando uma camisa com a frase: “Direitos humanos esterco da vagabundagem”. Na legenda, o vereador sugeriu que a frase se torne tema para a redação do Enem se o pai “for eleito presidente”. Bom, o tema acabou sendo “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Tomou, Papudo!

Se, redigindo, Bolsonaro já teria dificuldade de explicar, em palavras, o serviço sujo que delegou, por caixa 2, a empresas, responsáveis por fabricar e impulsionar fake news – vamos combinar que o forte do ex-capitão não são as palavras -, certamente o ultradireitista tiraria zero na prova de Redação, já que quem escreve textos que firam os direitos humanos pode perder até 200 dos 1 mil pontos possíveis. Imagine Bolsonaro, um homofóbico, misógino, preconceituoso, anti-direitos sociais e trabalhistas, defensor da ditadura de 64, que tem como ídolo o torturador Brilhante Ustra, escrevendo sem ferir a gramática, nem os direitos humanos. Não passaria do primeiro parágrafo.

Encagaçado, o ministro da Educação de Temer (quem?), um certo Rossieli Soares (quem??) teve, imagine só, que vir a público para dizer que o tema da edição de 2018 foi escolhido há quatro meses pelos técnicos do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). A campanha eleitoral teve início em 16 de agosto. No primeiro dia do Enem, os candidatos fizeram também provas de Ciências Humanas e Linguagens, onde apareceram tópicos como feminismo, nazismo, escravidão, regime militar, crise de refugiados, entre outros. Na prova de Linguagens, uma pergunta abordava um dicionário criado somente para o vocabulário usado por travestis — a questão pedia que os candidatos decodificasse o que era dito. Bolsonaro, não pense que estou brincando, pode acabar querendo impugnar o Enem por ser parte do inventado kit gay uma de suas fake news da campanha.

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Cenas gays do filme “Bohemian Rhapsody”, que conta a história do mito Freddie Mercury, vocalista e líder da banda Queen, estão sendo vaiadas (!) nos cinemas brasileiras. O descontentamento invadiu a Internet. Será que esse público não conhecia nem um pouquinho da história do Freddie?

E para não dizer que não falei de ódio, depois das vaias à lenda do rock Roger Waters, o ex-Pink Floyd, que exibiu em sua turnê no Brasil o #Elenão e o #Resist em um protesto contra a inescapável eleição de Bolsonaro, dessa vez quem teve a memória desrespeitada foi o cantor Freddie Mercury, vocalista e líder da banda Queen, que morreu de Aids em 1991, aos 45 anos de idade. Um dos filmes mais aguardados do ano, ‘Bohemian Rhapsody‘ chegou aos cinemas brasileiros na última semana, contando sua biografia. Se por um lado os fãs do grupo saíram extasiados da sala, outra parte dos espectadores brasileiros vaiaram (!) cenas homoafetivas exibidas no longa. E o descontentamento invadiu a Internet. Será que esse público não conhecia nem um pouquinho da história do Freddie? É de dar muita vergonha – e medo. Eu vejo “O Conto da Aia” e cada vez mais enxergo o Brasil.

Ricardo Miranda

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