6 de out de 2018

Rejeição a PT no Sul leva a coação por voto e abordagem da PM

Advogado foi intimidado por ter adesivo do PT no carro, enquanto empresários da região pressionam funcionários a votar em Bolsonaro

A direita é forte no Sul. Segundo o Datafolha, a rejeição de Haddad na região saltou de 37% para 52%
Na terça-feira 2, em Curitiba, o advogado e professor de Direito Administrativo Tarso Cabral Violin saía de um restaurante e, acompanhado de sua filha de 12 anos, foi abordado no estacionamento por dois policiais militares. Um deles se aproximou do carro e disse que o adesivo colado no vidro traseiro era ilegal, pois trazia a imagem do ex-presidente Lula. “Disse a ele que não é ilegal e apenas exercia meu direito à liberdade de expressão”, conta o advogado.

Para justificar a abordagem, o militar afirmou que fora convocado ali “por uma juíza de nome Camila, que também almoçou no restaurante” e teria ficado incomodada com a imagem. Sem reação ou argumentos, os policiais se retiraram. “Não foram agressivos, mas prepotentes. Essa atitude é apenas uma amostra do que pode vir a acontecer em breve no Brasil. Quem viveu o período de autoritarismo, da ditadura militar, conhece muito bem o que é isso. Mas nada vai me intimidar” afirmou Violin.

Naquele mesmo horário, há pouco mais de um quilômetro dali, quem também não se intimidou foi a procuradora do Ministério Público do Trabalho do Paraná, Cristiane Maria Sbalqueiro Lopes. Ao tomar conhecimento que o diretor-presidente da rede de supermercados Condor, Pedro Joanir Zonta, havia expedido uma carta aos 12 mil empregados coagindo-os a votar no candidato Jair Bolsonaro nas eleições do próximo domingo, imediatamente o convocou para prestar esclarecimentos ao MPT. “Soube do ocorrido por volta das 13:30 e o intimei para uma audiência às 17 horas da mesma tarde” afirmou a procuradora.

Na mensagem, Zonta afirma “meu voto é no Bolsonaro” e justifica a opção pelo fato do candidato “não ter medo de dizer o que pensa; protege os princípios da família, da moral e dos bons costumes; luta contra o aborto e contra a sexualização infantil; é a favor da redução da maioridade penal e segue os valores cristãos”.

Atribui à esquerda “o fim da família; o agravamento da crise econômica; a corrupção; o desemprego; o aumento da criminalidade e a transformação do Brasil em uma Venezuela”. Encerra com o compromisso de que “não haverá de forma alguma, corte no 13º e nas férias dos colaboradores do grupo Condor”.

A procuradora pediu que o empresário explicasse este parágrafo, que lhe pareceu “bastante confuso”. Zonta afirmou que, segundo informações, os empregados comentavam pelos corredores que não votariam em Bolsonaro porque não queriam perder estes direitos. “O contraditório é que ele, como dono da rede, não só pedia voto ao candidato como garantia o pagamento do 13 e férias. Na prática, trata-se de coação, de uma promessa de vantagem em troca de voto”, explica a Lopes.

Neste caso, além da coação, havia o crime da compra de voto. O empresário assinou um Termo de Ajustamento de Conduta, onde se comprometeu a redigir, em até 48 hrs, um novo documento para ser divulgado pelos mesmos canais, informando que se trata de uma posição pessoal, sem qualquer interferência no campo de trabalho.

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Adesivo em carro foi motivo para abordagem policial
(Arquivo pessoal)

Em Santa Catarina, Luciano Hang, dono das lojas Havan, com mais de 120 unidades espalhadas pelo País, coagiu e pressionou por meio de um vídeo interno seus 15 mil empregados a votar em Bolsonaro. Afirmou que, caso um “candidato de esquerda” vença a eleição presidencial irá repensar o futuro da empresa e “talvez venha a fechar algumas lojas. Você está preparado para sair da Havan? Você, que sonha ser líder, gerente, crescer com a Havan, já imaginou que tudo isso pode acabar dia 7 de outubro? (...) Se você não votar, se você anular seu voto, se você votar em branco e a esquerda ganhar, e nós virarmos uma Venezuela, vou dizer pra (sic) vocês: até eu vou jogar a toalha”, afirmou na gravação.

De acordo com o juiz do Trabalho Carlos Alberto Pereira de Castro, o empresário manteve uma "conduta flagrantemente amedrontadora" ao divulgar vídeos e organizar eventos com funcionários em que declara seu voto no candidato do PSL, e sugere que, caso ele não ganhe, o futuro da Havan e de seus empregados estará em risco. Neles, afirma que a empresa fez levantamentos de intenção de voto entre seus funcionários.

René Ruschel
No CartaCapital

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