24 de nov de 2018

As barbas de Marx e as revoltas antipolíticas


Quando me remeti as falas de Vladimir Safatle e Gleisi Hoffmann, nos dois textos anteriores, partindo de entrevistas que ambos concederam, pude perceber um ponto em comum: ambos escolhiam o momento da redemocratização: para Gleisi, iniciava-se ali o período mais longo da democracia brasileira em seus 500 anos de história; para Safatle, não houve um ajuste de contas com a ditadura militar, como viria a acontecer na Argentina e no Chile, e o maior exemplo foi a lei de anistia, o que propiciou a volta dos fantasmas. Ainda que constatemos, entre o político e o filósofo, perspectivas diferentes, o ponto de onde partem é o mesmo. A escolha do ponto de partida é sempre revelador.

Queria dar agora um outro exemplo de perspectiva política, cujo ponto de partida não é mais o período da redemocratização (A Nova República ou a constituição de 88). Estou me referindo a Bruno Cava, engenheiro, mestre em Direito na linha de pesquisa Teoria e Filosofia do Direito, blogueiro, ativista nas jornadas de 2013 e nas ocupações de 2011 e 2012, participante da rede Universidade Nômade e coeditor das revistas Lugar Comum e Global Brasil. Seu texto, "o 18 de brumário brasileiro", escolhe um outro ponto de partida: as jornadas de junho de 2013.

É curioso que quando me remeto a esse período, me lembro de fatos aos quais eu estive ligado. Em primeiro lugar, a ojeriza que sentia por Sérgio Cabral e Eduardo Paes, ainda que me sentisse ligado ao PT. Naquele momento, nas manifestações de rua, pelo menos no Rio de Janeiro, sentia que o inimigo número 1 era mais o estado e o município, do que propriamente o governo federal. A outra questão era como barrar determinadas PECs que seriam votadas no congresso. Me lembro de um grande amigo que odiava o PT, mas era a favor das ocupações das escolas. Ou seja, tanto as ocupações quanto as jornadas eram formadas por uma combinatória de forças que muitas vezes se contradiziam. Nesse sentido, acho interessante que Cava remeta a Deleuze, ainda que, no frigir dos ovos, e ao contrário do que consta na introdução, a barba de Marx tenha se mantida intacta.

Naturalmente há uma diferença entre a análise materialista marxista e o método de dramatização deleuziano.

No primeiro caso, como consta no clássico "O 18 de Brumário de Luís Bonaparte", a teoria da repetição histórica está a serviço do modo de teatralização das forças em jogo nas representações. No caso da Revolução Francesa, de 1789, o passado glorioso do Império Romano é repetido, mas sem pressão em relação à tradição e através de um processo violento, próprio das forças de transformação histórica, que faz produzir o novo. O importante é que a burguesia terá uma boa relação com a luta de classes, o que dá à Revolução Francesa o caráter de uma repetição trágica. O contrário se verifica no período pós 1848, quando a revolução francesa é reencenada (cópia da cópia), momento em que a força motriz do levante operário em junho de 1848 é expulso - é a má relação da burguesia com a luta de classe, gerando uma repetição cômica.

Já em Deleuze, a teoria da repetição histórica deixa de estar ligada aos gêneros de representação (tragédia e comédia) e sim ao processo dinâmico de aumento e redução de potência. Nesse caso, a farsa (o passado como solo em que os personagens se movem) teria um grau mínimo de potência, enquanto a tragédia um grau máximo (potência de tudo que determinado personagem pode - afirmação do novo). Já o drama é o tempo do evento, a criação do novo, o eterno retorno de Nietzsche - percebe-se que no esquema deleuziano a relação com o tempo do evento é que vai vincular o tipo de posicionamento intensivo, farsa ou tragédia, e não a seleção do gênero como se fosse uma decisão individual da vontade, própria do pensamento burguês iluminista e hegeliano. Mas a fundamental diferença entre a análise materialista marxista e o método deleuziano, é que no primeiro caso, há de início o teatro das forças e depois o teatro das sombras: as chacinas de 1848 (tragédia) e depois o registro paródico do encadeamento dos fatos, pós 1848 (farsa). No caso de Deleuze, há uma ética das repetições históricas na direção da transformação da historicidade (primeiro a farsa, depois a tragédia).

