5 de out de 2018

O raio-x da equipe Bolsonaro: como entender sua candidatura a partir dos assessores

Economista ultra-liberal, militares linha dura e fundamentalistas religiosos orbitam o presidenciável

Candidato remete todas questões relativas à economia ao seu guru, Paulo Guedes, defensor de posições ultra-liberais
Com pouco tempo de horário eleitoral, esquivas sobre economia em sabatinas e, nas redes sociais, um discurso de campanha focado no antipetismo, é difícil captar, em um primeiro olhar, quais são as reais propostas de Jair Bolsonaro para o Brasil. Seus assessores mais próximos, entretanto, são boas pistas para entender o que sua candidatura propõe para o país.

O grupo mais próximo de Bolsonaro é composto, além de familiares, por um guru econômico ultra-liberal – a favor de privatizações e propostas extremamente polêmicas, militares linha dura e políticos da bancada BBB (boi, bala e Bíblia). 


Guru Econômico

Em entrevistas, Bolsonaro remete a Paulo Guedes as perguntas que recebe sobre o programa econômico, o que rendeu ao assessor o apelido de “Posto Ipiranga”.

Guedes tem formação acadêmica na Universidade de Chicago, instituição conhecida pela linha ortodoxa e liberal na Economia. Defende propostas como a privatização de todas as estatais, o retorno da Contribuição Provisória por Movimentação Financeira (CPFM) e alíquota única para o Imposto de Renda, o que levaria os pobres a pagar mais e ricos menos. Após o anúncio de algumas dessas medidas – e a consequente repercussão negativa, o candidato passou a desmarcar presença em eventos públicos.

As propostas de Guedes para economia, segundo Juliane Furno, doutoranda em Desenvolvimento Econômico na Unicamp, apresentam um grau de radicalidade do ponto de vista econômico inédito no debate brasileiro.

“Paulo Guedes falou que achava o problema do governo FHC é que ele tinha sido social-democrata demais, clamando por um liberalismo puro. Ele é um legítimo representante da Escola de Chicago. Tem uma proposta liberal que a gente nunca viu a direita no Brasil levar adiante com tanto afinco. É um programa diferente do governo Temer. Caminha em um sentido próximo, mas é muito mais radical. Ele fala em arrecadar dois trilhões de reais nos quatro anos de governo vendendo absolutamente todas as empresas estatais. Equilíbrio macroeconômico é mais importante que qualquer outra coisa, não há proposta de geração de emprego. É o Estado deixar de ser empreendedor”, analisa Furno, que também é colunista do Brasil de Fato. 

Fantasmas

O ex-militar Hamilton Mourão (PRTB), vice de Bolsonaro, é conhecido pelas falas polêmicas. Defendeu intervenção militar durante o governo Dilma Rousseff.

Durante um evento em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, o general da reserva fez declarações racistas ao afirmar que o brasileiro herdou a “indolência” do indígena e a “malandragem” dos negros escravizados.

Recentemente, Mourão criticou a existência do 13º salário, sendo desautorizado pela própria campanha de Bolsonaro, o que não o impediu de repetir a posição. Ele se coloca como “propagandista” da campanha, enquanto Bolsonaro seria o “agitador”. Ou seja, em sua própria visão, é o formulador da linha política enquanto Bolsonaro seria apenas a figura pública.

Augusto Heleno (PRP), comandante das tropas no Haiti, foi cotado para vice, mas seu partido não aderiu formalmente à campanha. É visto como a ponte entre Bolsonaro e o alto oficialato das Forças Armadas. 

BBB 

Também estão na órbita de Bolsonaro um grupo de congressistas ligados à bancada da bala – contra o desarmamento e financiada, até 2014, pela indústria de armamentos e munição – da Bíblia – composta por políticos relacionados a denominações neo-pentecostais que esposam visões contrárias à laicidade do Estado – e do Boi - que age em defesa do agronegócio.

Se destacam os deputados federais Major Olímpio (PSL-SP), Fernando Franchischin (PSL-PR) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS), além do senador Magno Malta (PR-ES). Os dois últimos desempenham um papel fundamental de articulação política com os partidos do chamado centrão, com vistas ao segundo turno.

Nesta semana, a Frente Parlamentar Agropecuária, que representa os interesses do agronegócio, declarou apoio a Bolsonaro. Assim como o líder da Igreja Universal Edir Macedo. 

