28 de out de 2018

FHC, Ciro e Simon rasgam a biografia


O Brasil atravessou sua mais bizarra campanha presidencial e chegou ao seu desfecho neste domingo, no segundo turno da eleição, exposto ao abismo escancarado pelo silêncio imperdoável ou pela submissão condenável de algumas de suas maiores lideranças políticas. Em 1964, os generais derrubaram pela força um presidente e mergulharam o País numa treva de 21 anos. Em 2018, pela força inquestionável do voto, um capitão de Exército de retórica truculenta pode arrebatar o Palácio do Planalto e afundar a Nação num período de retrocesso político e de reversões civilizatórias sem precedentes desde a queda da ditadura, em 1985.

O capitão da reserva Jair Bolsonaro, com o apoio de um partido de uma só cadeira no Congresso e ancorado em míseros 8 segundos concedidos ao seu PSL, sem expor a debate o seu vazio de ideias e sem abdicar de suas frases de apologia à violência explícita e incentivo ao preconceito, conseguiu o que parecia impossível: ganhou o primeiro turno com o voto de quase 50 milhões dos 147 milhões de eleitores, agora escoltado por uma sólida bancada de 52 deputados federais, a segunda maior da Câmara dos Deputados.

Por pouco, muito pouco, Bolsonaro deixou de liquidar a eleição ainda na primeira ronda. Teve 46,03% dos votos, contra 29,28% de seu principal oponente, Fernando Haddad, do PT. Agora, na véspera da decisão, as pesquisas apontam a liderança de Bolsonaro, com 48% ou 50% dos votos, contra 38% ou 37% para Haddad, conforme o Datafolha e o Ibope, respectivamente.

Omissão e apatia

Nessa diferença de 10% ou 13%, ecoa forte a omissão, o silêncio, a apatia e a inércia de duas lideranças políticas que poderiam frear a escalada do capitão e livrar o país de uma opção de intolerância: Fernando Henrique Cardoso e Ciro Gomes. Lideranças maiores dos partidos que ficaram em terceiro e quarto lugar no primeiro turno, FHC e Ciro poderiam consolidar a ideia de uma frente antifascista e incorporar os votos necessários para viabilizar a virada de Haddad.

Ciro Gomes saiu da disputa com mais de 13 milhões de votos, ou 12,47% do eleitorado, e o tucano Geraldo Alckmin recebeu apoio de pouco mais de 5 milhões de eleitores, ou 4,76% dos votos apurados. Na soma virtual dos dois candidatos, temos quase 17% dos votos, que poderiam virar o jogo em favor de Haddad. Mas, para isso, seria decisivo o empenho das duas principais lideranças do PDT e do PSDB.

Esse empenho, porém, nunca houve. No dia seguinte à apuração do primeiro turno, Ciro abdicou de sua responsabilidade, fez as malas e embarcou para a Europa. Disse um tímido "Ele Não" nas redes sociais e escafedeu-se, em vez de se incorporar de corpo e alma na campanha que, naquele momento, havia se transformado num embate mortal entre barbárie e civilização. Contrariando as expectativas do País, Ciro voltou em silêncio da França, apenas dois dias antes da eleição deste domingo. Neste sábado, em vez de uma entrevista coletiva retumbante, o líder do PDT preferiu falar pela blindagem de sua página no Facebook, ainda assim evitando falar em nomes, discorrendo de forma tortuosa, sibilina, enunciando platitudes, sem dizer o que precisava ser dito: "Que as pessoas possam votar amanhã compreendendo a necessidade de votar com a democracia, contra a intolerância, pelo pluralismo, mas ninguém está obrigado a votar contra convicções e ideologias", pontificou. "Claro que todo mundo preferia que eu, com meu estilo, tomasse um lado e participasse da campanha, mas não quero fazer isso por uma razão prática, que eu não quero dizer agora...". E mais não disse.

Uma reação enigmática, obscura, que não combina com o político de língua solta que costumava assombrar os brasileiros pelo estilo contundente e agressivo de se expressar. O jeito acovardado e omisso adotado surpreendentemente por Ciro mostra que suas mágoas para com Lula e o PT foram mais fortes do que a necessária compreensão de que havia agora um perigo maior, no horizonte, que justificaria engolir qualquer sapo barbudo para livrar o país de um projeto de intolerância política irreversível. Mesmo na França, nestas três semanas de forçada reflexão, Ciro sempre teria tempo para gravar uma mensagem curta, mas eloquente, de apoio aberto e claro ao adversário do capitão da ditadura. Ciro preferiu calar-se e, quando falou, preferiu ser esquivo, nebuloso. Ciro Gomes jogou sua combativa biografia no chão.

