19 de nov de 2018

Adorno sintetiza o modus operandi da vitória de Bolsonaro


Valendo-se da teoria freudiana para explicar o padrão da propaganda fascista, Adorno, no artigo “A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista”, apresenta elementos que nos levam a compreender a campanha e, evidentemente, os sustentáculos da vitória de Bolsonaro.

Antes de entrar na discussão adorniana propriamente dita, externo que, desde o início, assim que o presidente eleito começou a influenciar as massas a partir das virtualidades da existência, de imediato, independente de minha posição política, percebi que um fenômeno estava em marcha, em construção, e que a esquerda precisava ter aprendido com ele, só que ao reverso, evidentemente, por meio de outras lógicas argumentativas, sustentáveis, para desconstruí-lo junto às massas. Nesse sentido, a esquerda perdeu uma oportunidade de fazer marketing político na contramão da arquitetura bolsominiun, para frear o fenômeno que povoaria imaginários pelos mais diversos rincões brasileiros concretos e virtuais, no social das geografias das lutas diárias, no facebook, no twitter e em outras redes sociais em geral, espaços que, segundo Umberto Eco, grande pensador italiano, deram voz aos imbecis.

O fato é que o tal eleito soube se projetar a partir do que ia percebendo em parte da sociedade, em seu público-alvo, e se aproveitou das ondas de desinformação, de lacunas de leitura, de incompetências de interpretação informativa de seus sequazes repetidores de discursividades agressivas contra as minorias para a cartada de mestre, colocando-se como mito, o salvador para as cabeças fracas da nação, ludibriadas pela ideia repetida pela mídia tradicional e por outros meios de comunicação na internet de que a corrupção nascera no PT e que somente o sem papa na língua poderia salvá-los libertando-os do julgo petista, à exaustão, para cansar o intelecto até mesmo dos cognitivamente com algum nível de leitura e de pesquisa.

Ele não somente compreendeu os anseios e medos de parte das massas, como também, de forma persuasiva e incisiva, soube construir e executar uma agenda conservadora que o colocasse na posição de ídolo e messias dos valores umbilicais da dita família tradicional, religiosa e/ou gananciosa na base.

Para a execução da agenda, ele se fez de agitador político-social, o pai das declarações mais infelizes que meus ouvidos cansados já escutaram nesse imenso país.

Para compreender a questão anterior, basta intelectar a ideia de Adorno de que a maioria esmagadora das declarações dos agitadores é dirigida ad hominem e é, obviamente, baseada mais em cálculos psicológicos do que na intenção de conseguir seguidores por meio da expressão racional de objetivos racionais.

Bolsonaro desempenhou, a todo o tempo, ao longo da campanha, e bem antes disso, eu diria que logo após a vitória de Dilma, em 2014, o papel de agitador político e social, interferindo na compreensão de um enorme grupo social que foi se avolumando na medida em que as eleições de 2018 se aproximavam e Lula era desconstruído, com o suporte do judiciário partidário, pela mídia empresarial a serviço da elite do atraso.

Com relação ao papel de agitador, é profícuo entender o que Adorno afirma no texto de partida para esta reflexão que tento, com medo, esboçar para o Desacato, o termo “incitador da turba”, apesar de censurável, por seu desprezo inerente pelas massas, é, em boa medida, adequado, já que expressa a atmosfera de agressividade emocional irracional propositadamente promovida por nossos pretensos hitleristas. Se é desrespeitoso chamar as pessoas de “turba”, é precisamente o objetivo do agitador transformar essas mesmas pessoas em uma “turba”, isto é, em uma multidão inclinada à ação violenta sem nenhum objetivo político sensato, e criar a atmosfera do pogrom. O propósito universal desses agitadores é instigar metodicamente o que, desde o famoso livro de Gustave Le Bon, é comumente conhecido como “psicologia das massas”.

Ainda no tocante ao termo agitador, com base em suas metodologias e métodos para convencer as massas, para a compreensão do mito e de sua arquitetura político-mental, é imprescindível recorrer a Adorno, a partir da discussão que ele faz com suporte na teoria Freudiana, para compreender a ideia de que o método dos agitadores é verdadeiramente sistemático e segue um padrão rigidamente estabelecido de “dispositivos” definidos. Isso não se liga apenas à unidade fundamental do propósito político – a abolição da democracia mediante o apoio de massa contra o princípio democrático –, mas, mais ainda, à natureza intrínseca do conteúdo e da apresentação da própria propaganda.

Diferente da maior parte da esquerda, que prefere a propaganda arvorada em argumentos sólidos e consistentes a cair na fragilidade discursiva dos estereótipos, das generalizações e da agressividade, a campanha do candidato eleito escorou-se naquilo que fortalece e favorece o fascismo, pois, para Adorno, seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais e sua propaganda deve, necessariamente, ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos.

