25 de out de 2018

Quando não há resposta a ataques autoritários, perde-se liberdade

A relação harmoniosa entre imprensa e poder diz mal dos dois. Não há poder isento de defeito, já por dispor dos recursos exclusivos que o sobrepõem ao restante. Para a relação harmoniosa, é necessário silêncio ou complacência da imprensa sobre as falhas do poder — seja o político, o administrativo, o econômico ou privado, e o poder armado. Um certo mal-estar entre imprensa com alguma independência e o poder faz parte da relação entre críticos e criticados, que, aliás, se alternam mutuamente nos dois papéis.

Jair Bolsonaro não aceita a relação em tais termos, embora não tenha mais do que possibilidade de poder. E indica que não os aceitará, se chegar ao poder. Suas referências à imprensa e a jornalistas subiram ao nível de agressões verbais e ameaças. Mas não é aí que está o maior perigo. É na reação intimidada da imprensa, pouco menos do que inexistente. Atitude que, na ótica de Bolsonaro e seu círculo, só pode significar o início da domesticação buscada pelo autoritarismo.

Aqui e fora, sempre que a imprensa não respondeu com altivez aos ataques autoritários, sua tibieza foi debitada na conta da liberdade. Em geral, não só a de imprensa, mas logo, também, a do teatro (presença infalível entre as primeiras vítimas) e demais artes.

Em parte, a atitude retraída da imprensa reflete o seu temor de que seja criado algo como um Conselho de Ética dos Meios de Comunicação, que os jornalistas de direita dizem ser “controle da imprensa”. O que temeram à toa em Lula e Dilma, as empresas de comunicação temem agora com motivo. No pelotão Bolsonaro, não há general, além do próprio candidato, que não faça à imprensa restrições a seu ver necessitadas de medidas enérgicas.

A aparente indiferença às agressões, porém, não muda a imagem da imprensa na cúpula bolsonária. O provável é o inverso. E o certo é que qualquer medida vinda de tal grupo, para os meios de comunicação, será muito pior do que aquele conselho inspirado nos existentes na Europa.

Para pior

Marina Silva declara “voto crítico” em Fernando Haddad. Não explicou por que levou 15 dias para chegar a essa definição. Um ridículo só comparável à soberba com que desfilou pela campanha eleitoral. Em vez de guardar sua dúbia definição até que não houvesse tempo para mais, melhor faria Marina se fosse coerente no silêncio da omissão. Fugiu de uma crítica para oferecer-se a duas.

Vezes nada

Bolsonaro pediu desculpas ao Supremo em nome do filho Eduardo. Pais se desculpam pelos filhos ainda imaturos. O escrivão de polícia Eduardo Bolsonaro tem 34 anos e é deputado eleito pelo papai, assim como o futuro senador Flávio. Mas o coronel Carlos Alves repôs as coisas em ordem, com a advertência ao Supremo de que “nós [lá eles, os bolsonaristas] vamos derrubar vocês aí, sim”, caso Bolsonaro seja punido pelo que o New York Times tratou como “fraude digital na eleição brasileira”.

A intenção a respeito dos altos tribunais está clara, mas a advertência é precipitada. A revelação da fraude tem quase duas semanas e os tribunais, nada. E a Procuradoria Geral da República, nada. E a Polícia Federal, nada.

Janio de Freitas
No fAlha

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