O estilo tucano

O líder maior do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique, não precisou viajar à França para fazer bobagem. Depois de um tímido aceno de aproximação com a 'porta' de Haddad, recuou, dizendo que ela estava 'enferrujada', no mesmo jeito flutuante de Ciro. Aliás, no melhor estilo tucano, FHC tartamudeou nas redes sociais: "O que penso declaro no Twitter e na mídia. Por ora, disse que no Bolsonaro não voto e dei as razões. Nada além disso". Muito pouco a dizer na boca de um respeitado intelectual, sociólogo de renome, autor de mais de 20 livros e de uma centena de artigos acadêmicos, dono de 29 títulos de doutor honoris causa de universidades brasileiras e estrangeiras, citado em 2009 pela revista Foreign Policy no 11º lugar de uma lista dos cem maiores pensadores globais do mundo. Ou seja, FHC tem os instrumentos e o conhecimento necessário para perceber os perigos da política e as necessidades do país num momento decisivo como é a eleição de 2018. FHC optou por ser mais tucano e menos pensador. Uma pena.

No mesmo sábado em que Ciro gaguejava, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, relator do processo do Mensalão que emparedou o PT, declarou o seu voto com a clareza que faltou a Ciro e com a resolução que FHC não cultiva: "Votar é fazer uma escolha racional", escreveu Barbosa no Twitter. "Eu, por exemplo, sopesei os aspectos positivos e negativos dos dois candidatos que restam na disputa. Pela primeira vez em 32 anos de exercício do direito de voto, um candidato me inspira medo. Por isso, votarei em Fernando Haddad".

Biografia rasgada

Alguns pecam por omissão. Outros, por submissão. Foi o que aconteceu, lamentavelmente, com um campeão de luta pela democracia e uma referência da ética na política, o ex-senador gaúcho Pedro Simon. Três dias após o primeiro turno, numa virada moral inesperada, Simon anunciou o seu "apoio crítico" a Bolsonaro, o capitão da didatura que teve 52,63% dos votos de seus conterrâneos gaúchos. Simon conseguiu ver coisas boas no capitão: "Ultimamente Bolsonaro vem fazendo afirmativas que denotam o seu respeito pela liberdade". Aos 88 anos de vida, com uma passagem de 24 anos pelo Senado que o tornou um campeão da ética, Simon vacila ao citar o grande comandante do MDB que combateu a ditadura: "Eu fico me perguntando o que o doutor Ulysses estaria fazendo hoje..." Estaria fazendo o que fizeram duas referências políticas fortes para Simon: Marina Silva, que saiu da disputa com apenas 1% dos votos, e Jarbas Vasconcelos, eleito de forma consagradora pelo MDB de Pernambuco. Ambos, sem vacilação, declararam o voto em Haddad e o repúdio a Bolsonaro — exatamente o contrário do que fez Simon, rasgando sua biografia.

Envergonhado, Simon não comentou a forte possibilidade de que seu apoio ao capitão seja mera retribuição. O filho, Tiago Simon, acaba de se reeleger deputado estadual pelo MDB, melhorando muito o seu desempenho. Em 2014, Tiago se elegeu por pouco, com 32.717 votos, na 47ª posição entre 55 deputados, pendurado na oitava e última posição conquistada pelo MDB pelo coeficiente eleitoral. Agora, Tiago pulou para a 17ª posição, subindo sua marca para 45.792 votos. A explicação para o milagre se chama Jair Bolsonaro, que Tiago, como o pai, apoiou de forma aberta, sem qualquer restrição crítica. O campeão de votos na eleição para a Assembleia gaúcha foi, claro, o tenente-coronel Luciano Zucco, do PSL, com 166.747 votos, graças ao apoio sólido de seu ex-comandante no Comando Militar do Sul, general Hamilton Mourão, hoje vice da chapa do capitão que tem a bênção surpreendente do clã Simon.

Luiz Cláudio Cunha

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