1 de nov de 2018

A morte da verdade


O livro de Michiko Kakutani foi publicado em 2018 pela Editora Intrínseca. A obra detalha de que maneira o declínio da razão possibilitou a expansão e a popularização das Fake News até o momento em que as estas foram politicamente utilizadas para levar Donald Trump ao poder nos EUA.

Um dos pressupostos teóricos do livro é sofisticado, mas padece de um grave defeito: a teoria da autora é Fake, Em dois momentos do livro, Kakutani culpa os intelectuais de esquerda por terem dado origem ao fenômeno das Fake News:

“Na primeira rodada das guerras culturais, a Nova Esquerda rejeitou os ideais do Iluminismo como vestígios do antigo pensamento patriarcal e imperialista. Hoje, esses ideais de razão e progresso são atacados pela direita por serem vistos como parte de uma conspiração liberal para minar valores tradicionais ou como possíveis indicativos de um elitismo intelectual da Costa Leste.” (A morte da verdade, Michiko Kakutani, Editora Intrínseca, Rio de Janeiro, 2018, p. 52)

“O argumento pós-moderno de que todas as verdades são parciais (e dependem da perspectiva de uma pessoa) levou ao argumento de que existem diversas maneiras legítimas de entender ou representar um acontecimento. Isso tanto encorajou um discurso mais igualitário quanto possibilitou que as vozes dos outrora excluídos fossem ouvidas. Mas também foi explorado por aqueles que quiseram defensr teorias ofensivas ou desacreditadas, ou equiparar coisas que não podem ser equiparadas. Os criacionistas, por exemplo, reivindicaram que a teoria do ‘designe inteligente’ fosse ensinada junto com a teoria da evolução nas escolas. ‘Ensine as duas’, alguns sugeriram. Outros disseram: ‘Ensine a controvérsia’.” (A morte da verdade, Michiko Kakutani, Editora Intrínseca, Rio de Janeiro, 2018, p. 87)

Antes de criticar os intelectuais franceses, ingleses e norte-americanos que decretaram o fim da modernidade é preciso entender o contexto em que eles produziram suas obras. A irracionalidade da Guerra Fria havia aprisionado tanto a URSS quanto os EUA/Europa numa lógica insana. Nos anos 1960, 1970 e início dos anos 1980, a OTAN e o Pacto de Varsóvia se esforçavam para produzir e estocar mais e mais armas de destruição em massa. Ao fazer isso, ambos os lados acreditavam e anunciavam aos seus cidadãos que eles estariam seguros porque seus inimigos poderiam ser aniquilados.

A lógica da segurança pela mútua aniquilação garantida era estúpida. De fato, os próprios agressores sabiam que poderiam ser exterminados caso usassem preventivamente suas armas nucleares para impedir o inimigo de lançar as deles. Um programa de TV dos anos 1980 da BBC expõe a irracionalidade da lógica da Guerra Fria:


O mundo moderno havia produzido bombas atômicas e de hidrogênio, mas também havia produzido uma mentira: a de que a sobrevivência ao uso delas seria possível. Foi nesse contexto que os filósofos pós-modernos começaram a defender a tese de que as verdadeiras guerras deveriam ser lutadas nas trincheiras culturais. Os verdadeiros inimigos da humanidade não eram os EUA e a URSS e sim o militarismo, o machismo, o preconceito sexual e a crença de que uma verdade ideológica absoluta (fosse ela capitalista ou socialista, democrática ou soviética) poderia dominar um planeta cuja destruição estava assegurada.

Antes de criticar os intelectuais de esquerda, Kakutani deveria lembrar que não foram eles que produziram o mundo em que foram obrigados a rejeitar a modernidade. A Guerra Fria foi um produto do militarismo norte-americano e russo. Capitalistas e comunistas haviam transformado o mundo num circo de horrores em que a segurança ilusória provocada pela mútua aniquilação garantida era a mentira secular e ideológica que sustentava tanto o descompromisso dos EUA com a democracia (Washington fomentou e apoiou dezenas de ditaduras militares, inclusive a brasileira) quanto a opressiva burocracia da URSS (que mantinha seus satélites na linha usando ameaças e tanques de guerra).

Há ainda, outro detalhe importante. Após o fim da URSS, os EUA continuaram a expandir seus gastos militares. A ausência de um imenso inimigo irredutível não foi capaz de convencer os militaristas norte-americanos de que o dinheiro público deveria ser utilizado em benefício do público ao invés de garantir os lucros do Complexo Militar Industrial denunciado por Eisenhower em 1961 https://www.youtube.com/watch?v=8y06NSBBRtY. Qualquer observador cuidadoso da Pax Americana é obrigado a admitir que ao escolher manter e expandir sua hegemonia militar, Washington rejeitou de maneira ativa e indiscutível o pacifismo inclusivo defendido pelos filósofos pós-modernos.

O fenômeno cultural que levou Trump ao poder não foi, portanto, um resultado perverso da popularização dos ideais pós-modernos de esquerda como sugere Michiko Kakutani. Esse fundamento teórico da obra dela é Fake. Por outro lado, em razão do que foi exposto podemos concluir que a predileção ocidental por Fake News nasceu durante a Guerra Fria (cuja dinâmica o governo dos EUA se recusou a abandonar apesar do fim da URSS).

A autora de “A morte da verdade” passa mais da metade do livro tentando provar que trolls russos ajudaram a eleger Donald Trump espalhando Fake News através das redes sociais. O fato de a combinação explosiva e permanente entre o “neoliberalismo financeiro” e o “imperialismo hegemônico militarizado” ter empobrecido a população norte-americana e transformado o American dream num pesadelo para dezenas de milhões de gringos é ignorado ou desprezado por Kakutani. A obra dela funciona como um Viagra Teórico Fake da nova Guerra Fria desejada pelo establishment conservador militarista dos EUA. Isso talvez explique seu sucesso.

Fábio de Oliveira Ribeiro
No GGN

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