Para Cava, que constrói um paralelo entre o 18 de Brumário francês (o levante de junho de 1848/ a restauração/ o golpe de estado de Luis Bonaparte) e o brasileiro (as jornadas de junho de 2013/ a pacificação e o ajuste/ o impeachment de Dilma), as análises catastróficas, tanto das facções da burguesia francesa golpeada, quanto dos petistas e seus aliados, vão estar dentro de uma perspectiva linear da história, segundo a qual, uns representam o progresso e outros o retrocesso. Nesse sentido, os golpeados vão interpretar a repetição como um retrocesso. 

No entanto, pelo processo de dramatização, a posição dos personagens não é fruto de escolha individual, mas resultado da coordenada das forças reais que movem a história (distância entre elas e suas respectivas intensidades). Caberia, então, reconstruir o teatro das forças e verificar de que maneira essa cartografia de forças precipita os acontecimentos segundo uma tendência cômica, no pós 1848 ou no pós 2013 (ainda que as jornadas de 2013 tenham sido pacificadas, elas continuariam a assombrar a cena e seus personagens como uma figura espectral). 

Entre o Partido da Ordem, do qual faz parte a casta política, e a República policial-judicial de Curitiba,  haveria, segundo Cava, muitos pontos em comum. Mas, sobretudo, os métodos antidemocráticos: se o primeiro tomou medidas de exceção contra as jornadas de junho, a segunda decretou estado de exceção contra o primeiro. É como se a farsa da política partidária e seu respectivo deserto abrisse caminho ou fosse condição de possibilidade para a normalidade da gestão policial-biopolítica.  Como se o Partido da Ordem, fazendo da política um deserto, tornasse possível a República policial-judicial de Curitiba, que não quer o Partido da Ordem, mas a ordem. Se a jornada de junho é apolítica, a Lava-Jato também o é, mas não por um processo de repetição; antes, por um processo de continuação por outros meios, a linha de atualização anticorrupção expressa nas passeatas verde-amarelo de 2015-2016. Dessa forma, reduz-se junho a uma linha narrativa e evolutiva que explode com o Mensalão em 2005-2006 e depois procede em fogo lento até chegar na prisão de Dirceu pelo STF em 2012. Nesse sentido, os tempos das guerras de narrativas, que se deram pós jornada de 2013 sob os auspícios da Partido da Ordem, e os tempos dos togados têm profundas relações: ambos são farsas.

Além de compreender os acontecimentos pelas forças subjetivas que animam ou desanimam o presente, há como interiorizar as linhas de força na própria análise, como uma espécie de ferramenta para a intervenção: multiplicando as linhas temporais e selecionando-as na medida em que toquem a repetição dramática, a potência terrível do evento.

Ao final de seu longo ensaio, Cava considera o evento, no século XXI, como o tempo de indeterminação, imprevisível e sincrônico (no século XIX, viria ligado à revolução e ao futuro). Com isso, o evento hoje enfrentaria as imagens idealizantes, que parodiam a história, assim como estaríamos condenados a revoltas antipolíticas e desconjuntadas para desordenar o futuro engendrado na sala de máquinas. Dramatizar a conjuntura, no entanto, seria a aposta do autor na saída da crise, esta entendida como o ponto decisivo na borda do possível, onde se poderia intervir, empurrando os antagonismos para a mudança efetiva, onde se poderia fazer história. Ao final, a impressão que se tem é que, por mais que Deleuze tenha tentado transformar a barba de Marx no bigode de Nietzsche, a barba de Marx cobriu tudo.

Rogério Skylab é músico, compositor e poeta

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