28 de nov de 2018

Agência Xeque e a cobertura da Lava Jato


Um tempo atrás, em um evento em Tiradentes organizado pelo saudoso Audálio Dantas, uma mesa discutiu a cobertura da mídia para a Lava Jato. Quando critiquei, uma colega desafiou: “O que você faria se estivesse em um jornal?”.

A resposta era simples: Jornalismo! Deixar de ser mero publicador de releases da Lava Jato e passar a fazer jornalismo.

Nos artigos sobre Otávio Frias Filho, quando morreu, havia várias menções ao seu incômodo com a atitude passiva da cobertura da Lava Jato.

O que significa fazer jornalismo? Primeiro, ir atrás de temas relegados pela Lava Jato. Como diz o bordão, notícia é tudo aquilo que não querem que seja divulgado.

Depois, proceder a duas checagens sistemáticas: a verossimilhança das narrativas da Lava Jato (especialmente dos valores da corrupção divulgados) e a fundamentação jurídica de suas ações.

Vamos a alguns casos recentes.

1 - O suposto superfaturamento do prédio da Petrobras em Salvador

Segundo matérias de ontem, o superfaturamento foi gigantesco. E a contrapartida foi uma propina de 0,75% do valor da obra ao ex-presidente da Petrus, o fundo de pensão dos petroleiros, que investiu no projeto.

Ora, o investidor avalia taxa interna de retorno dos investimentos. Ele não se imiscui em analises técnicas sobre o projeto. É evidente que a propina foi paga pela ajuda na adesão do Petrus ao projeto. Se houve superfaturamento, a leniência foi de outros departamentos.

Ora, diriam os idiotas da objetividade, é tudo propina. Ora, o papel da imprensa é apenas divulgar a denúncia ou zelar pela correção das informações?

É até possível que a Operação tenha os laudos estimando o mega-super-faturamento. Mas não foram divulgados. E, mesmo sendo divulgados, têm que ser submetidos à avaliação de especialistas independentes.

É só conferir o carnaval que a imprensa fez com o ajuste na contabilidade da Petrobras – visando adequá-lo ao novo cenário de preços de combustíveis. Um mero ajuste contábil, no valor de R$ 20 bilhões, foi apresentado como sendo o custo da corrupção na empresa.

2 - A última denúncia contra Lula

A Lava Jato de São Paulo denunciou Lula por um trabalho de lobby junto ao presidente da Guiné, em favor de uma empresa de engenharia brasileira. O fato teria ocorrido em 2011. Portanto, quando Lula não mais ocupava a presidência da República. Não envolveu recursos públicos brasileiros.

A Lava Jato se baseou em um item do Código Penal, que menciona corrupção de autoridades estrangeiras no exercício do cargo. Não há nenhum sinal de recursos envolvidos, de suborno. Lula se vale exclusivamente de seu prestígio pessoal. A empreiteira faz uma doação de R$ 1 milhão para outra pessoa física, o Instituto Lula – que tem contabilidade totalmente independente, não se misturando com as contas pessoais de Lula.

Não houve uma reportagem sequer dando voz a especialistas para questionar a legalidade da denúncia. Ainda mais sabendo-se que denúncias não são medidas neutras, mesmo que rejeitadas pelo Judiciário. São decisões com implicações políticas, que deixam vítimas pelo caminho.

3 - A legalidade relativa

As ameaças implícitas do governo Bolsonaro foram rechaçadas pela mídia. Nunca se pronunciou com tanta ênfase a palavra democracia, direitos humanos, liberdade de imprensa. Mas, ao mesmo tempo, a própria mídia continua praticando o direito penal do inimigo. Aos amigos, o respeito integral às leis e aos direitos. Aos inimigos, a punição sem direitos. E ainda se surpreendem com a ascensão do espírito Bolsonaro.

Nos últimos tempos, há uma corrida louca da grande mídia para recuperar a aparência de isenção, para conferir um mínimo de objetividade à cobertura, para garantir algum pluralismo nas matérias.

Mas são medidas paliativas porque falta o essencial: o respeito absoluto aos princípios, à impessoalidade do julgamento, aos direitos fundamentais.

Luís Nassif
No GGN

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