3 de out de 2018

Voto em Boulos e estou com Haddad

A eleição, é bom lembrar, não vai resolver nenhum dos nossos problemas. Não será um bom presidente ou mesmo um improvável bom Congresso que, por si sós, desfarão o golpe, restituirão os direitos, reabrirão o caminho para construção da democracia e da justiça social. É preciso ter força na sociedade, ter capacidade de mobilização e de luta. Afinal, se a democracia eleitoral foi uma conquista obtida depois de muitas batalhas – da classe trabalhadora, das mulheres, de outros grupos subalternos –, ela também é uma armadilha, por nos fazer acreditar que as disputas se resolvem com um voto a cada quatro anos. Não é assim. O golpe de 2016 deveria nos bastar para saber disso.

Mas se a eleição não vai resolver nossos problemas, ela pode, dependendo do resultado, piorá-los muito. A ameaça fascista que está à nossa frente significa o aprofundamento de todas as políticas do golpe, com a destruição generalizada de direitos e liberdades e o possível retorno do terrorismo de Estado. Não é alarmismo; é o que nos diz uma reflexão serena sobre o momento. Estamos a um passo do mergulho na barbárie.

E, contra isso, só contamos mesmo com as forças que estiveram contra o golpe. Não há mais espaço para ilusões com um amplo #EleNão. O “mercado”, isto é, a burguesia adere em peso a Bolsonaro. O latifúndio. A mídia, com um ou outro bolsão de pudor. As igrejas empresariais. A velha elite política, incluídos aí Geraldo Alckmin e Marina Silva, que já sinalizam uma “neutralidade” cúmplice no segundo turno. O aparelho repressivo de Estado (com direito a campanha aberta da sra. Moro).

Diante disso, vejo gente apontando que é necessário centrar forças naquele que tem mais chances contra o candidato fascista – isto é, construir desde já a unidade em torno da candidatura de Fernando Haddad. Embora respeite e até seja sensível a muitos dos argumentos, creio que o ideal é, ao contrário, fortalecer uma posição à esquerda do PT (e à esquerda do futuro governo Haddad). É por isso que, no primeiro turno, vou votar na chapa composta por Guilherme Boulos e Sonia Bone Guajajara.

Com muitos problemas de coordenação, uma campanha capenga, pouco espaço e espremida numa conjuntura tensa demais para que uma mensagem um pouco mais complexa ganhasse a atenção devida, a chapa Boulos/Guajajara enfrentou uma campanha muito complicada. Mas tem alguns pontos que, mesmo assim, emergem e indicam que há, nela, sementes de um caminho para a esquerda brasileira.

Vou destacar apenas alguns deles. Primeiro, Boulos e Guajajara têm um entendimento muito claro de que é necessário enfrentar problemas urgentes com soluções imediatas, mas sem depreciar o horizonte mais amplo da transformação social. Isto é, buscam evitar tanto o possibilismo estreito que foi o maior limite da experiência petista quanto a pretensa “radicalidade” de quem não mete a mão na massa porque só aceita o melhor dos mundos. Não há uma fórmula pronta para trilhar esse caminho, já que sempre permanece a tensão potencial entre o curto e o longo prazos. Mas Boulos e Guajajara oferecem uma consciência aguda de que essa questão precisa ser levada em conta.

Em segundo lugar, como bem mostra a atuação dos movimentos sociais que eles lideram, Boulos e Guajajara sabem que a política se faz com negociação – mas que negociar não significa abandonar princípios.

Em terceiro lugar, o programa e o discurso da chapa Boulos/Guajajara revelam a preocupação de articular a pauta do combate a diferentes formas de opressão e dominação presentes na sociedade com a pauta anticapitalista. Uma vez mais, não há nenhuma receita a ser seguida, mas sim a consciência de que a esquerda do século XXI precisa produzir um projeto de sociedade que contemple as demandas emancipatórias do diferentes grupos oprimidos, conjugando os eixos de classe, de gênero, de sexualidade, de raça etc.

Por fim, mas não menos importante, Boulos e Guajajara encarnam uma esquerda que não é petista, mas isenta de antipetismo. Sua postura na luta contra o golpe que derrubou a presidente Dilma e contra a perseguição ao ex-presidente Lula é inatacável. Sua crítica aos limites dos governo do PT não deixa de reconhecer os avanços – alguns diriam até que Boulos destaca demais esses avanços – e jamais se confunde com as críticas da direita. Mas faz a crítica. E é necessário fazê-la, seja porque o programa do PT aponta para uma transformação limitada da sociedade brasileira, seja porque o PT insiste nas mesmas estratégias políticas que nos deixaram vulneráveis ao golpe de 2016 e à ascensão da extrema-direita (em particular, a baixa politização do debate público).

A candidatura de Boulos e Guajajara entende que nossos desafios não têm solução pronta, nem serão superados apenas por meio das famosas “instituições”. Seu horizonte não é a comemoração da vitória ou a festa da posse. Seu horizonte é a continuidade do trabalho de organização, de educação política, de luta popular. O voto na chapa do PSOL é importante para sinalizar o comprometimento com este projeto.

Mesmo que outras considerações levem a outras opções eleitorais, é fundamental ter isso em mente. Eu voto em Boulos e Guajajara porque são eles os únicos que apontam com clareza nessa direção. Mas você que vota em Haddad ou mesmo em Ciro pode, deve abraçar também essa compreensão. Nosso trabalho cotidiano continuará a ser necessário. Se tudo correr bem, será necessário para apoiar um presidente de centro-esquerda quando ele quiser avançar e sobretudo para pressioná-lo quando ele estiver tentado a ceder. E, se tudo der errado, será mais necessário ainda, para garantir a nossa sobrevivência.

Luis Felipe Miguel

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