Herança reacionária 

Bolsonaro tem três filhos na política: Eduardo, deputado federal; Flávio, deputado estadual fluminense; e Carlos, vereador carioca. Eles atuam nas redes sociais rebatendo críticas à candidatura do pai. E disputam com as lideranças tradicionais do PSL a condução da campanha. Também estão protagonizando, em discursos e nas redes sociais, ataques machistas, homofóbicos e em apoio à ditadura e à tortura.

Chefe do partido

Gustavo Bebbiano, advogado e responsável jurídico da campanha, se tornou também presidente interino do PSL, oitavo partido integrado por Bolsonaro. Foi ele quem negociou sua ida à legenda. Assim que a movimentação foi confirmada, passou a substituir Luciano Bivar, fundador e “dono” da legenda, no comando da agremiação. Afirmando não “entender de política”, diz que seu papel é proteger Bolsonaro de polêmicas internas. 

Avaliação 

Professor de Direito da Unifesp e pesquisador do período ditatorial brasileiro, Renan Quinalha, avalia que o Bolsonaro é um ator político que dá voz e força material a um ideário antigo não só na sociedade brasileira, mas no mundo. O pesquisador cita, por exemplo, o objetivo do fascismo italiano de criar um “novo homem” pautado por valores como a “virilidade e masculinidade” exacerbadas.

“Eu não vejo como uma novidade essa conjugação de uma ideologia conservadora em termos morais, dos costumes, sexualidade, gênero, etc. e uma direita tradicional em sentido estrito. Há vários indícios de como o pensamento da direita latino-americana juntava pensamento religioso conservador com militarismo”, afirma.

Quinalha associa o padrão discursivo de Bolsonaro com a experiência historicamente recente da ditadura militar brasileira.

“As ditaduras do cone-sul, desde os anos 50 e 60, de alguma maneira evidenciaram isso. É um pensamento que esteve presente em uma parcela da sociedade. Na ditadura brasileira, houve políticas sexuais muito específicas para impor um padrão de família e de cidadão que atendia a essa moral conservadora. Evidente que há diferenças e particularidades históricas, mas há semelhanças muito fortes. Nos costumes é muito retrógrado, na política é muito autoritário e oscila na economia: em intervencionismo autoritário do Estado ou uma visão mais neoliberal, que não é incompatível com esse pensamento”, avalia.

A associação entre pensamento autoritário e liberalismo econômico citada por Quinalha não é, nesta perspectiva, uma novidade na América Latina, tendo sido os ingredientes que compuseram a ditadura chilena de Augusto Pinochet, que contou com a participação ativa de intelectuais ligados à Escola de Chigaco. É o que lembra Juliane Furno, colunista do Brasil de Fato e doutoranda na Unicamp.

“Olhando para nossa ditadura, ela foi autoritária do ponto de vista político e extremamente estatizante. Ela criou 113 empresas estatais. Muito diferente da ditadura chilena, que foi liberal. [A proposta de Bolsonaro] Reúne essas características: um governo mais autoritário com um programa extremamente liberal”, diz.

Quinalha aponta que as diferenças no modo de transição para a democracia entre as ditaduras brasileiras e chilenas ajudam também a explicar nosso momento político. Enquanto o país vizinho puniu autoridades públicas participantes do regime autoritário, como o próprio Pinochet, o Brasil não constituiu uma efetiva Justiça de Transição, o que fez com que o processo de abertura política, o mais demorado do continente, fosse “controlado desde cima”.

“O Brasil é o único país do mundo que fez uma Comissão da Verdade para meses depois começar um processo de degradação institucional e de ruptura democrática com o impeachment, que abriu a porteira para tudo que estamos vendo. É muito sintomático a Comissão da Verdade, cuja função é evitar retrocessos autoritários, [encerrar seus trabalhos e] ser sucedida por esse processo. O projeto de transição brasileira foi na verdade um projeto de institucionalização do autoritarismo”, indica.

Para o pesquisador, esse seria um dos fatores que, possivelmente, explicam a naturalidade com a qual Bolsonaro apresenta uma plataforma calcada na memória da ditadura e, no mesmo sentido, nas reiteradas homenagens do candidato ao maior torturador brasileiro, o coronel Alberto Brilhante Ustra. O que também serve para explicar a visão do candidato do PSL.

Rafael Tatemoto e Juca Guimarães
No Brasil de Fato

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