30 de out de 2018

Entrevistas mostram porque o “Mito” fugiu dos debates com Haddad: seria massacrado

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/10/30/entrevistas-mostram-porque-o-mito-fugiu-dos-debates-com-haddad-seria-massacrado/

“Você não acha que quem atua na sombra oculta a escuridão do seu passado?”
(pergunta enviada pelo leitor Heraldo Campos ao Balaio).

As primeiras entrevistas de Jair Bolsonaro depois de eleito a emissoras de TV, na noite de segunda-feira, mostraram que os estrategistas nacionais e estrangeiros estavam certos ao não permitir que ele fosse aos debates com Fernando Haddad no segundo turno.

A diferença de preparo e conhecimento entre os dois candidatos era tão gritante que teria sido um massacre.

Tem toda razão o leitor que me enviou a pergunta que está na epígrafe, com o seguinte comentário: “Essas milícias da nova ordem já estavam aí atuando e agora elegeram um presidente para dar respaldo e legitimidade para elas”.

Passo a palavra ao colega Hélio Schwartsman, que lhe dá a resposta na coluna “Explorando as ambiguidades”, hoje na Folha:

“Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de ser eleito presidente sem ter dito o que pretende fazer depois de 1º de janeiro”.

Também não precisou sair de casa no segundo turno para olhar na cara dos eleitores mantidos a distância.

Se escapou de falar do seu passado nada recomendável, como militar e deputado, Bolsonaro também não conseguiu dizer nada sobre o futuro nas entrevistas, pois não tem a menor ideia de como enfrentar os principais problemas brasileiros.

Para se ter uma ideia, até agora o presidente eleito nada disse em discursos e entrevistas sobre a grande tragédia do desemprego, que atinge 12,5 milhões de brasileiros, segundo os novos números divulgados pelo IBGE nesta terça-feira.

Em suas respostas, com dificuldades para dar sentido a duas frases seguidas, o “Mito” só repete platitudes e generalidades, sem sair do varejo para apresentar um programa concreto de governo. “Precisa ver isso aí”, costuma repetir ao responder sobre qualquer assunto.

Eleito sob a bandeira do combate à corrupção, surfando na onda do antipetismo, com uma pauta evangélica nos costumes, a única coisa concreta que conseguiu dizer em cinco entrevistas é que vai convidar Sergio Moro para integrar o seu governo e cortar a verba de publicidade oficial dos órgãos de imprensa críticos e independentes.

A ameaça direta feita à Folha é um aviso para os demais: ou vocês me apoiam ou eu corto a grana.

Repete dessa forma o que Fernando Collor fez em 1989, quando levou para o Ministério da Justiça o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Francisco Rezek, que tinha lhe facilitado a vida durante a campanha e sumiu nas horas decisivas daquela eleição.

E também repete o general Hugo Abreu, que no auge da ditadura cortou as verbas oficiais do Jornal do Brasil, um dos poucos que manteve posição crítica ao regime militar.

“Começou mal. A defesa da liberdade ficou no discurso de ontem”, escreveu o ex-governador Geraldo Alckmin no Twitter sobre as ameaças à Folha.

Estamos agora vendo tudo acontecer de novo, as piores práticas anti-republicanas recicladas pelo presidente eleito.

Nomear Moro é mais ou menos como convidar o juiz da partida decisiva do Brasileirão para ser o novo diretor de futebol do clube vencedor.

Não é para menos a gratidão: foi o juiz Sergio Moro, no comando da República de Curitiba, quem mais se empenhou para tirar da disputa o ex-presidente Lula, principal concorrente de Bolsonaro, que liderava todas as pesquisas antes de ser impedido de participar das eleições pelo TSE.

Cada dia o presidente eleito fala uma coisa diferente, desmentindo hoje o que os integrantes da sua equipe anunciaram ontem, como no caso da reforma da previdência, em que ele não tem a menor ideia do que pretende fazer.

Depois de levar um susto com a queda da Bolsa e a alta do dólar, no dia seguinte à eleição, ao contrário do que se esperava, agora Bolsonaro já admite aprovar “ao menos parte” da proposta de Michel Temer, tão criticada pelo futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que disse no começo de outubro:

“O Jair não era a favor dessa reforma, eu não sou a favor dessa reforma, a maioria das pessoas que apoiam o Bolsonaro não são a favor do que o Temer propôs porque ela é ruim, uma porcaria”.

Então, como ficamos? Que parte da proposta ele pretende que seja aprovada ainda este ano? Como não lhe perguntaram, também não se deu ao trabalho de esclarecer o distinto público.

Seus homens de confiança vivem dando trombadas entre si e com ele, dando uma ideia do que nos espera quando todos forem para o Palácio do Planalto em janeiro.

Assim como abri a coluna de hoje com uma pergunta do leitor Heraldo Campos, encerro também como uma frase de Carl Sagan que ele me enviou:

“Não seria demasia lembrar que os arautos das devassas ilegais, odiosas e fascistas acabam por ter que quebrar seus próprios espelhos”.

Ainda faltam dois meses para a posse.

Mas agora não há mais o que fazer a não ser rezar, de preferência bem longe do pastor Magno Malta, o capelão oficial, e do coroinha Alexandre Frota.

É o que nos espera.

Os primeiros sinais da nova ordem são assustadores e nada indica que as milícias bolsonarianas deponham as armas tão cedo, como relatei no post anterior.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho

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