6 de out de 2018

Como Bolsonaro explorou o ressentimento da classe média baixa e roubou eleitores de Lula

Ricardo Stuckert
Nordeste: Fernando Haddad 37%, Jair Bolsonaro 20%; eleitores entre 2 e 5 salários mínimos em todo o Brasil (R$ 2 a 5 mil reais): Jair Bolsonaro 42%, Fernando Haddad 20%; pesquisa Datafolha

Nosso entrevistado levou a esposa e a filha para visitar os parques da Flórida recentemente. Pagou em dez vezes e não pode planejar nenhuma outra extravagância enquanto não quitar o crediário.

Ele não é pobre, nem se considera de classe média confortável. Veio da pobreza, ascendeu, mas bateu no teto. Experimentou as delícias do consumo, mas vive com a corda no pescoço.

Todos os dias, em grupos do whatsapp, recebe ao menos 15 mensagens de apoio ao candidato Jair Bolsonaro. Recentemente, recebeu a primeira de apoio a Fernando Haddad, do PT.

Ele pertence ao imenso grupo de brasileiros que ganham de dois a cinco salários mínimos mensais. Dentre eles, Bolsonaro tem mais que o dobro das intenções de voto do petista Haddad.

Pelas pesquisas do cientista André Singer, homens e mulheres desta faixa de renda flertaram com o lulismo ao longo das vitórias do PT em eleições presidenciais, especialmente em 2006 e 2010.

São eleitores conservadores nas questões de comportamento, mas que migraram para o lulismo por conta da ascensão social que experimentaram. Lulistas, portanto, não petistas.

Jair Bolsonaro, com a ajuda das igrejas neopentecostais, penetrou com força nesta faixa do eleitorado.

Como?

Pesquisas recentes mostram que os eleitores de Bolsonaro são os que mais compartilham no whatsapp (40%, segundo o Datafolha).  São também os que mais compartilham o que foi batizado de junk news, que incluem as fake news (81% do total).

Meu entrevistado trabalha o dia todo e tem pouco tempo para se aprofundar na busca de informações.

Nos intervalos do dia, checa as mensagens e muitas vezes dá uma olhada nos vídeos e memes.

Vamos dizer que, pela repetição, as mensagens deixam uma impressão — que seja no subconsciente.

O grupo de whatsapp bolsonarista que ele frequenta é de colegas de trabalho. Amigos e colegas, gente na qual ele confia.

Só decidiu não votar em Bolsonaro quando descobriu que o capitão da reserva votou a favor da reforma trabalhista de Temer.

Meu entrevistado foi diretamente prejudicado, no bolso, pela reforma.

Mas, ele é a exceção…

Com o objetivo de garantir o sigilo das informações que me repassou — memes, fotos, vídeos –, apelei a outras pessoas da mesma faixa de renda para que me enviassem o conteúdo de grupos bolsonaristas dos quais fazem parte.

Foi uma forma de conviver com eleitores do Mito sem falsificar minha identidade.

O RESSENTIMENTO COMO FORÇA POLÍTICA

Quando a União Soviética desabou, em 1991, os Estados Unidos passaram a cobiçar a antiga esfera de influência dos comunistas.

Àquela altura, graças a escândalos envolvendo a Central de Inteligência Americana na derrubada de governos estrangeiros, Washington já tinha privatizado parcialmente sua política externa.

A instalação de governos pró-EUA no entorno da Rússia passou a ser tarefa de parcerias público-privadas.

Vieram as chamadas revoluções coloridas.

A da hoje extinta Iugoslávia, em 2000, foi uma das primeiras.

O formato, onde quer que tenham acontecido as revoluções, adotou alguns princípios básicos: explorar o descontentamento e o idealismo típicos dos jovens, utilizar palavras de ordem simples e símbolos marcantes, direcionar a energia emocional dos militantes contra o que eram definidas como “estruturas arcaicas”.

Em resumo, ressentimento vs. sistema.

O PENTÁGONO E A GUERRA HÍBRIDA

Nos Estados Unidos, há uma clara distinção entre mudanças na estrutura do Estado e as de governo.

Estas, podemos definir como “de fachada”.

O 11 de setembro de 2001 serviu para consolidar um Estado policial paralelo, hoje centralizado no Departamento de Segurança Interna.

Tarefas antes exclusivas do Departamento de Estado, tocado por diplomatas civis, foram incorporadas pelo Pentágono.

Os militares passaram a desenvolver novas formas de intervenção externa, de olho na pressão por menos gastos no Orçamento.

Chamem de guerra psicológica, guerra híbrida ou guerra cibernética.

O princípio é o mesmo: fazer mais com menor perda de homens e recursos.

Em 1964, quando apoiaram a derrubada de um governo constitucionalmente eleito no Brasil, os norte-americanos mantiveram em sigilo sua intervenção.

