5 de out de 2018

Lula silenciado, Bolsonaro com tempo extra na Rede Record

Enquanto o ex-presidente continua proibido de dar entrevistas, o candidato do PSL recebe espaço generoso na televisão do bispo que o apoia

Dois pesos, duas medidas
Nos dois casos, impera a omissão da Justiça, com resultados diferentes, mas o mesmo objetivo, interferir no processo eleitoral às vésperas do primeiro turno.

Na quinta-feira 4, os jornalistas Mino Carta, diretor de redação de CartaCapital, e Fernando Morais, fundador do blog Nocaute, foram impedidos de visitar Lula na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

Embora Mino e Morais conheçam Lula há mais de 40 anos e tenham se habilitado a entrar na cela do ex-presidente por conta dessa longa relação, brotou entre as autoridades a dúvida sobre a intenção do encontro: seria uma tentativa disfarçada de entrevistar o petista?

Para evitar essa “interferência indevida” no processo eleitoral, como sustentou o ministro Luiz Fux, do STF, ao se contrapor ao colega Ricardo Lewandowski e proibir as entrevistas de Lula à Folha de S. Paulo e à TV Minas, o juiz substituto da 12ª Vara de Execuções Penais do Paraná achou por bem ignorar a autorização anteriormente acatada para a visita de Mino e Morais. Não disse sim nem não. Apenas se calou. Saiu de cena e deixou a dupla plantada na porta da PF curitibana.

No Brasil de hoje, são os juízes que rasgam as leis. A ordem de silenciar Lula, custe o que custar, para impedir a eleição de Fernando Haddad, desrespeita regras básicas do direito. Pior: a exceção é sustentada pela mais alta corte do País, justamente a instância que deveria zelar pelo cumprimento das normas. Como tem reiterado o próprio Mino Carta em seus editoriais, os democratas devem temer mais o Judiciário do que as Forças Armadas.

O silêncio também foi a saída encontrada pela Justiça eleitoral para permitir à Rede Record oferecer um espaço generoso e desproporcional a Jair Bolsonaro, do PSL, contra as regras que impõe condições equânimes aos candidatos nas emissoras de rádio e tevê, concessões públicas. A Record é controlada pela Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, que declarou no fim de setembro apoio ao ex-capitão.

A emissora exibiu sem nenhum pudor uma entrevista de 25 minutos com Bolsonaro enquanto se desenrolava o debate entre os presidenciáveis na Rede Globo, não só concorrente, mas inimiga figadal.

O candidato do PSL havia obtido um atestado para escapar do embate com os concorrentes no último confronto televisivo antes do primeiro turno. Seus médicos alegaram que ele não tinha condições físicas de enfrentar a maratona. Foi chamado de “fujão” e “covarde” pelos adversário.

A recuperação não o impediu, porém, de conceder a longa entrevista. Em um ambiente totalmente controlado, não foi pressionado, não esteve exposto ao contraditório e pode simular o sofrimento de quem está convalescente. Em uma cena pensada para provocar comoção, um enfermeiro negro (“veja só, ele não é racista”) entra em cena, no meio da conversa, para ampará-lo.

Os concorrentes recorreram ao tribunal eleitoral na tentativa de impedir a exibição da entrevista. Em vão. Ao contrário de Fux no caso de Lula, nenhum juiz considerou a “colher de chá” da Record como uma interferência indevida no processo eleitoral. Prevaleceu o silêncio útil. Segundo dados do Ibope, o debate da Globo alcançou 24% da audiência no horário. A exclusiva de Bolsonaro ao canal do bispo, 12%.

No Facebook, Pedro Abramovay, diretor da ONG Open Society, resumiu o espanto de muitos brasileiros ao saber da entrevista: “Isso é tão flagrantemente ilegal, explode de tal maneira todo um mundo eleitoral baseado no equilíbrio do acesso aos meios de comunicação, que pode ser que nada aconteça. Que as instituições assistam bestializadas a Constituição sendo rasgada”.

Aconteceu. Mas quem se importa.

PS: Soube-se nesta sexta-feira 5 que Eduardo Azeredo, ex-governador de Minas Gerais filiado ao PSDB, condenado em segunda instância por corrupção, poderá votar no domingo. Lula, na mesma situação, está proibido de exercer o mesmo direito.

Sérgio Lirio
No CartaCapital

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