Além desse modus operandi, segundo Adorno, à medida que a rigidez mecânica do padrão é óbvia e ela mesma expressão de certos aspectos psicológicos da mentalidade fascista, não se pode evitar o sentimento de que o material de propaganda de tipo fascista forma uma unidade estrutural com uma concepção comum total, consciente ou inconsciente, que determina cada palavra que é dita. Essa unidade estrutural parece se referir à concepção política implícita tanto quanto à essência psicológica.

Bolsonaro e toda a equipe por trás dele, sustentando-se no ódio da Psicologia de Massa, pintou e bordou em torno da incitação, das inversões semânticas para, logo em seguida, tentar silenciar os sentidos proferidos dando a ideia de que o que disse, em determinados momentos de sua longa campanha, não é racismo, não é machismo, não é homofobia, muito menos misoginia ou quaisquer outras formas de preconceito e de estigma, em construções semântico-discursivas bizarras em vociferações como: “O erro da ditadura foi torturar e não matar” (entrevista à rádio Jovem Pan, junho de 2016)1, – “No período da ditadura, deviam ter fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique, o que seria um grande ganho para a Nação” (maio de 1999, declarações difundidas pela TV Bandeirantes.)1, “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”, disse Bolsonaro.1, – “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”, disse em comício no dia 1º de setembro em Rio Branco. Logo depois, sua assessoria declarou que “foi uma brincadeira, como sempre”.1, – “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias” (encontro na Paraíba, fevereiro de 2017).1, – “Eu fui num quilombo em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles” (Em palestra no Clube Hebraica, abril de 2017). – “Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu” (À cantora Preta Gil, quando questionado sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma negra, em março de 2011)1, – “Eu tenho pena do empresário no Brasil, porque é uma desgraça você ser patrão no nosso país, com tantos direitos trabalhistas. Entre um homem e uma mulher jovem, o que o empresário pensa? “Poxa, essa mulher tá com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença-maternidade…” Bonito pra c…, pra c…! Quem que vai pagar a conta? O empregador. No final, ele abate no INSS, mas quebrou o ritmo de trabalho. Quando ela voltar, vai ter mais um mês de férias, ou seja, ela trabalhou cinco meses em um ano” (entrevista ao Zero Hora, em dezembro de 2014)1 e outras polêmicas.

Nesses tempos medonhos de inversões semânticas para a produção de novos sentidos, já que a memória do brasileiro, infelizmente, é curta, com base em Adorno, é possível fazer ponte com o que ele enuncia em isso é, precisamente, o que Freud quer fazer. Ele busca descobrir quais forças psicológicas resultam na transformação de indivíduos em massa. Que como uma rebelião contra a civilização, o fascismo não é simplesmente a recorrência do arcaico, mas sua reprodução na e pela civilização.

E o pior de tudo é que ele entrou pela via democrática e democracia é tudo o que precisamos, ainda que o resultado não esteja em consonância com nossos posicionamentos político-ideológicos, por isso, só nos resta, como educadores, a partir de hoje, falarmos sobre semântica, análise do discurso e a importância que estas áreas das Ciências da Linguagem possuem para a desconstrução da alienação e das manipulações discursivo-semântico-semióticas.

Por fim, externo que, como defendo a democracia (a vontade da maioria), com cérebro, unhas e dentes, e sabendo que o Brasil atravessa uma crise de leitura, de interpretação, de compreensão e de honestidade intelectual há séculos, hoje, mais que nunca, como educador linguístico e ecológico, nos próximos anos, farei resistência para nossa existência na luta por um país para todos. Trabalharei, arduamente e firmemente, para a construção de competências semânticas e discursivas para que aqueles que sonham com igualdade não se deixem cooptar pela ideologia do vazio e da aversão à pluralidade da existência e, principalmente, não caiam nas propagandas dos agitadores sócio-políticos sedentos por poder!

Ah, antes de terminar a reflexão, preciso dizer algo: se por acaso esse texto complicar minha vida nesses tempos tão medonhos em que os acéfalos maldosos jogam perfume em bosta para inverterem a semântica dos cheiros e dos sentidos, qualquer coisa, eu corro para Cuba (caso ela ainda exista) ou entro no armário para Nárnia!

Referências
  • Texto que sustentou o debate:
1.      https://exame.abril.com.br/brasil/frases-polemicas-do-candidato-jair-bolsonaro/

Elissandro Santana é professor da Faculdade Nossa Senhora de Lourdes e do Evolução Centro Educacional, membro do Grupo de Estudos da Teoria da Dependência – GETD, coordenado pela Professora Doutora Luisa Maria Nunes de Moura e Silva, revisor da Revista Latinoamérica, membro do Conselho Editorial da Revista Letrando, colunista da área socioambiental, latino-americanicista e tradutor do Portal Desacato

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