24 de out de 2018

Bolsogatas, pessoas de bem e machões: antropóloga classifica 16 tipos de bolsonaristas

Pesquisa etnográfica revela quem são e o que pensam os eleitores e simpatizantes de Jair Bolsonaro

Ilustração: Felipe Pessanha

Nos três últimos anos, a antropóloga Isabela Oliveira Kalil tem se dedicado a uma extensa pesquisa que traçou 16 perfis de eleitores e simpatizantes do candidato Jair Bolsonaro (PSL). “Quem são e no que acreditam os eleitores de Jair Bolsonaro” é o título do estudo que, junto a sua equipe, ela desenvolveu analisando manifestações e protestos nas ruas de São Paulo. Nessa investigação foram ouvidas mais de 1000 pessoas, considerando o que elas repudiam e o que desejam ou imaginam para o futuro do país nas esferas política e sócio-econômica. A pesquisa também considera os dados obtidos em redes sociais, grupos de WhatsApp e outras plataformas.

Professora e coordenadora do Núcleo de Etnografia Urbana (NEU) da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Isabela fez um estudo que revela a multiplicidade no padrão de eleitores e também a estratégia de comunicação do candidato, que se baseou em segmentar as informações para os diferentes perfis de potenciais eleitores. Ao fazer isso, a figura do “mito” assume diferentes formas, se adaptando às diferentes aspirações de seus apoiadores, estratégia de comunicação similar à de Donald Trump.

Entre os 16 perfis analisados, estão as “pessoas de bem”, nerds conservadores, militares, " bolsogatas" e os da masculinidade viril, sendo este último um dos que mais chamam atenção pelo apoio prestado desde a pré-campanha e por terem — apoiados numa masculinidade violenta — o vislumbre do porte de armas como solução de problemas. Homossexuais conservadores que se consideram gays de direita porque “são pessoas direitas”, meritocratas com seu antipetismo e desprezo por pautas como homofobia e machismo, líderes religiosos e periféricos de direita também foram alguns dos perfis identificados pela pesquisa. Até monarquistas foram listados.

Conversamos com Isabela para saber mais sobre esse trabalho e esclarecer questões que nos levam a entender um pouco mais os porquês de todo esse recente fortalecimento de Bolsonaro e seus colegas da extrema direita no Brasil.

Leia também o estudo completo no site do NEU. Ou baixe o arquivo diretamente no link.

Qual foi a metodologia e o processo de produção dessa pesquisa?

Isabela Oliveira Kalil: Em 2015/16 eu comecei a fazer as pesquisas no NEU e passamos a observar algumas manifestações muito pequenas da extrema direita. A principal acredito que foi o acampamento da FIESP, onde diferentes grupos ficaram acampados por seis meses na Avenida Paulista e fizeram um trabalho de testar alguns tipos de discurso e ir vendo o que pegava. Foi aí que comecei a formular a hipótese de que essa nova extrema direita estava usando as ruas como um laboratório pra se aproximar das pessoas de forma mais abrangente. A manifestação de ideias que já circulavam no privado (como volta da ditadura) começaram a ser cada vez mais toleráveis no âmbito público. Tem muito da tática de segmentar e colocar pessoas com interesses em comum expostas a determinadas mensagens e mobilizar sentimentos, seja através do medo ou do “engraçado”. Aí as pessoas começam a encontrar eco nas vozes dos outros, inclusive pra violações graves de direitos humanos, dando mais legitimidade pra que se possa dizer essas coisas publicamente com muita tranquilidade.

A gente tem acompanhado alguns grupos da nova direita que passaram a existir ou ganharam mais visibilidade, como por exemplo os monarquistas que acabaram conseguindo ganhar espaço dentro da pré-campanha do Bolsonaro e trazer uma pauta que era deles para algo maior. As mulheres de direita também foi algo que foi crescendo a partir dessas mobilizações recentes de internet e de rua. A gente foi acompanhando o surgimento desses grupos em São Paulo e uma parte da equipe acompanhou pelo WhatsApp.

Qual nível de influência que você percebe dos veículos tradicionais de mídia na formação desse eleitorado?

Acho que a mídia tem uma grande responsabilidade nesse cenário. Por um lado, pela tolerância muito grande a discursos e práticas de ódio, contrários a constituição e a parâmetros mínimos de direitos humanos. E em torno da pauta da corrupção esses veículos alimentaram uma ideia maniqueísta, de disputa do bem contra o mal, como se a política fosse um campo próximo da religião. Quando na verdade o mundo da política tem muitas contradições e nuances e a mídia tradicional perdeu a capacidade de comunicar isso. Outro ponto lamentável sobre a imprensa é a falta de credibilidade. Tanto a esquerda quanto a direita têm alimentado um discurso de descrença com o jornalismo e isso é muito ruim porque o papel da imprensa é fundamental para a manutenção do processo democrático. Quando se vê como as matérias circulam online hoje, os jornais tradicionais têm conteúdos restritos, enquanto se tem a circulação desenfreada de matérias, muitas vezes falsas, pelo WhatsApp. A descrença nos meios tradicionais é geral e isso é muito perigoso quando as “notícias” circulam sem limites éticos por pessoas que acreditam que o que saiu no jornal não vale nada e o que ela leu no WhatsApp é verdade.