João Goulart foi para o exílio provavelmente com base em informações privilegiadas.

O plano era, em caso de resistência, instalar a capital do Brasil em Minas Gerais, governada por um aliado, e provocar uma guerra civil.

Até hoje, nem todos os arquivos da Operação Brother Sam foram abertos.

Fato: o que há 50 anos os golpistas de 1964 diziam ser fake news, confirmou-se!

BOLSONARO E OS MILITARES

Jair Bolsonaro tem como apoiadores ideólogos do Exército brasileiro, como os generais da reserva Humberto Mourão (seu vice) e Augusto Heleno, ex-comandante das forças de intervenção da ONU no Haiti.

Promete um ministério com vários militares ou ex-militares.

O objetivo seria eliminar a influência da esquerda na administração pública, nos moldes do que fez o macarthismo nos Estados Unidos.

Mas, é preciso olhar para além do que se diz em público.

Na verdade, o discurso de campanha de Bolsonaro parece direcionado a criar inimigos internos e externos que justifiquem a continuidade de seu “movimento”, para além das eleições.

Uma forma de aglutinar seu eleitorado em torno de uma agenda oculta: a da demolição dos direitos sociais — um dos objetivos centrais do golpe de 64 foi promover o arrocho salarial, o que ficou escondido atrás da agenda anticomunista.

Era preciso, então, oferecer mão-de-obra barata às multinacionais que se expandiam para além dos Estados Unidos.

No século 21, Bolsonaro encarna um ultraliberalismo que bate continência para a bandeira azul e vermelha, num momento em que Washington batalha pela reconquista de território “perdido” para a China na América Latina.

O BOMBARDEIO

Esta é uma forma possível de compreender o bombardeio a que estão sendo submetidos os brasileiros nos grupos de whatsapp, cuja importância só agora a campanha de Fernando Haddad compreendeu.

São grupos formados por familiares, colegas de trabalho, amigos — um grau de confiança capaz de virar votos.

Como é impossível identificar a origem das mensagens, tanto podem ser iniciativas individuais de eleitores e militantes como parte de um plano organizado para decidir o rumo da eleição.

As mensagens se enquadram em alguns princípios básicos:
    1. Humor — A foto de um animal, veado, vestindo um colete à prova de balas, vem acompanhada de um áudio. É mentira que Bolsonaro vai matar ‘viados’, sugere a gravação. É denúncia furada da esquerda. Pode tirar o colete (mensagem ao destinatário).
    2. Lula — O ex-presidente é apresentado como um falso defensor dos mais pobres, beneficiário de regalias do poder que pretenderia perpetuar através de prepostos. Chama a atenção a obsessão com Lula. A campanha é fortemente dirigida a questionar o papel dele na política brasileira;
    3. Ressentimento de classe — Os vídeos e memes atacam os mais pobres como vendedores de seus votos para Lula e o PT. Uma forma de explorar o ressentimento da classe média baixa com os pobres, como se estes impedissem a ascensão social dos primeiros. Chama a atenção um recibo falso da Caixa Econômica Federal atribuindo um pagamento de mensal de R$ 2.600,00 a um presidiário cheio de filhos atentidos pelo Bolsa Família. Conversando com a destinatária da mensagem, ela estava convencida de que não deveria mais “sustentar os vagabundos”.
    4. Intervenção divina — Bolsonaro sobreviveu ao atentado apenas porque recebeu uma tarefa divina: a de limpar o sistema político brasileiro. Como foi escolhido por Deus, o Mito nada precisa explicar. Ele encarna uma espécie de revelação. Para não deixar cair a peteca, mensagens detonam quem pretende atacá-lo. Um meme bem elaborado “mostra” como uma artista do #EleNão lucrou com a Lei Rouanet. Outro, utilizando um áudio forjado do ex-ministro Joaquim Barbosa, mostra como Jair Bolsonaro foi o único a votar contra uma lei do PT que livraria os corruptos.
    5. Inimigo externo — A Venezuela figura com proeminência nas “denúncias”. Seria o objetivo do PT tornar o Brasil uma Venezuela, onde as pessoas precisam recorrer à carne podre. As mensagens são ilustradas por fotos e vídeos que “corroboram”a informação principal — imagens e vídeos muitas vezes falsos ou manipulados. Inimigos, internos ou internos, são essenciais para mobilizar emocionalmente os que pretendem exorcizar os demônios de uma existência cheia de incertezas. No caso, Lúcifer é Lula e, Haddad, o filho do Canhoto.
Podem ser apenas a produção de internautas desocupados, ou não.

Talvez a gente só saiba em 50 anos.

PS: Acredito ter virado três votos, mesmo sem o objetivo de fazê-lo, ao compartilhar informações verdadeiras sobre a carreira e os votos de Jair Bolsonaro.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo

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