3 de out de 2018

Como funcionam os grupos de Whatsapp de apoio a Bolsonaro

"Aos berros, um dos administradores pede para mostrar no grupo da família as tias, as mães, as avós. E mostrar o que a turma do “PT” e “Ciro” querem para o país. Na sequência, a solução seria Bolsonaro com sua frase de impacto: Deus acima de tudo", diz usuário do Facebook que acompanhou grupos de whatsapp pró-Bolsonaro.

Link na internet convida para acesso aos grupos de whatsapp pró-Bolsonaro.
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Incluído por amigos em grupos de apoio a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) no whatsapp, Vandson Holanda pedia “educadamente” para sair. Reincluído nas últimas semanas, ele resolveu acompanhar por “por curiosidade sobre o que os move a favor dessa figura do mal”. Nesta terça-feira (2), ele postou um “textão” em sua página no Facebook sobre a experiência, “a pior possível”, segundo ele.

“O que presenciei nesses grupos foi um trabalho aparentemente orquestrado por profissionais de marketing digital. Não posso afirmar se a origem é da cúpula da campanha do candidato, mas ele é o beneficiado direto da disseminação de notícias falsas através de vídeos editados que são muito mais difíceis de você, por mais esperto que seja, não cair na armadilha da informação errada”, relata Vandson.

Segundo ele, a tática é simples, “mas deplorável”. “Vale tudo para ganhar a presidência e os vídeos pelo zap tem sido cruciais, pois vêm dos seus amigos. A TV terá influencia zero nessa campanha”.

A narrativa comprova a blitskrieg – termo alemão que pode ser traduzido como guerra-relâmpago, uma tática militar que utiliza forças móveis em ataques rápidos e de surpresa, com o intuito de evitar que as forças inimigas tenham tempo de organizar a defesa – contra as manifestações que aconteceram no último final de semana, convocados pelas redes sociais sob a hashtag #elenão.

“A quantidade de vídeos editados mostrando mulheres com seios de fora no meio da multidão como se fossem no evento de sábado salta os olhos. Isso juntamente com palavras de baixo calão contra as participantes. “Atenção mulheres! Vcs se sentem representadas por essas “vadias”?” Palavras de um dos administradores do grupo que pedia para repassar o vídeo e a pergunta. Posts bem preparados para o whatsapp”, diz Vandson. Dos grupos de whatsapp, as postagens ganham páginas de seguidores de Bolsonaro no Facebook e Instagram.

Dos grupos de whatsapp, a tática chega às páginas de seguidores de Bolsonaro no Facebook.
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O relato comprova a tese do editor da Fórum, Renato Rovai, de que os bolsonaristas querem levar a guerra para o o campo moral.

“Num dos vídeos, o evento de sábado foi ligado a um outro acontecimento em que mulheres radicais quebram imagens sacras na visita do papa Francisco ao Brasil. Fato deplorável mas quem vê pensa que aconteceu sábado no evento do #Elenao. Aos berros, um dos administradores pede para mostrar no grupo da família as tias, as mães, as avós. E mostrar o que a turma do “PT” e “Ciro” querem para o país. Na sequência, a solução seria Bolsonaro com sua frase de impacto: Deus acima de tudo”, conta Vandson.

Whatsapp é a principal trincheira

Pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira comprova que o Whatsapp é a rede mais popular – 66% – utilizada pelos eleitores para se informar sobre seus candidatos. Segundo o levantamento, entre os eleitores de Bolsonaro são mais altas as taxas de leitura de notícias sobre política e eleições no WhatsApp (57%) e no Facebook (61%), e o compartilhamento de notícias.

O Datafolha mostra ainda que os eleitores do militar têm o índice mais alto de usuários de alguma rede social: 81%, contra 59% entre os eleitores de Fernando Haddad, 72% entre os eleitores de Ciro Gomes e 53% entre os eleitores de Geraldo Alckmin.

Vandson confirma os números, que resultaram no aumento da intenção de voto em Bolsonaro nas pesquisas Ibope e Datafolha divulgadas nesta terça-feira (2). “A subida de Bolsonaro não se deu, nem de longe, por conta do ataque de Alckmin ou Marina ou Ciro ao Haddad na TV como alguns analistas sugerem. Mas, sim, por conta do ataque orquestrado contra o evento de sábado das mulheres de forma velada nas redes sociais sem deixar rastro: via whatsapp”.

Das ruas para a internet

Mesmo nos tradicionais folhetos entregues nas ruas, a campanha em prol das políticas defendidas por Bolsonaro levam o eleitor a conferir fake news disponíveis na internet.

Um folheto apócrifo distribuído na região central de Jundiaí, interior de São Paulo, nesta terça-feira (2), destacava em letras garrafais: “Projetos de Lei que atacam crianças, adolescentes e a sua família”, com temas como “sexualidade”, “ideologia de gênero” e “estão dizendo que as crianças podem ser pansexuais”.

Folheto apócrifo distribuído na região central de Jundiaí.
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Embaixo, a publicação distribui um QR Code que remete ao link bit.ly/defendendoafamilia. Na página da internet, sem assinatura, instalada na plataforma blogspot, constam diversas postagens com vídeos que falam sobre temas polêmicos que já foram colocados em pauta por Bolsonaro – como questões relacionadas a ideologia de gênero, homossexualismo, “união poli afetiva” e “mudança de sexo pelo SUS”.

A primeira postagem, intitulada “Do que o Brasil precisa”, distribui um vídeo. Na primeira cena uma criança aparece falando que a professora “ensinou coisa errada, que menino usa saia, brinco e pinta a unha”. Ao final do vídeo, em um debate, aparentemente entre pastores, um homem diz que o “Dia das Crianças, neste ano, não será no dia 12 de outubro, será no dia 7 de outubro”, em referência ao primeiro turno das eleições. “Porque alguém vai ter que fazer a voz das crianças serem ouvidas nas urnas”.

Em seu texto no Facebook, Vandson diz que os candidatos democratas são fracos nas redes sociais e falam para “convertido”. ” Não foi a toa que, mesmo após o evento de sábado, o candidato do mal cresceu exatamente nas mulheres e nos pobres”.

E finaliza com uma dica para os candidatos democratas atuarem “forte nas redes sociais para falar fora da sua caixa com antídotos contra essa disseminação de vídeos montados via whatsapp e contra essa ação de difamação das mulheres que foram as ruas sábado”. Em caso contrário, ele acredita que Bolsonaro possa ser eleito. “Espero que não”, finaliza.

Plinio Teodoro
No Fórum

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