6 de out de 2018

Algumas sandices da eleição brasileira


Depois que até a vetusta vestal do liberalismo, The Economist, qualificou Bolsonaro como o maior perigo para a América Latina, o número de publicações europeias anti-ele cresceu. Recentemente mesmo publicações de alcance regional, como Die Rheinpfalz, do sudoeste alemão, deram espaço para críticas ao ex-capitão. E a histórica manifestação de domingo passado no Brasil e pelo mundo afora, puxada pelas mulheres, teve uma boa cobertura internacional em veículos como Der Spiegel, além de outros. Editorial do The Guardian de ontem, quinta, critica veementemente Bolsonaro.

Agora, focando-se a presente eleição, vê-se que ela apresenta preocupantes índices de sandice - misturas explosivas de loucura, insensibilidade e/ou estupidez.

A primeira sandice é o próprio apoio a e o voto em Bolsonaro e em seu fiel ou infiel acompanhante, o general Mourão. Não há desilusão com os políticos ou com a política que justifique isto, ao contrário do que muitos apregoam. Ambos são a face mais conturbada de nossa política, ali onde má fé, cinismo e ressentimento se misturam com ódio e desprezo por tudo o que é progresso humanitário, abrindo as comportas para o dilúvio de fobias que acompanha a dupla como sombra indelével. 

Apenas a ignorância auto-satisfeita ou sua indução podem justificar este passo em direção ao abismo. A indução à ignorância parte sobretudo da provinciana mídia mainstream do Brasil, que de liberal só tem o nome, assim como o PSDB de social-democrata só tem o nome. Esta ignorância não tem preconceito de classe: ela atinge abastados abestados, pobres que vestem contos de terror com adereços de contos de fada, e remediados (como se dizia antigamente da classe média) ressentidos com os “privilégios” das políticas sociais dos governos petistas anteriores. Sua resultante é o antipetismo contumaz que cega um grande número de pessoas para os males que já estão manifestos nesta campanha bolsonarista de continuidade e agravamento dos retrocessos de Temer em todas as frentes, do campo social, ou econômico, educacional, ou cultural, de saúde e etc. à política externa servil e capacho dos EUA. Bom há os que apoiam ou votam na dupla com convicção firmada, mas estes não incorrem em sandice. São a convicta “tigrada” da extrema-direita, a loucura levada adiante com profissionalismo.

A segunda sandice corre paralela a esta primeira. É a liberalidade cúmplice com que os apoiadores do golpe de estado de 2016 tratam o risco da eleição do neo-fascismo galopante. Entram nela as parcelas do judiciário que municiaram o golpe, acalentaram-no, induziram-no e agora se aferram em mante-lo vivo através das medidas de exceção, como a perseguição contra Lula ou o desfraldar de novas ou antigas denúncias premiadas contra ele e o PT. Os políticos e candidaturas que provém ou entraram neste campo golpista também estão agindo com extraordinária leviandade em nome de deter o que vêm como a avalanche histórica no PT e das esquerdas de um modo geral nos últimos anos. Lembram os aristocratas, burgueses e liberais da República de Weimar, na Alemanha, que viam em Hitler um mal menor, breve e passageiro, necessário para deter os comunistas e os social-democratas. Deveriam receber tratamento terapêutico, pois são suicidas em potencial. Entra aí também uma parte ponderável de comentaristas da mídia tradicional.

Mas há outras sandices em curso, também de vocação suicida. Refiro-me à brigalhada que observo entre partidários de Haddad e os de Ciro Gomes, trocando acusações e farpas absolutamente desnecessárias nesta altura do campeonato. Preocupam-me sobretudo tais ações por parte dos Haddades, pois este é o candidato que tem mais a perder com esta agressividade contraproducente. Tudo indica que Haddad irá para o segundo turno, armado cavaleiro das política sociais que fatalmente serão destroçadas mais ainda caso Bolsonaro vença e também armado cavaleiro anti-fascista. Na disputa do segundo turno a dupla Haddad/Manuela vai precisar do voto maciço dos ciristas, além dos que puder recolher entre marinas, meirelles e até alckminios, para vencer. Os de Boulos, na maioria, devem ir para Haddad, assim como os de João Goulart Filho e pelo menos vários de Vera Lúcia. Nestas hostes sempre haverá, é claro, os alucinados que pregarão o voto nulo. Dos outros partidários de outros candidatos não sei. Mas não é só isto. 

Se a nossa dupla vencer, ela terá de contar com Ciro e seus aliados para governar, pois certamente a fúria dos golpistas, se golpeados na eleição, irá recrudescer de modo vingativo e puxará inevitáveis terceiros e quartos turnos. Deve-se assinalar que há também uma tresloucada tentativa por parte de alguns ciristas no sentido de, a menos de 48 horas do começo do primeiro turno, querer reverter tudo e provocar uma nesta altura impossível gigantesca revoada de votos em Haddad/Manuela em direção a Ciro. Bom, deve-se reconhecer que tudo é possível neste poço sem fim de desvarios em que o golpe de 2016 e seus apensos mergulharam o Brasil.

Ainda há uma quarta sandice residual, a daqueles que querem por todos os meios provar que toda esta situação de crescimento vertiginoso das direitas extremadas ou não se deve unicamente ao PT, Lula e sua “política de conciliação”. Mutatis mutandis, lembram uma hipotética iniciativa de um pacifista carregando os fuzis do Exército Vermelho com pólvora seca por ser contra a guerra, em plena Batalha de Stalingrado.

Estas disputas intra-esquerda literalmente na boca das urnas também lembrar algo da República de Weimar. Tenho insistido na necessidade de que aqueles que vierem a Berlim visitem o Memorial da Resistência Alemã (Gedenkstätte Deutscher Widerstand) na hoje chamada Stauffenbergstrasse, no prédio que era a sede do QG do Exército Alemão. Ali se vê como a resistência dos alemães ao nazismo foi bem maior do que até hoje a maioria pensa. Porém ela padecia da eterna praga que se abate sobre as resistências nestes momentos cruciais. Como tenho dito, os social-democratas e os comunistas não se entendiam entre si, e não falavam com os liberais, que não falavam com os religiosos, e ninguém falava com os aristocratas e militares que, por sua vez, não falavam com ninguém. Outro exemplo histórico: a Guerra Civil Espanhola e as lutas fratricidas entre comunistas, anarquistas, trotskistas e liberais diante da muralha falangista.

Uma frente anti-fascista tem que subsistir caso Haddad e Manuela vençam o segundo turno - e também caso o brutalismo vença com Bolsonaro e Mourão.

Flavio Aguiar
No Carta Maior

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