27 de out de 2018

Bolsonaro e a comunicação subterrânea e esquizofrênica como política de governo

Um candidato sem compromisso com o Marco Civil da Internet, que acha que no ciberespaço vale tudo, incluindo fake news e ataques orquestrados. Que desqualifica e incita a população a desacreditar o jornalismo profissional. Que pretende transformar em política de governo a mesma rede de comunicação que arrastou uma eleição presidencial para o subterrâneo de grupos virtuais privados


Desde que o governo Dilma Rousseff veio à tona com o Marco Civil da Internet, Jair Bolsonaro entrou em campanha contra. Bradou aos quatro ventos que tratava-se de censura, de um meio de o PT controlar a vida das pessoas conectadas à rede. Mesmo com a imprensa nacional e internacional avaliando que a lei é, em verdade, uma das mais avançadas no mundo, graças aos seus 3 principais pilares (liberdade de expressão, neutralidade da rede e privacidade), Bolsonaro não parece ter mudado de ideia. 

No segundo turno desta eleição, Bolsonaro disse em entrevista à RedeTV News que "a mídia tem que ser livre e, em especial, a internet. Eles [petistas] tentaram também censurá-la via Marco Civil da Internet." Sua última frase até rendeu um fact-checking da Agência Lupa, que classificou-a como "falsa".  



Na Câmara, em discussões que rolaram em 2014, ano em que o Marco foi sancionado, Bolsonaro já havia moldado o discurso a ser reproduzido por seus seguidores a partir de 2016: se a lei é feita no governo do PT, só pode ter "jabuti" no meio. "Prefiro o Obama lendo meus e-mails do que a quadrilha do PT."



Em 2017, durante um programa de auditório, ele defendeu que na internet vale tudo, não cabe regulamentos, não importando que estejamos falando de um terreno propício às fake news e outros crimes. "[Ataques são] Ossos do ofício. Você vai ter que engolir essa", disse o deputado da extrema direita.



Para Bolsonaro, "cabe ao internauta filtrar" o que consome em termos de notícias.

Hoje ele é suspeito de ter sido beneficiado por automatização de grupos em WhatsApp e financiamento empresarial ilícito na mesma rede social. O time do capitão teria deflagrado ainda uma "guerra semiótica" em outras plataformas, jogando com informação e contrainformação para desnortear as pessoas, há pelo menos 2 anos. Sem contar a industrialização da produção de fake news contra adversários. As revelações foram feitas por Folha de S. Paulo, El País, BBC Brasil, entre outros jornais, recentemente.

Desprezo pela mídia e censura na internet

O autoritarismo de Bolsonaro e seu desprezo pelo jornalismo profissional lembra governos como o do hoje presidente da Turquia, Erdogan, que a partir de 2014 começou a chamar a atenção da comunidade internacional editando leis que são o oposto do nosso Marco Civil - que assegura direitos e deveres aos usuários da rede.

Derrubando pilares equivalentes ao da privacidade dos dados e liberdade de expressão, Erdogan abriu caminho para censurar e perseguir críticos e opositores na internet, sem necessidade de autorização do Judiciário. Ele também restringiu o acesso da população à rede, e o cenário só piorou com a tentativa de golpe militar em 2016, com bloqueio de páginas de internet e plataformas de redes sociais.

Erdogan trata a internet como um inimigo a ser combatido. Já Bolsonaro, que igualmente despreza as bases do Marco Civil, soube instrumentalizar os recursos em benefício próprio e de maneira híbrida, construindo uma militância orgânica a partir de movimentos artificiais.

Não se sabe ainda o que Bolsonaro faria em relação ao Marco Civil da Internet, se eleito. Ano passado, o governo Temer ensaiou derrubar a neutralidade da rede, por exemplo, e enfrentou a resistência dos internautas.

Na semana passada, a equipe do Conjur noticiou o plano de Bolsonaro para a comunicação de um eventual governo seu, que coloca inevitavelmente o papel da imprensa em discussão.

A ideia é universalizar o acesso ao WhatsApp, criando um canal de diálogo direto com o povo, dispensando o filtro dos meios de comunicação de massa tradicionais.

Segundo Pedro Canário e Fernanda Valente: Caso eleito, ele deve transformar o aplicativo em uma de suas principais ferramentas de governo e de comunicação. Seus assessores e conselheiros gostaram bastante da ideia de criar um programa de governo para distribuir celulares com acesso à internet para a população de baixa renda.

A ideia é dos estrategistas políticos do candidato, dentre eles, Arick Wierson, famoso por ter trabalhado na campanha vitoriosa de Michael Bloomberg ao governo de Nova York, nos Estados Unidos. O programa, que vem sendo apelidado de Cidadania Digital, seria uma forma de Bolsonaro se comunicar diretamente com as pessoas, sem passar por órgãos de imprensa, que ele já declarou inimigos.

Wierson cogita um programa de distribuição direta ou, se não for possível, por meio de contratos com as operadoras de telecomunicações. A exemplo do esquema de compra de disparo de mensagens em massa pelo WhatsApp revelado pela Folha de S.Paulo esta semana, essa será uma forma de Bolsonaro criar apoio a suas propostas ou ideias, mesmo que elas encontrem resistência no Congresso ou no Judiciário.

Planos de um candidato sem compromisso com o Marco Civil da Internet, que acha que no ciberespaço vale tudo, incluindo fake news e ataques orquestrados travestidos de "liberdade de expressão". Que desqualifica e incita a população a desacreditar o jornalismo profissional e, ao que tudo indica, pretende transformar em política de governo a mesma rede de comunicação no WhatsApp que arrastou uma eleição presidencial para o subterrâneo de grupos virtuais privados.

Na Turquia sob Erdogan, o silenciamento do povo é gritante. No Brasil eventualmente sob Bolsonaro, a ameaça vai de uma comunicação oficial nebulosa ou até mesmo esquizofrênica, até uma possível radicalização com riscos à liberdade de imprensa.

Tudo pode acontecer e engana-se quem, mesmo à luz do que tem brotado em várias partes do mundo, ainda acredita que censura só se faz com tropas nas ruas.

Cíntia Alves
No GGN

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