Após as pesquisas, o quanto você considera que o fator ódio/violência tem influenciado nessa aproximação de parte do povo com Bolsonaro?

Eu acho que tem uma questão do ódio sim, mas tem principalmente uma questão de medo. Um número muito pequeno desses 16 perfis que identificamos tem absoluta clareza das forças que estão mobilizando e do que perdem/ganham nesse jogo. Tem perfis ali que estão movidos por interesses estritamente econômicos, é aquele “não concordo com Bolsonaro, mas...”. A maior parte está sendo mobilizada pelo medo, principalmente quando a gente olha esse universo das notícias falsas que mexe muito com coisas que causam pânico nas pessoas. A campanha do Bolsonaro atua com uma lógica de olhar para o passado como algo glorioso e para o futuro como algo caótico. Então, “se não fizermos alguma coisa estaremos em risco” e nisso entra o medo do Brasil virar Venezuela, que no final das contas não se sabe bem o que isso significa. O que chega pro povo é que a gente não vai poder fazer compra, não vai ter emprego. As razões são legítimas. Ninguém quer passar fome, perder emprego, ter seu filho exposto a coisas inadequadas pra idade... Mas a questão é: esses riscos existem de fato? A gente conversa com as pessoas e elas nem sabem reproduzir direito, têm ideias muito vagas.

Outra questão é a da masculinidade, com perfis que são compostos por homens, jovens, que têm na afirmação dessa masculinidade e no uso do ódio uma espécie de possibilidade de legitimação na sociedade. É como se esses grupos entendessem que só vão conseguir lugar se afirmando a partir dessa masculinidade violenta. Se a gente olha a evolução da campanha do Bolsonaro, os primeiros grupos a apoiá-lo foram de homens jovens que operam nessa lógica. Olhando os perfis acho que esse é o elemento mais importante, pois isso é uma reação ao avanço de determinadas conquistas que são resultado da luta e processo de emancipação das mulheres. São grupos que não encontram mais a sociedade de antes e querem retornar a um modo de vida mais conservador.

E o quanto você percebe que a rejeição ajudou a promover Bolsonaro?

Se é verdade que a gente tem discursos específicos que mobilizam o medo entre eleitores dele, isso também funciona com seus rivais políticos. Acho que a ideia de isolar quem apoiava Bolsonaro, não interagir, deletar do Facebook, acabou gerando uma reação ruim: essas pessoas se sentiram seduzidas pelo discurso do medo propagado por ele e passaram a ver a esquerda como arrogante intelectualmente, um papel que não foi muito produtivo e deixou um campo em aberto pra que esses discursos de ódio e medo circulassem cada vez mais.

Outro ponto é que Bolsonaro se coloca como um personagem outsider, apesar dele estar há bastante tempo na política, e do ponto de vista da comunicação ele consegue reverter as coisas a seu favor. Por exemplo, quando aparece alguma denúncia contra ele num jornal tradicional, ele diz “tá vendo, eles não me querem na política porque eu represento o novo, eles não querem que eu fale a verdade”. Ele se coloca como antissistema e aí quanto mais ele é rejeitado pelo outro campo político, mais força ele ganha porque ele vai se colocando nesse lugar de vítima, que é perseguido porque fala todas as verdades.

A imprensa ajudou a corroborar essa ideia de que tudo na política é sujo e a gente não conseguiu pensar um projeto de democracia que informasse às pessoas que a corrupção está em diferentes esferas, que não é você diminuindo o estado ou privatizando o que é público que vai resolver o problema da corrupção, vai só mudar de lugar porque ela também tá no privado. Essa repulsa a tudo que se fala de política é um caminho muito perigoso, como a gente vai ter democracia se não estiver atento a essas formas de representação?

A pesquisa aponta que, para o eleitorado de Bolsonaro, “a solução poderia vir de uma redução do Estado (Estado mínimo) e pela substituição de políticos profissionais por figuras outsiders (amplamente explorada por Bolsonaro) ou por políticos não profissionais”. Isso talvez explique o ranking de deputados mais votados em São Paulo nessa eleição, com nomes como Alexandre Frota, Tiririca e Kim Kataguri...

Com certeza. Acho que essa perspectiva de ter que substituir todos os políticos tradicionais por figuras às vezes até obscuras é um desses efeitos. O problema é que há um número considerável de candidatos que, para se eleger, demonstram completo desprezo pelas instituições, pelo mundo político. É contraditório pois eles entram na política usando um discurso de repulsa a ela. A gente precisa sim de uma renovação na política, o congresso brasileiro não representa a sociedade brasileira, são famílias que tradicionalmente já ocupam o poder há muito tempo, a maioria homens ricos. Agora, essa crítica não pode se perder e ficar só num ataque às instituições, à democracia. Esse “acabar com tudo” é um caminho antidemocrático e é falso. Se a ideia de repulsa fosse verdade essas pessoas não estariam se engajando na política. O que no meu ponto de vista é bem preocupante é que em nome desse “acabar com a corrupção” a gente tá cada vez mais fragilizando a nossa democracia.

Fernando Gomes
Do Vice
No GGN

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